domingo, 5 de janeiro de 2014

KELY CRISTINA E A NOVA VISÃO DAS PERIFERIAS



O maior pesadelo da intelectualidade cultural dominante é ver as periferias superando e rompendo com seus estigmas de cafonice, de grotesco e pieguice, sobretudo dentro dos estereótipos esperados por historiadores, antropólogos, jornalistas culturais e cineastas mais badalados.

No final do ano, a imprensa, mais precisamente a Revista do Globo, destacou a musicista niteroiense Kely Cristina, de uma orquestra de música clássica. Jovem, negra e de origem pobre, a garota busca um aprimoramento no aprendizado musical, sendo multiinstrumentista.

Kely destoa daquele perfil "ideal" sonhado pelos intelectuais mais festejados. Não curte "funk" nem "pagode romântico", aprecia rock, jazz, Bossa Nova e música erudita, e procura se aperfeiçoar no seu aprendizado musical. Se ela se tornar compositora, o que é uma questão de tempo, seu talento será completamente diferente ao da costumeira breguice que predomina nas rádios e TVs.

Kely tem apenas 15 anos e atua como violoncelista na Orquestra de Cordas da Grota, formada em 1994 pelo maestro Márcio Selles e integrado por músicos oriundos de comunidades carentes, a partir da própria Favela da Grota do Surucucu, onde nasceu Kely.

Ela tinha outros planos que destoavam da realidade de sua família. Não queria ser doméstica. Tem facilidade para aprender instrumentos musicais, sabendo tocar piano, flauta, violoncelo e violão. Evangélica, aprendeu ainda guitarra elétrica, teclado, bateria e contrabaixo elétrico na sua igreja.

No final do ano passado, ela se formou na primeira turma da Academia Juvenil da Orquestra Petrobras Sinfônica, depois de dois anos de curso. Ganhou elogio, por seu desempenho e dedicação, dos professores da Academia, incluindo um assistente do maestro Isaac Karabtschevsky.

Kely Cristina só não consegue se dedicar ao violoncelo, sua principal opção de instrumento, porque precisa cuidar de sua irmã, quando a mãe trabalha e a avó não está em casa. Ela pretende fazer bacharelado na Faculdade de Música, no que se refere a este instrumento.

A jovem já se apresenta em festas de casamento, visando um sustento para sua vida. Mas, quando se apresentou na rua, em frente ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro, fez pelo simples prazer de se divertir e tocar, conquistando a simpatia das pessoas em volta.

Ela reclama que precisa tocar com instrumentos emprestados. E lamenta também que há pessoas na favela que ainda têm preconceito com o fato de pobre querer ser instrumentista. Um sério preconceito, aliás, que observamos bem que é reforçado pela ideologia que a intelectualidade dominante prega sobretudo em relação ao "funk".

Os jovens das favelas só podem ser instrumentistas quando vão fazer "pagode romântico", aquela linha de montagem em que se adapta o pop romântico norte-americano com instrumentos de samba, quase nada tendo de samba, a não ser nas formas tendenciosas do "samba sério" que alguns nomes mais veteranos tentam, tardiamente, fazer.

Kely mostra que existe luz no fim do túnel. Nem todo mundo quer fazer papel de cafona, de brega. Há pessoas que querem se evoluir culturalmente, e a jovem Kely é uma amostra de uma nova perspectiva das periferias, uma nova visão cultural das classes populares.

Pena que ela é vista como "pobre de alma elitista" pelos preconceitos que a intelectualidade "sem preconceitos" expressa por aí. Mas até Kely ganhar destaque como musicista, daqui a alguns anos, talvez tenhamos uma outra intelectualidade a pensar numa verdadeira cultura popular, progressista e orgânica.

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