quinta-feira, 13 de março de 2014

RÁDIO CIDADE NÃO TEM SERVENTIA PARA A CULTURA ROCK


Do contrário do que dizem as informações oficiais, a volta da Rádio Cidade ao rótulo "roqueiro" pouco diz ao fortalecimento da cultura rock, num contexto em que a 89 FM anda enfraquecida dentro do público roqueiro - ela só atrai fãs de pop juvenil que gostam de "rock mais comercial" - e não conseguiu colocar o rock acima sequer do "funk ostentação" no mercado jovem paulista.

Na verdade, a Rádio Cidade, hoje, não tem a menor serventia para a cultura rock. O retorno, ocorrido no dia 10 de março último, encontra uma situação muito diferente daquela de 1995 ou mesmo de 2006. E que está deixando a 89 FM, em São Paulo, com cara de rádio mofada e frouxa.

Em 2006, quando a Cidade e a 89 largaram o rock, a grande mídia ainda exercia sua supremacia sobre a opinião pública. Folha de São Paulo e Veja, já reacionários, ainda gozavam de alta reputação. A Internet estava incipiente e o mainstream da opinião pública estava nas mãos de internautas conservadores, muitos deles bastante reacionários, como os chamados troleiros (trollers).

Além disso, a redescoberta do rock mais antigo e mais alternativo na Internet era incipiente e praticamente restrita ao público estrangeiro. Hoje isso já se reflete muito mais no Brasil, e hoje até pessoas com menos de 25 anos são mais receptivas a nomes como Gentle Giant, Byrds e Seeds.

Naquela época, muitas pessoas não tinham exata noção do que era uma verdadeira rádio de rock e o que era uma falsa rádio de rock. Se tinha o rótulo "roqueiro", tudo era "verdadeiro". Além disso, a visão provinciana, que continua valendo hoje, era muito pior antes, porque qualquer questionamento ao "estabelecido" era alvo de represálias digitais.

Atualmente, o reacionarismo digital foi desmascarado, em boa parte se não por completo, e atualmente se tem mais liberdade para questionar o "estabelecido", até porque o possível reaça de plantão também tem mais risco de "levar uma surra" verbal de outros internautas.

Por isso, a Rádio Cidade volta sem o glamour esperado, apesar do "bom desempenho", como a 89 FM que joga sucessos do rock para fãs de Rihanna e Justin Bieber. Na Rádio Cidade, ocorrerá o mesmo de 1995, com a diferença que ela terá à frente a concorrência da Kiss FM que, em que pese algumas farofices do poser metal, se esforça em se aprofundar na cobertura do rock.

RÁDIO DE ROCK EXIGE PERSONALIDADE, NÃO SÓ "VITROLÃO"

Os tempos são tão outros que as fórmulas adotadas pelo rádio há muitos anos atrás, ainda lançadas como se fossem "novidade" e bajuladas até pelas colunas e portais de rádio do Brasil, são hoje mofadas. O "Aemão de FM", por exemplo, teria sua razão de ser há 40 anos, e hoje nem a linguagem "renovada" da Bradesco Esportes FM consegue atrair audiência.

A baixa audiência, ocultada por um Ibope que ainda mostra rádios com "100 mil ouvintes" - índice inalcançável no contexto de crise midiática de hoje - , já faz diversas rádios demitirem funcionários, o que já ocorreu, no Rio, com emissoras como Bradesco, Band News, Globo e Tupi, apesar de seus "excelentes" pontos de audiência oficiais.

Dentro desse quadro, se a Rádio Cidade e a 89 FM pareciam muito velhas em 2006, hoje parecem tão mofadas que o jeito é elas assumirem que adotam um perfil "mais comercial" e "jovem". Elas desistiram de serem consideradas emissoras "radicalmente rock", depois da gafe de um enfurecido "Roger Strauss", reacionário ex-produtor da Cidade, ter dito que odeia os clássicos do rock.

Mas o contexto em que as duas rádios se encontram é ainda mais distante do universo roqueiro do que se imagina, o que recomenda que elas não mais estejam vinculadas no contexto de rádios de rock, mas no de rádios de pop.

