segunda-feira, 17 de março de 2014

EM 25 ANOS, ROQUEIROS SE AFASTARAM DAS RÁDIOS COMERCIAIS "DE ROCK"

AGORA É A VEZ DOS FÃS DE FOO FIGHTERS E PEARL JAM SE AFASTAREM DAS DITAS "RÁDIOS ROCK" MAIS COMERCIAIS.

A realidade é um tabu para colunistas de rádio e pode ser considerada absurda para muitos internautas. Mas a verdade é que, nos últimos 25 anos, as rádios comerciais que usam o rótulo de "rádios rock", com todo o pretensiosismo de serem "para sempre roqueiras", só conseguiram afastar o público roqueiro ao longo dos anos.

Os retornos da 89 FM, em São Paulo, e da Rádio Cidade, no Rio de Janeiro, apesar do aparente sucesso, apontam para essa tendência. Seus ouvintes estão muito mais interessados em ouvir piadas, game shows e coisas que eles estavam acostumados a ouvir, tipo Charlie Brown Jr., Guns N'Roses, CPM 22, Offspring e Mamonas Assassinas do que os verdadeiros nomes do rock.

A maioria dos comentários daqueles que comemoraram a volta das duas rádios se voltava mais para a irreverência de programas como "Sobrinhos do Ataíde", "Hora dos Perdidos" e "Pressão Total" do que por alguma volta do repertório roqueiro.

Em compensação, a cada dia internautas que defendem a 89 FM e a Rádio Cidade passaram a esculhambar os clássicos do rock, como Beatles, Who e Led Zeppelin, usando a desculpa de que "preferem rock novinho" que não cola sequer em músicos contemporâneos como Dave Grohl, Eddie Vedder, Noel Gallagher e James Hetfield, admiradores confessos do rock mais antigo.

ÊXODO ENVOLVEU DO ROCK DA BARATOS AFINS AOS BEATLES

Desde 1989, quando veio a onda de rádios comerciais rotuladas de "rock", quando várias emissoras pop embarcaram na onda e, sem fazer qualquer adaptação de perfil nem de linguagem, mudaram a planilha musical para o rock, limitando-se aos sucessos empurrados pela indústria fonográfica.

A suposta disposição dessas rádios em tocar bandas alternativas ou mais seminais ou viscerais de rock se dissolveu quando o espaço ao rock que não faz sucesso nas paradas era restrito a programas semanais de uma hora,  afastou muitos fãs de rock que já se sentiram constrangidos com a linguagem pop adotada pelos locutores e pelas vinhetas das emissoras.

Em 1994, a debandada envolveu muitos fãs de rock alternativo mais acessível, como Sonic Youth, Jesus and Mary Chain e Dinosaur Jr., o que fez a 89 FM - que tentou ser um arremedo de college radio entre 1993 e 1994, devido ao auge do modismo grunge - mudar a orientação, sem largar o rótulo "roqueiro", preferindo um "rock mais pop", entre um Offspring e um Guns N'Roses.

A 89 FM já havia sofrido, em 1988, o êxodo dos fãs de rock independente - Violeta de Outono, Fellini, Mercenárias e Voluntários da Pátria - depois que a emissora rompeu o acordo de divulgação das gravadoras independentes, como a Baratos Afins, só trabalhando com as grandes distribuidoras fonográficas.

Foi a grande debandada sentida nas rádios comerciais, depois que várias delas que irradiavam pelo resto do país - como a 96 FM, de Salvador, a Atalaia FM, de Aracaju e a primeira afiliada da 89 FM, em Recife - abandonaram o gênero, devido à baixa audiência.

Depois, ao longo dos anos 90, foi a vez das bandas mais antigas, como Deep Purple, Doors, Jethro Tull e Led Zeppelin estarem envolvidas no êxodo de ouvintes, juntamente com nomes oitentistas como Smiths, Siousxie and The Banshees e, pouco depois, Cult.

A debandada ainda se avançou quando fãs de Beatles, Rolling Stones e Who também pularam fora. Isso já no começo dos anos 2000. Isso enfureceu os produtores da 89 e Cidade, que passaram, na Internet, a esculhambar os clássicos do rock e a brigar com o público roqueiro, o que custou os mais de cinco anos de "suspensão" da programação "roqueira" das duas rádios.

Atualmente as duas rádios voltaram como meras alimentadoras de concertos internacionais de rock, mais pelo departamento comercial e pelas boas relações de seus donos com Roberto Medina e outros chefões da indústria de promoção de eventos internacionais do que por algum valor que elas tinham para a cultura rock que, sinceramente, é nenhum.

Apesar do aparente sucesso - se bem que abaixo do noticiado, num contexto em que rádios FM só conseguem ter, no máximo, 1/5 da audiência declarada no Ibope e outros institutos - , a 89 e a Cidade só estão sendo conhecidas mais pelos seus programas de humor, pelas promoções e pelos programas de jogos e perguntas.

Depois do alarde dado à reprise do programa "Invasão da Cidade", com a Legião Urbana, gravado em 1992, nada mais foi comentado de importante a respeito da volta da Rádio Cidade "roqueira". Em São Paulo, a 89 FM não consegue colocar o rock como principal referencial musical para a juventude, que continua mais voltada ao "funk ostentação" e ao "sertanejo universitário".

AGORA, O ÊXODO ATINGE OS FÃS DE NIRVANA, FOO FIGHTERS E PEARL JAM

E, agora, espera-se uma nova debandada. Além dos fãs de nomes como Iron Maiden, Metallica, Ramones, Clash e AC/DC saírem de fininho e romperem com as duas rádios, agora é a vez de fãs de bandas que eram carros-chefes das rádios comerciais "roqueiras" de 1989-1993, como Nirvana e Pearl Jam, caírem fora de vez.

Percebendo que o tempo comprovou a importância de grupos como Pearl Jam, Nirvana / Foo Fighters e Oasis, e pelo fato de que seus integrantes são admiradores de rock antigo e amigos de muitos veteranos - como a amizade de Dave Grohl com o ex-beatle Paul McCartney - , os fãs de rock dos anos 90 já começam a evitar as rádios comerciais "roqueiras".

Isso é tão certo que, certa vez, no Facebook, um engraçadinho lançou um "meme" - espécie de mensagem simplificada em arquivo de imagem - em que ficava surpreso com a semelhança entre o baterista do Nirvana e o cantor e guitarrista do Foo Fighters, ignorando o fato óbvio de que se trata exatamente da mesma pessoa.

Já dá para perceber que, daqui a cinco anos, até os fãs da Legião Urbana se esquecerão dessas rádios. Até porque o ouvinte-padrão da 89 e Cidade prefere o Charlie Brown Jr. que já tem seus mortos para admiração. E durante muito tempo os fãs de Charlie Brown Jr. esculhambaram a Legião Urbana, para só depois embarcar na saudade por Renato Russo.

E o Rock Brasil hoje migrou para rádios de MPB, coisa que só agora começa a ser parcialmente revertida com um programa sobre rock brasileiro veiculado pela Kiss FM, o programa BR 102, mas mesmo assim restrito aos nomes das grandes gravadoras.

Se os ouvintes da 89 e Cidade também acham que até Mamonas Assassinas é "puro rock'n'roll", já dá para perceber então qual será a próxima debandada. Só sobrará nos cardápios dessas "rádios rock" um Capital Inicial que atualmente está mais pop e se apresenta até em eventos com ídolos brega-popularescos.

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