terça-feira, 15 de abril de 2014

A FLU FM QUE TOCAVA ALTERNATIVOS EM 1986 NÃO SERIA PIOR DO QUE A RÁDIO CIDADE QUE SÓ TOCAVA 'HITS' EM 1996. MUITO PELO CONTRÁRIO


Oficialmente, a Rádio Fluminense FM teve sua fase áurea entre março de 1982, quando entrou no ar, e abril de 1985, quando seu diretor artístico Luiz Antônio Mello saiu da rádio. No entanto, o que poucas pessoas conseguem admitir é que a Fluminense, mesmo com seus erros, conseguiu manter sua qualidade até março de 1990, quando "descarrilou" de vez.

A memória curta de muitas pessoas, junto ao fato de que gerações recentes não vivenciaram muitas coisas importantes, além das distorções que a grande mídia faz da realidade em seus diversos aspectos, fazem com que a fase 1986-1990 da Fluminense FM seja injustiçada, pois é nela que várias pérolas alternativas foram tocadas sem que a maioria das pessoas se lembre.

Até pouco tempo atrás, houve até uma visão oficial de que uma Rádio Cidade metida a "rádio rock" era "melhor" que a Fluminense FM que, até suas homenagens de 2012 pelo projeto Maldita 3.0, havia ganho uma repercussão bastante negativa pelos erros cometidos entre 1991 e 1994.

Só que a Rádio Cidade, entre 1995 e 2006, e novamente desde março último, comete os mesmos erros que a Fluminense FM de 1991-1994 cometeu, até de forma bastante piorada. Só que a Cidade teve um departamento comercial forte o suficiente para "institucionalizar" seus erros e criar até um suposto "consenso" quanto à sua volta recente.

O vício que o público roqueiro de hoje tem de só valorizar o básico ignora que a cultura rock não vive só de "grandes sucessos" ou de "clássicos conhecidos" e mesmo o chamado "lado B" vai muito mais além daqueles semi-hits perdidos em algum playlist já descartado ou em faixas "difíceis" de algum LP menos conhecido.

Daí ignorar que a Fluminense FM tocou bandas alternativas que, se surgidas nos anos 60, estariam tranquilamente na coletânea de bandas de garagem Nuggets, que o guitarrista dos Wings (banda de Paul McCartney), Lennie Kaye, cuidadosamente produziu para a posteridade.

A Fluminense FM teve a ousadia de valorizar mais o repertório do Fellini e do Violeta de Outono do que uma 89 FM que rompeu com os independentes já em 1988. E tocou mais músicas do Camisa de Vênus do que a fake 96 FM, de Salvador, que havia empregado Marcelo Nova para apresentar um de seus programas.

Foi na fase 1986-1990 que a Fluminense FM radicalizou na divulgação dos independentes e alternativos, tocando bandas até hoje pouco conhecidas e sem qualquer promessa de lançamento no Brasil. E mergulhou fundo tocando também os alternativos que eram lançados no Brasil, seja pelas gravadoras "maiores", seja por selos como a Stiletto.

Nomes como Weather Prophets, Rose Of Avalanche, Big Dish (que recentemente lotou uma apresentação na Escócia) e Monochrome Set eram tocados diariamente na Fluminense FM, em qualquer hora do dia. Hoje acessíveis no You Tube, esses nomes eram irradiados constantemente nos 94,9 mhz de Niterói, numa façanha que nem a 89 FM, tão festejada na época, teria coragem de fazer.

Daí ser uma incoerência dizer, lá pelos anos 90 e até uns dez anos atrás, que a Fluminense FM de 1986 era pior que a Rádio Cidade de 1996. A Fluminense FM tinha coragem de tocar um Monochrome Set (grupo citado até no livro Mozipédia, disponível no mercado brasileiro, já que o cantor da banda é amigo de Morrissey), mesmo sem promessa de lançamento.

Já a Rádio Cidade de 1996, tão "elogiada" como rádio supostamente "alternativa" (menos, menos, rapaziada!!), não tinha coragem sequer para tocar Beck Hansen, mesmo com suas músicas tocadas o tempo todo na MTV da época, como "Loser" e "Devil's Haircut".

Pior: nesta época, a Rádio Cidade deu maior cobertura à tragédia dos Mamonas Assassinas do que do falecimento de Renato Russo, da Legião Urbana. A tragédia com Chico Science, então, foi passada quase despercebida, e só muito tardiamente a Cidade capitalizou em cima das mortes de Russo e Science, quando viu que poderia ter lucro e Ibope com elas.

Hoje a Rádio Cidade tenta avançar, mas mesmo assim de forma bastante tímida, castrada e sem a menor espontaneidade. Se a banda vem ao Brasil tocar num evento patrocinado por uma grande empresa de eventos, ótimo. Mas se ela vem ao Brasil para um evento gratuito de porte menor, nem com rezas.

A Rádio Cidade nada tem a ver com cultura alternativa nem com rock underground. Vamos cair na real.

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