Isso se explica pelo fato de que a linguagem e a mentalidade da Cidade e 89 não diferem muito de uma Mix, Jovem Pan 2 e Transamérica (esta ainda mais decadente, voltada a atender interesses pessoais de DJs e dirigentes esportivos - seu dono e banqueiro Aloísio Faria é amigo de Ricardo Teixeira).

Rádio de rock não se faz só com "vitrolão roqueiro" ou coisa parecida. Também são insuficientes artifícios como vinhetas em que alguém fala a palavra "rock" como se estivesse arrotando, ou um logotipo esperto que coloca esta mesma palavrinha mágica de quatro letras em destaque. Do mesmo modo, são inúteis também declarações de locutores, produtores e gerentes artísticos neste sentido.

MICHAEL JACKSON, JONAS BROTHERS, PINK

O que a Rádio Cidade e a 89 FM têm que encarar e assumir é que seu contexto não tem mais a ver com radialismo rock, mas com o radialismo pop mais convencional. Elas estão num contexto em que Michael Jackson é consagrado na posteridade por ter gravado "Beat It" e "Black or White", e um sem-número de ídolos teen alternam popices dançantes com canções levemente roqueiras.

Hoje fãs de Iron Maiden, AC/DC, Van Halen e outros, mesmo nomes como Ramones e Clash, não querem mais ouvir rádios como a Cidade e a 89, porque elas só tocarão aquilo que já está mais manjado nos discos que esses fãs possuem há anos em suas coleções. Até fãs como os de Oasis, Pearl Jam, Blur e Foo Fighters, só para dizer os mais recentes, estão se afastando dessas rádios.

O que a Cidade e a 89 fazem é apenas tocar um roquinho "acessível" para fãs de pop. Isso é tão claro que, na volta da Cidade, pouco se falou fora a reprise do "Invasão da Cidade" com a Legião Urbana (programa que foi ao ar quando a Cidade ainda tocava Michael Jackson e Madonna na sua programação).

As duas rádios são uma espécie de "Restart radiofônico", e isso nada tem de calunioso. Vá ouvir programas como "Hora dos Perdidos", "Esquenta", "Pressão Total" ou mesmo o "Temos Vagas", e a analogia ideológica com a banda de Pe Lanza é exatamente a mesma.

Enquanto isso, é uma tendência mundial que essa abordagem das duas rádios reflita muito mais o que nomes como Demi Lovato, Jonas Brothers, Shakira, Pink, Kelly Clarkson, Avril Lavigne, o seriado Glee ou mesmo Britney Spears cantando "I Love Rock'n'roll".

Lá fora, existe um público que coloca Offspring e Limp Biskit e Jennifer Lopez e Beyoncé na mesma coleção de CDs e essa realidade já existe há um tempo. O próprio Jay Z que é marido e parceiro de Beyoncé também gravou disco com o Linkin Park, banda similar ao Limp Biskit.

Ninguém posa de roqueiro-jaquetão. Não faz mais sentido aquela atitude contraditória da Rádio Cidade alternar um astral "baixo Gávea" ensolarado e alegre e um mau humor muito mal copiado de gangues de motoqueiros heavy. Ninguém aguenta mais essa atitude barra-forçada, de um radicalismo roqueiro que na verdade não existe.

Portanto, se a Rádio Cidade queria ser conhecida como a rádio que fez história na cultura rock, é bom esquecer. Mesmo as posturas condescendentes com essa fantasia toda, ditas por muita gente boa, se apagarão ao longo do tempo. A verdade não está no que a publicidade do rádio, nem sempre verídica, diz ou quer nos fazer crer. Hoje temos posturas cada vez mais céticas e críticas sobre o setor.

A Rádio Cidade, pelo menos, não voltou com a palavra "rock" no logotipo. Melhor assim. Até porque o que voltou não foi uma rádio de rock, aliás uma coisa que a Cidade nunca foi realmente. O que voltou é novamente uma rádio pop que toca sucessos do rock. E que não supre sequer as necessidades básicas dos fãs de rock, mesmo os mais iniciantes.

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