terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

DEDICADA À MPB, RÁDIO INTERNA DA REDE HORTIFRUTI JÁ TOCA BREGA


Com tantas coisas legais para serem tocadas, sobretudo produzidas antes de 1967-1968 - o biênio considerado "marco" de uma concepção dominante de cultura brasileira defendido por intelectuais de hoje - , as rádios e outros espaços da MPB perdem tempo com a rendição ao brega.

Recentemente, a "reabilitação" de Michael Sullivan - o antigo chefão do brega que hoje posa de "coitadinho" e "vítima de preconceito" - tornou-se sintomática desse processo, embora ele chegue ao seu ponto extremo com o forte lobby em torno da defesa do "funk".

Ontem eu estava numa filial da rede de supermercados Hortifruti - especializada em alimentos, com ênfase em legumes e verduras - e estava tocando o hit brega "Mordida de Amor", do grupo Yahoo, um dos protegidos de Michael Sullivan. A música, por sua vez, é uma versão mais brega da intragável "Love Bites", dos farofeiros britânicos do Def Leppard.

Claro, eu não posso sentir estranheza porque, na visão da intelectualidade "bacaninha", eu seria "elitista", "moralista" e "preconceituoso" com os tais "sucessos populares". O grande problema, no entanto, é que esses "sucessos populares" se propagaram dentro de um contexto de manipulação midiática e politicagem grosseira nos meios de comunicação.

Sim, porque as pessoas se esquecem que Michael Sullivan era figurão das Organizações Globo, comandando o mercado de "sucessos musicais" com mão de ferro e feliz em servir a uma rede de televisão que ignorou a campanha das Diretas Já e se aliou às tramas políticas de gente como Antônio Carlos Magalhães, Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.

Hoje ele é o "coitadinho" que "fazia coisas bonitas" e a choradeira promoveu Sullivan como um "gênio da MPB". Teve até tributo dotado de muita cosmética "emepebista" para embelezar os lixos produzidos pela dupla Sullivan & Massadas.

E tudo que for protegido seu agora "também é MPB". Yahoo, José Augusto ou mesmo canções duvidosas gravadas por gente da MPB, como a infame "Um Dia de Domingo", um dueto que encontrou Tim Maia e Gal Costa em fases menos inspiradas.

É lamentável que o brega, que já possui espaços demais na mídia e no circuito de apresentações ao vivo, queira obter mais e mais espaços. Sob o pretexto de "reconhecimento" e "conquista de seus próprios espaços", o brega toma os espaços dos outros e deixa a MPB privada de seus próprios espaços.

Que "ruptura de preconceito" é essa? Hoje o que se vê é mais preconceito contra a MPB, enquanto o brega sempre foi hegemônico, sempre foi establishment, do Oiapoque ao Chuí, e agora amplia suas reservas de mercado.

O maior temor é que as rádios de MPB, daqui a 20 anos, sejam meras reciclagens do que rádios como a 98 FM, Nativa FM, Band FM, O Dia FM e similares tocaram nos últimos 35 anos. Imagine ouvir até "Ilariê" nas rádios de MPB que se esqueceram de tantas coisas boas da nossa música?

Aí sim veremos quem é que sofre preconceito. O brega sempre se beneficiou com sua supremacia não-assumida, posando de falsa vítima para ampliar seus mercados. A MPB é que, escorraçada pela própria intelectualidade "bacaninha" (só ela ouvia as preciosidades emepebistas que o "povão" desconhece, e já começa a ficar cansada delas), sofrerá preconceitos cada vez piores.

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