domingo, 16 de fevereiro de 2014

OFENSAS DIGITAIS PODEM CAUSAR ENCRENCA


Já enfrentei trolagens pesadas na Internet. Por duas vezes, houve gente que invadiu fóruns de Internet e criaram páginas ofensivas na Internet contra mim, achando que suas causas estavam ganhas e que eles tinham todo o direito de me ridicularizar.

Mas o problema é que, na inversão do ditado popular, há um dia do caçador e um dia da caça. Não exatamente porque a vítima irá degolar o caçador, mas é porque o caçador pode se tornar presa de algum outro predador que vier no caminho.

Há muitos troleiros violentos que acreditam na impunidade plena, que praticam bullying digital na certeza de serem vistos apenas como "saudáveis brincalhões". Confiantes em excesso de si mesmos, eles acreditam saberem selecionar seus amigos e inimigos e que nenhuma encrenca chegará a seu caminho.

Chegam até a rir de advertências dos outros. "Eu sei me virar, eu já sou crescido", diz, em tom jocoso. Se até Jesus chegasse a ele para lhe dar um aviso, ele esnobaria ou, em casos extremos, diria o surrado refrão reacionário "Vá se catar, seu m...".

Só que quem age por impulso nem sempre tem a situação sob controle. O encrenqueiro pode conseguir controlar sua situação por um ou dois anos, talvez um pouco mais. Mas, no meio do caminho, o valentão que achava que vence tudo, por uma outra discussão pequena ou algum outro incidente inesperado, é capaz de jogar sua fúria para seus próprios aliados.

Imagine um rapaz que comanda toda uma trolagem no Orkut, transformando a página de recados de um desafeto numa simulação de chat em que vários convidados para a "brincadeira" dizem mensagens irônicas e zombeteiras. Chega o momento em que este rapaz, animado com a "zoeira" de seus amigos, vai ameaçando o desafeto de uma forma ou de outra.

"Vem para a festa na boate tal, na Barra da Tijuca. O DJ tal vai tocar lá. A gente tem o maior prazer de te receber, miguxo. Huahuahuahuah!", escreve o troleiro, sem conseguir disfarçar que está atraindo seu adversário a uma emboscada, provavelmente para este levar uma surra do troleiro e seus amigos.

Passada a farra - evidentemente a vítima não se interessou em ir para a boate, sabendo o que iria acontecer - , o troleiro valentão, todo feliz da vida, mal sabe que seu melhor amigo está dando em cima da namorada do primeiro.

Verificando as mensagens do Facebook - o Orkut saiu de moda - , o troleiro descobre, nas mensagens de amor que sua namorada deu ao amigo, que está sendo traído pelos dois. Tomado de fúria, ele vai para a casa do seu ex-melhor amigo para tirar suas satisfações e encontra ele e a garota no quarto.

Depois de uma discussão, ele tenta agredir a namorada. O amigo não deixa e os dois se atracam. A violência é tamanha que os dois, tomados de fúria agressiva, se jogam contra o computador do outro cara - o amigo do líder troleiro - derrubando o vídeo, e com o impacto dos dois corpos em briga, derruba o gabinete, arranca os fios da tomada e, num curto circuito, o computador pifa e seu conteúdo é perdido.

Vamos para outro caso. Um outro valentão que anda com rancor contra um desafeto que discorda de seus pontos de vista, decide criar um blogue de ofensas e calúnias e vai copiando indevidamente os textos do adversário, inserindo em cada parágrafo comentários irônicos e ofensas violentas.

De repente, o adversário pede para o troleiro se moderar e este não gosta. Vai ao blogue ofensivo e copia mais um texto, inserindo as zombarias suas nos parágrafos. E, sabendo onde o adversário mora, vai para a cidade dele sob o pretexto de tirar fotos para o seu Instagram para intimidar. É como se ele dissesse, apenas por atos, que "estava na área" do seu adversário.

Só que o valentão é observado por um grupo de milicianos que fazem ponto em algum estacionamento vizinho. "Ei, esse cara é do Extra (jornal popularesco carioca) ou tá tirando tempo com a gente?", pergunta um miliciano a outro.

Evidentemente, o grupo não vai se dirigir ao valentão porque é um horário de muito movimento, pode ter muitas testemunhas, mas de repente, em outros dias, os milicianos veem que o valentão anda sempre com um grupo de amigos.

Aí, de repente, um miliciano encontra um outro amigo do valentão e, iniciando uma conversa sutil e falsamente amistosa, arranca informações do valentão, qual o seu sítio na Internet, sua conta no Facebook etc.

Aí, certo dia, o valentão, todo feliz da vida, faz sua consulta na Internet e recebe, no Facebook, o seguinte recado de um homem que usa pseudônimo e uma foto que não seja a deste sujeito: "E aí, cara, se tu tá querendo tomar nosso pedaço, tome cuidado, ou a gente vai ensinar o que é se meter nos negócios dos outros".

O valentão toma um susto, mas tenta escrever uma mensagem tranquila dizendo "Que negócio, cara? Eu sou da paz! Eu tô na minha! Nem sei do que você está falando", escreve ele, achando que isso irá resolver os problemas.

De repente o valentão tem outra polêmica com o desafeto de antes. E, irritado, vai até a cidade onde ele vive para tirar fotos e ameaçar com sua presença. Ele paquera uma moça que, por uma mera coincidência, espera seu ônibus próximo aonde estão os milicianos. O valentão olha com atenção para a garota mas os milicianos pensam que ele está realmente querendo tomar o negócio.

"Olha aí, o cara quer tomar mesmo a nossa área. Vê o olhar de atento nele. Ele tá ali mesmo para ganhar tempo e depois tomar nosso pedaço", diz um. "Eu ameacei o cara e ele disse que não sabe o que a gente tá fazendo. Mas eu sei onde ele mora, vi o Facebook do cara", diz outro. "Isso é onda. O cara tá de olho na gente. Vamos dar uma lição no cara".

Dias depois, numa saída do trabalho, o valentão, tranquilamente, se despede dos colegas. Segundos depois, uma dupla de motoqueiros dá uma disparada e o que está na garoupa dá dois tiros no valentão, que sai gravemente ferido. Sobrevive, mas só depois de um bom tempo descobre a burrada que cometeu.

Portanto, quem quiser fazer atividades ofensivas na Internet, tome muito cuidado. Uma coisa é criticar e apontar defeitos que realmente existem, e até fazer críticas enérgicas quando necessário. Outra coisa é investir em ofensas gratuitas pelo intuito de desqualificar sem perdão. Um dia o troleiro toma gosto demais na sua fúria e acaba sofrendo as duras consequências de seus atos.

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