domingo, 23 de fevereiro de 2014

CAIO CASTRO: O "JUSTIN BIEBER" DA TELEDRAMATURGIA?


Por Alexandre Figueiredo

É muito perigoso que alguém que pareça formador de opinião e modelo de personalidade a ser seguido pelos fãs demonstrar péssimos hábitos ou posturas lamentáveis. E Caio Castro, um dos astros em evidência da Rede Globo, é um exemplo mais típico dos tempos recentes.

Em uma entrevista reprisada no canal pago GNT, no programa de Marília Gabriela, Caio afirmou que não gosta de teatro nem de literatura. A declaração causou uma reação de indignação de atores diversos, como Laura Cardoso, Rosamaria Murtinho, Maitê Proença, Pedro Paulo Rangel, Miguel Falabella (que disse que ele era um "desinibido", não um ator), entre tantos outros.

Mesmo Beth Goulart - que atualmente está no teatro fazendo uma peça sobre Clarice Lispector na qual ela dirige, produz e é autora do texto, além de interpretar a própria escritora - , que afirmou que a liberdade é sem limites, sentiu estranheza ao ver um ator renegando o teatro e desprezando a literatura, já que as artes cênicas muitas vezes se inspiram em obras literárias.

Caio Castro virou o símbolo da estupidificação da juventude brasileira. Algo que os barões da grande mídia estavam tentando fazer junto à "inocente" indústria do entretenimento, como meio de enfraquecer o potencial de curiosidade e busca de informação das pessoas nascidas, na maioria, de 1978 em diante.

Sabe-se que os chefões da mídia e do entretenimento investiram pesado para que as gerações de adultos e jovens de hoje sejam seduzidas à mais escancarada mediocrização cultural, às custas do apego à noitadas e à curtição compulsiva e viciada (mas nada prazerosa), do desprezo à cultura autêntica e da supervalorização, em tom de fanatismo, de modismos e fenômenos comerciais.

Daí as pessoas que apreciam breguices. Daí as pessoas que vão para as noitadas com espírito mais para ressaca do que para a verdadeira alegria festiva. Daí as pessoas arrogantes que não aceitam que suas posturas duvidosas sejam contestadas por outrem. Daí as pessoas que odeiam livros, filmes e peças de teatro e se acham felizes com isso.

É uma mistura de niilismo com narcisismo, de baixa auto-estima com arrogância, de pessoas que tentam buscar a alegria que lhes foge, já que, quando contrariadas, essas pessoas reagem com ódio, esnobismo e ainda vão ridicularizar o discordante em algum sítio na Internet ou nas redes sociais.

E qual é o símbolo deles? Simplesmente aquele que simboliza o "sucesso do momento". E por que essas pessoas são "sucesso"? E por que são vistas como "ideal de vida e de personalidade"? Porque simplesmente são famosas e pronto. Antes, alguém ficava famoso porque era talentoso, hoje há quem seja visto como "talentoso" só porque conquistou a fama.

Caio Castro não parece um ator ruim. Mas como personalidade deixa muito a desejar. Muito superficial, chegou a faltar um importante evento social porque estava embriagado. Como desculpa, inventou que "não estava se sentindo bem de saúde".

Agora é a declaração que ele havia dado na época e que foi reprisada na TV paga. E os fãs de Caio Castro caem no delírio. Acham que ler livros é perda de tempo. Como se não bastasse a declaração da prepotente Ivete Sangalo, nos tempos em que ela era uma pretensa unanimidade aos olhos do poderio midiático então com hegemonia quase absoluta.

Isso faz lembrar Justin Bieber, o astro mirim que, em sua vinda ao Brasil, fez apresentações incompletas e caiu na farra e na curtição. Justin ainda posou de "garoto mau", aprontou umas, bebeu todas, exaltando todo o vazio de um entretenimento juvenil ruim em que a curtição torna-se um fim em si mesmo, sem qualquer serventia para a existência humana.

A turminha reaça do Orkut e Facebook, que adora o "sucesso" pelo sucesso e se sentem ofendidos quando se critica até as tosses de uma Britney Spears, sempre gosta desses exemplos que lhes são "tudo de bom, nota déis (sic) e show de bola".

Desde que Xuxa deseducou os corações e mentes infanto-juvenis nos anos 80, o emburrecimento contaminou uma boa parcela das pessoas. Há gente que foge desse caminho, sim, mas a maioria sucumbe à bregalização, à curtição viciada, à estupidificação que nem faculdade resolve, até porque, com tantas universidades privadas, o ensino superior, mesmo público, foi para a "privada".

E como serão as gerações futuras? Se já temos que aguentar uma intelectualidade "bacaninha" achando que ser cafona é o "máximo", eles que são as únicas referências possíveis de "mestres" para o chamado brasileiro médio, imagine então a juventude, ou mesmo os trintões de primeira viagem dos últimos cinco anos, que adoram se achar a "galera", usando e abusando dessa gíria tola?

Já sentimos hoje a glamourização de muito lixo brega de 25 anos atrás, tido hoje como "genial" só porque foi trilha sonora de namorico ali, de bebedeira acolá, ou porque serve de contraponto para artistas sofisticados que os intelectuais de hoje aprenderam a odiar.

Será que Caio Castro entrará na Academia Brasileira de Letras daqui a 50 anos, quando o critério até lá, se a mediocrização cultural ir adiante, será apenas "dar um alô pra galera" nas mídias sociais? Será que a burrice de hoje será a sabedoria de amanhã, e muito malandro receberá aplausos só porque "aprendeu a viver" na tal "escola das ruas"?

Isso é muito preocupante. E é bom que fiquemos atentos. Afinal, a verdadeira perda do preconceito não está na aceitação inverificada de tudo, mas no questionamento verdadeiro dos problemas, mesmo que seja para pôr em xeque modismos estabelecidos e bem sucedidos.

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