quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

NOÇÃO DE LEIGOS SOBRE O QUE É JORNALISMO


A julgar pelos exemplos vistos em determinadas famílias de classe média no Brasil, nota-se que a incompreensão da profissão de jornalista não envolve apenas o processo ideológico, mas mesmo nas caraterísticas específicas da profissão.

Se uns acham que o jornalista é um "herói da opinião pública", quase um "guerrilheiro" de caneta, papel ou gravador (ou celular, conforme as tecnologias atuais) na mão, e outros acham que a profissão é uma espécie de tradução informal e socialmente "acessível" da função de juiz - superestimando, no caso, a função opinativa de muitos jornalistas - , a incompreensão vai ainda mais longe.

Há aqueles que acham que jornalista é aquele que tem a arte de escrever aquilo que não sabe, geralmente em última hora, que redige seu texto como uma redação escolar - sem que suas famílias saibam a diferença entre carta de leitores, reportagens e artigos, tudo virou "reportagem" - , e divulga o texto em última hora, pouco importa se o assunto "morreu" ao longo do dia.

São familiares que se aproveitam que um filho é jornalista e pedem para escrever sobre isso ou aquilo. A tia pede para ele escrever sobre as opiniões religiosas dela. É o pai querendo que o filho escreva sobre a privatização do ensino superior, que o filho discorda, é o tio querendo que o filho faça um belo texto sobre futebol, que seu sobrinho detesta, e por aí vai.

Mas o jovem, coitado, não pode sequer escrever as "pautas" de seus parentes em paz, porque de manhã é hora de faxina na casa, e digamos que o jornalista esteja desempregado. Ele não pode sequer ligar o computador de manhã, porque é "vadiagem", é "irresponsabilidade".

Se ele liga o computador para saber as notícias do dia na Internet, seus familiares não gostam, saem todos reclamando, os pais com aquela angústia que mais parece a dos "dárquis" do antigo Crepúsculo de Cubatão. Toda aquela choradeira, porque o filho jornalista não ajuda a família, está lá no seu "bem bom".

Não adianta o filho dizer que jornalista acompanha as notícias de manhã cedo. Ligar a Internet de manhã é um ato de "malandragem", primeiro é preciso "fazer as coisas de casa" e depois, à tarde, ver as notícias, com o dia já em movimento e os acontecimentos em curso, tal qual um trem que já está longe de seu ponto de partida.

Suponhamos que o jovem aceite as "dicas" dos seus entes. Para a família, o jovem só deve usar o computador à tarde, seguir a "pauta" dos parentes, como se fosse mais um porta-voz deles, um mero escrivão das vontades de seus familiares, do que um jornalista que exercita seu próprio pensamento.

Escreve-se uma redação, primariamente redigida, com seus "achismos" e seus "julgamentos" primários. Aliás, já que falamos de primário, a "reportagem" - na verdade, um artigo mediocremente escrita - é redigida independente do assunto ter sido esfriado pelo decorrer do cotidiano.

O pai, que não entende de jornalismo mas, por ser um assíduo consumidor de telejornais e jornais impressos, não quer saber. Ele até sugere para o filho mandar o texto "café frio" para o jornal.

- Manda esse texto para o jornal tal, rapaz! - diz ele.

- Ah, pai, mas esse texto é meio frio. Vou tentar mandar para a seção de leitores, através do endereço de e-mail, mas não há garantia de sucesso. - reage o filho.

- E qual a certeza de que não vai ter sucesso? Vai lá, escreve que eu pedi, e você vai ver se faz sucesso ou não.

- Tudo bem, pai. Mas não sei se vai dar certo.

- Você não tem que saber, tem que fazer.

Aí o rapaz escreve os tais textos. Redação escolar rotulada de "reportagem". Manda o texto no final da tarde, às 17h30 ou depois disso, e aí ele chega na redação uns poucos minutos, por conta do pequeno intervalo de "trânsito" entre a "reportagem" enviada e a chegada à redação.

Vale lembrar que o jornalista optou primeiro para mandar o texto sugerido pelo pai, que é a defesa da privatização das universidades públicas. O filho discorda, mas o pai, dado a repetir os argumentos "racionais" de jornalões e telejornalões que consome diariamente, bateu o pé e disse que o filho está "definformado"das coisas.

Aí o texto, já "requentado", sem algum contexto para seu envio, chega à redação - que já se prepara para produzir e verificar as notícias que refletirão no dia seguinte - e o responsável para receber as mensagens de e-mail nem dá bola para o texto "triunfantemente" enviado.

- O que é isso? Redação para jornal? Ah, o rapaz escreveu que gostaria de trabalhar conosco? Mas, assim? Isso é redação de primário, não é jornalismo! - disse o editor, assim que recebeu a mensagem impressa pelo responsável para receber as mensagens de e-mail.

A coisa fica como ficou. Em nada. A família se consola, já que o filho se desculpa de que eles, os jornalistas, estão verificando a mensagem recebida por eles e estão analisando o texto que ele lhes enviou.

Mas, na prática, o jovem jornalista fez um ato inútil. Ele não fez jornalismo. Foi mero garoto de recados de seu pai, escreveu uma redação digna de aluninho de oito anos, com um tema sem contexto e enviado para jornalistas que já pensam no dia seguinte.

Daí a compreensão torta sobre jornalismo: escrever sobre o que não sabe nem acredita, em última hora, no final do expediente, por meio de um texto rudimentar. Se trabalhasse num jornal, sendo este progressista ou conservador, esse jornalista já estaria na fila de futuros demitidos.

O mesmo "jornalismo" que enche de orgulho o pai do jovem jornalista envergonharia até mesmo os medíocres editores-chefes de nossa imprensa, já que como técnica jornalista - e mesmo para os parâmetros do pior jornalismo praticado hoje na grande mídia - torna-se um texto muito ruim para ser considerado um artigo, quanto mais uma reportagem.

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