quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

1990 DESEDUCOU AS PESSOAS


Por Alexandre Figueiredo

A memória curta e a mania de relativismo da opinião pública atual, aliada a uma mistura de "cultura trash" com ideais "politicamente corretos" é a receita de uma mentalidade viciada que atinge até mesmo determinados especialistas culturais.

Tomados como "bússolas" tanto a intelectualidade cultural pró-brega quanto emissoras de rádio FM mofadas, mesmo os especialistas mais dedicados são tentados a ficarem presos no hit-parade, tão acostumados a trabalhar o agenda setting das pautas noticiosas.

Pois o hit-parade é o agenda setting musical. E o agenda setting é o hit-parade da notícia. Mas poucos percebem isso e o mais grave disso tudo é a mania de internautas pretensiosos fazem de soarem "alternativos" e "vanguardistas" apreciando apenas (ou prioritariamente, ao menos) as "referências de sucesso", como se fosse fácil bancar o diferenciado sendo óbvio e previsível.

Hoje ninguém garimpa mais novas informações, fontes raras etc. De repente eu consulto a Internet e vemos pessoas cada vez menos conectadas. Elas se prendem mais facilmente ao óbvio, e ainda falam mal de Justin Bieber, como se reprovassem tudo o que ele fez de fútil e frívolo na sua carreira.

Pois isso se expressa sobretudo pelo saudosismo da estranha década de 1990, uma década que não teve um fim declarado, mesmo com a junção de fim de década, fim de século e fim de milênio. A "década que não acabou" nem virou passado e virou alvo de muito saudosismo.

Pois foi na década de 1990 que os ideais duvidosos se consagraram. Nela se encerraram os últimos vestígios do idealismo e da criatividade da década de 1960, substituídas por um "pragmatismo" de consumo e diversão obsessivos que derrubou de vez qualquer busca por valores sócio-culturais autênticos.

O hit-parade dos anos 80, símbolo lúdico da "década perdida" dos EUA e Reino Unido - dominados por políticos conservadores como Ronald Reagan e Margareth Thatcher - , se prosseguiu na década de 90 e virou modelo para a supremacia brega-popularesca no Brasil.

Para piorar, porém, a "cultura da década perdida" nem de longe é devidamente criticada, muito pelo contrário. Quem se encoraja a criticar a mediocrização cultural brasileira é xingado de "elitista" por intelectuais " bacanas", fora o bullying virtual que recebe de internautas indignados.

Se fulano ficou 20 anos de carreira sem sofrer (em tese) graves arranhões, ele virou um "gênio". Pode ser um cantor medíocre, um músico ruim, um compositor sem um pingo de criatividade. Ou então é uma celebridade sem ter o que dizer, e que fica chateando o público com factoides e apelações cada vez mais repetitivos e sem graça, mas que empolgam a imprensa dita "popular".

De vez em quando aquele jornalista que parecia mais esclarecido fica elogiando algum nome medíocre dos anos 90, como se fosse "o maior gênio de todos os tempos" ou ao menos um "nome admirável a zelar". Se esquece que este nome havia simbolizado as baixarias dos anos 90 e era visto como ridículo até mesmo por pessoas mais flexíveis nas suas avaliações culturais.

Mas hoje o poser metal, o "rock de mariquinhas" dos anos 80 que emplacou nos anos 90, virou sinônimo de "rock clássico". Os mais risíveis nomes do "pagode romântico" e do "sertanejo" de 25 anos atrás são falsamente associados à "música brasileira de raiz". O lamentável "funk" de 1990 hoje é "genuína canção de protesto". E por aí vai.

E as garotas da Banheira do Gugu? Elas seriam também feministas? Ratinho seria um "mestre do jornalismo investigativo"? Vão reabilitar o É O Tchan e tratá-lo como se fosse um "complexo multimídia de vanguarda"? Tudo por causa dos "muitos anos de sucesso"?

Para piorar, surgem não só jornalistas "tarimbados" ou acadêmicos "dedicados" a exaltar tudo isso. Já e multiplica uma rede de ideólogos que terceiriza a pregação da intelectualidade do "bom" etnocentrismo. Tudo porque virou norma exaltar a mediocrização iniciada ou consagrada nos anos 90 como se fosse um "clássico".

E tudo isso sob diversos pretextos: "é mais divertido", "as velhas tradições são derrubadas", "lembram as coisas boas da vida", e tudo o mais. E por isso seus ideólogos, sobretudo intelectuais "conceituados", soam "mais bacanas", porque eles anunciam a "livre diversão", com seu discurso persuasivo e simpático.

Para piorar, esses intelectuais tentam adotar uma postura falsamente progressista. Como eles se autoproclamam "amigos do povo", muita gente acredita. Mas quase ninguém percebe que esses pretensos "profetas da diversidade cultural" são na verdade ideólogos de "livre mercado" com a habilidade de manipular seus discursos com muita esperteza.

Eles misturam suas pregações neoliberais com "chavões" do discurso modernista ou esquerdista, e com isso deixam de ser reconhecidos facilmente como ideólogos culturais do "livre mercado" e da "livre iniciativa". E, com isso, glorificam a mediocrização cultural e tentam ganhar tempo para cristalizar seu discurso de modo a dificultar qualquer questionamento.

Os anos 90, a "década perdida" do Brasil, deixaram essa herança. A cada ano o país torna-se ainda mais culturalmente medíocre e a complacência intelectual torna-se ainda maior. Se a coisa continuar assim, vamos achar até o MC Créu genial. De complacência em complacência, se fazem os idiotas que fazem a fortuna de reaças como o anti-brasileiro Olavo de Carvalho.

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