quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

BIBLIOTECA AO AR LIVRE É OPÇÃO CULTURAL PARA NITEROIENSES

A BIBLIOTECA AO AR LIVRE, VISTA NO CAMPO DE SÃO BENTO, SOB O PONTO DE VISTA DE QUEM ENTRA PELA AV. ROBERTO SILVEIRA.

Reportagem de Alexandre Figueiredo

Nos fins de semana, as pessoas em Niterói que passeiam pelo Campo de São Bento já estão acostumados com a grata surpresa. Uma modesta estante de livros e um grupo de caixas mostra vários títulos de livros e revistas disponíveis para consulta pública. Nele, há um aviso que pode estranhar a princípio: "Leve o que quiser. Traga quando puder".

Mas o aviso é esse mesmo e o leitor logo percebe a iniciativa. Trata-se de uma biblioteca ao ar livre, modesta mas interativa, já que as pessoas podem levar e trazer livros e movimentar esse modesto espaço cultural, que se realiza desde setembro de 2013, por iniciativa do artista plástico e estofador Marcos Vinícius, que conta sobre o surgimento do projeto.

MARCOS VINÍCIUS MANTÉM O PROJETO HÁ MAIS DE SEIS MESES.

"Alguns anos atrás, eu vi uma reportagem, em torno de uns doze anos atrás, de um açougue em São Paulo e o cara teve essa ideia,e deu tanto certo que não cabia mais no espaço que ele tinha e ele passou a espalhar nos pontos de ônibus. E, há uns oito anos atrás, eu tive a mesma ideia numa loja em Itaipu, onde se via 12 mil livros."

Terminando o comércio, Marcos Vinícius contou que decidiu aproveitar o que sobrou dos livros para criar um espaço no Campo de São Bento para que as pessoas pudessem levar os livros que quiserem. A ideia, a princípio, era de se livrar do material que tinha, mas, de repente, várias pessoas pediram para que pudessem também trazer os livros de seu acervo, e assim o espaço ganhou um novo significado.

A BIBLIOTECA, VISTA EM OUTRO ÂNGULO.

"As pessoas pediram e solicitaram para que pudessem trazer de volta. E com isso se tornou um ciclo, mesmo que trabalhoso, também é bem satisfatório, aonde as pessoas se encontram e encontram inclusive detalhes do que foi no passado e não tinham mais na memória. E com isso continuei mantendo e estou mantendo isso aqui para que as pessoas possam interagir entre elas", disse Marcos, acrescentando seu desejo de que a cultura se propague de maneira mais fácil e sem custo, bastando o carinho das pessoas em levar e trazer.

A tarefa de manter o projeto não é fácil. Além do trabalho que Marcos tem de trazer e levar seu acervo e de mantê-lo em um pequeno depósito, já houve pessoas que se sentiram incomodadas e queriam acabar com o projeto. Além disso, Marcos também encontrou dificuldades ao tentar obter o apoio da Prefeitura de Niterói.

"Durante essa época do comércio que fiz durante oito anos, eu tentei fazer do espaço que eu tinha, porque era onde estão os livros e peças de antiguidade também, fazer dele um espaço cultural que infelizmente a política não permitiu", disse, lamentando o desinteresse das autoridades em investir em projetos culturais como a biblioteca.

UMA SENHORA ACABOU DE DEIXAR A BÍBLIA SAGRADA NA OCASIÃO DA REPORTAGEM.

Marcos não costuma acompanhar rigorosamente o trânsito dos livros, mas dá sua estimativa a respeito das obras que mais aparecem no leva-e-traz da biblioteca. A maioria delas é relacionada a religião, filosofia e auto-ajuda. "Tudo que demanda uma terapia ocupacional anda rápido", explica Marcos.

Quanto aos clássicos, os livros que aparecem são obras de Jorge Amado, Machado de Assis e José Lins do Rego, entre outros. Na ocasião da entrevista, apareceram dois exemplares da Bíblia Sagrada. Foi encontrado também o livro Apocalípticos e Integrados, de Umberto Eco, importante livro para entender a cultura de massa no mundo, e também no Brasil. Eu não peguei esse exemplar porque já tinha uma cópia no meu acervo de livros.

O FAMOSO LIVRO DE UMBERTO ECO SOBRE A "CULTURA DE MASSA".

Já em relação aos livros raros e as novidades, Marcos Vinícius não costuma acompanhar o trânsito de obras desses tipos, embora afirme que isso acontece. No entanto, ele conta uma história curiosa sobre uma série de livros sobre a história da cidade de São Paulo, intitulados Cidade da Light. Os grandes volumes, que tornavam ainda mais penoso o já difícil trabalho de transportar o acervo da sua loja para o Campo de São Bento, eram por isso indesejados por Marcos, que curiosamente não guarda volumes sobre a história de Niterói.

Certa vez, quando ele expunha os livros, um senhor observou os três grandes volumes e comovido, chegou a chorar, vendo na capa de um deles a cabine onde ele havia trabalhado no passado. Pesquisando este volume, ele não viu o seu nome na lista de antigos funcionários, mas viu o de outros com os quais trabalhou naquele tempo.

Comovido, o senhor avisou a Marcos do seu interesse em levar os livros, saudoso de tantas recordações do seu tempo. E assim ele levou os grandes volumes para sua casa, prometendo trazer outros livros para a biblioteca ao ar livre. E foi aí que surgiu uma coincidência para Marcos.

MARCELO PEREIRA, DO BLOGUE PLANETA LARANJA, TAMBÉM CONFERIU O ACERVO.

Marcos havia pensado em adquirir o livro Mergulhos na Paz, de Hermógenes, para dar a uma filha adolescente. Ele nem havia pensado em pedir para alguém, mesmo para o senhor que levou os livros sobre São Paulo, para pegar um exemplar da obra procurada. Mas, um desses acasos, foi justamente um dos livros que recebeu da doação do leitor. Por uma saudável ironia, a desagradável tarefa de levar e trazer os livros sobre a história de São Paulo rendeu um duplo benefício.

Sua expectativa é poder cumprir a obrigação de propagar o que tem de bom na cultura literária, vendo que a iniciativa traz benefícios para as pessoas que querem não apenas levar mas trazer livros. Marcos sugere, portanto, que outras pessoas tenham a mesma iniciativa, para aproveitar livros usados que ele, em tom de lamentação, define como "resíduo sólido".

O ENTREVISTADO E O ENTREVISTADOR.

"Eu não tenho nenhum sonho de consumo com relação a isso, só poder continuar a fazer enquanto meu organismo aguentar, e que a Secretaria de Cultura ou a Cultura de um modo geral se empenhe em mais disso. Eu ganhei livros que foram jogados fora dentro da Biblioteca Municipal ou Estadual. Muitos deles serviram aqui. Por que deixar a Cultura, já que é um resíduo sólido? Isso aqui é um resíduo sólido, que é jogado fora, e não um lugar de que seja falado, que seja propagado, um lugar que reflita mesmo que seja para um descarte de forma ecológica, o resto do aproveitamento do material. Por que não incentivar a cultura do povo para esse ponto?", conclui.

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