sexta-feira, 28 de março de 2014

RÁDIO CIDADE SOFRE DA SÍNDROME DE MICHAEL JACKSON


A Rádio Cidade 102,9 mhz está um tanto confusa. Querendo rever parcialmente sua história, a emissora do Rio de Janeiro insiste num perfil "roqueiro" caricato, estereotipado e forçado, que não soa convincente nem supre as necessidades básicas da cultura rock, mesmo para iniciantes.

A Rádio Cidade força a barra porque, mesmo sendo uma rádio que fez história transformando a linguagem do rádio FM, sofreu da frustração de não ter o carisma da Rádio Fluminense FM entre os roqueiros.

A Cidade já tentou por quatro vezes se projetar como "rádio de rock": uma, de forma tímida, entre 1985 e 1989, na carona do Rock In Rio e como laboratório para a 89 FM de São Paulo. Depois veio a experiência de 1995 a 2000, mais pretensiosa mas menos escancarada. Aí veio a rede da 89 FM entre 2000 e 2006. Já a quarta tentativa é a atual, desde o último dia 10.

A Rádio Cidade sofre da síndrome de Michael Jackson. O falecido astro pop surgiu como um simpático cantor soul, que impressionava quando era criança, à frente dos irmãos músicos do grupo Jackson Five. Depois iniciou uma carreira solo de bons momentos, dentro da boa escola soul e embarcou com segurança na disco music e no funk autêntico, sob a ajuda de Quincy Jones.

Tudo estava bem até que, no disco de maior sucesso, Thriller, de 1982, um dos sucessos de Michael foi "Beat It", tocada em arranjo "pesado" com a participação de Eddie Van Halen na guitarra. Foi aí que Michael iniciou seu caminho perigoso, que em parte influiu na sua tragédia.

O cantor passou a sentir uma obsessão em ser "branco" e "roqueiro". Nos discos seguintes sempre colocava uma faixa com guitarrista. Bad, de 1987, "Dirty Diana", teve Steve Stevens, parceiro de Billy Idol. Em Dangerous, de 1991, "Give It To Me" teve a participação de Slash, do Guns N'Roses.

É de Dangerous também a música de trabalho, "Black or White", um "roquinho" cujo videoclipe mostrava Macaulay Culkin fazendo o papel estereotipado da criancinha rebelde cheia de clichês roqueiros, como ouvir som alto e fazer "air guitar" (gestos manuais simulando solo de guitarra).

Michael teve tanta obsessão em ser "roqueiro" que chegou a comprar os direitos autorais do repertório dos Beatles, se valendo da confiança de Paul McCartney, que duetou com ele na música "The Girl is Mine", de Thriller.

E isso influiu até no vocal, que passou a ser berrado, em vez da bela voz soul que marcou canções como "Rock With You", "Human Nature", "One Day in Your Life" e "Off The Wall", além do falsete da música "Don't Stop Til' You Get Enough".

Michael passou a ter uma desesperada mania de parecer "roqueiro" - uma forma de soar como "artista branco" que fez o cantor tomar remédios para clarear a pele - que se casou com a filha de Elvis Presley, Lisa Marie, e passou a imitar o então sogro vestindo um macacão semelhante ao que o falecido roqueiro usava nos últimos anos de carreira.

Temos depois, Michael passou a se vestir e a gesticular como Mick Jagger. Com o cantor dos Rolling Stones, Michael duetou na música "State of Shock" gravada com a banda dos irmãos, que havia sido rebatizada The Jacksons, no álbum Victory, de 1984.

A música, no entanto, teria dueto com Freddie Mercury, o finado cantor do Queen, para o álbum Thriller, mas problemas de agenda impediram o lançamento deste dueto. Composto com o guitarrista Randy Hansen, Michael havia bolado um arranjo "roqueiro" para a canção.

Mesmo em músicas não roqueiras, como em "They Don't Care About Us" e "Scream", esta em dueto com a irmã Janet Jackson, Michael tinha obsessão pela "atitude", o que fez com que ele se preocupasse com factoides e com uma personalidade esquisita, um tanto infantiloide, outro tanto pretensamente rebelde.

Curiosamente, Michael Jackson foi um dos nomes da música pop mais tocados pela Rádio Cidade, que já em 1979 dava alta rotação a músicas como "Don't Stop Til' You Get Enough", "Rock With You" e "Off The Wall". A rádio também deu todo o acompanhamento do sucesso de Thriller e mesmo na tímida fase "roqueira" de 1985-1988 não deixava de tocar as faixas do álbum Bad.

A obsessão "roqueira" matou Michael Jackson. Nem todo mundo tem vocação para ser roqueiro. Perseguir a rebeldia como um fim em si mesmo, bancar o "malvado", o "radical", não traz muita vantagem e o que se vê, na Rádio Cidade, é a mesma paranoia da falsa rebeldia adotada por Michael Jackson e uma obsessão forçada pela atitude roqueira.

Mesclando linguagem pop, a Rádio Cidade virou mera rádio de locutores e promoções. Tem departamento comercial enxuto, aumentou seu sinal de transmissão etc etc etc. Com fraca programação musical, a rádio não convence sequer quando tenta tocar bandas "alternativas", até porque, ironicamente, elas seriam muito melhor tratadas por uma OI FM.

Com rádios realmente roqueiras botando para ferver frequências afora - como a Kiss FM e Fluminense AM - , a Rádio Cidade ainda fica colada, no dial, com a emissora pop Mix FM e, ao lado desta, tem a similar Transamérica FM. As duas nem de longe acreditam que se livraram da concorrência da Rádio Cidade, até porque, em matéria de QI, a Rádio Cidade está MAIS POP do que nunca.

Nenhum alternativo e nenhum roqueiro exigente irá ouvir a Rádio Cidade. Também não cairão mais nesse papo cansativo que mais parece disco riscado que diz "pelo menos a Cidade é muito melhor que muita rádio aí...", porque esse papo de se contentar com pouco cansa com a paciência de qualquer um. Da mesma forma que os roqueiros não querem ficar ouvindo somente os "sucessos da Cidade".

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