domingo, 12 de janeiro de 2014

É FEIO SER FREGUÊS NO BRASIL?



É feio ser freguês no Brasil? É horrível fazer parte de uma freguesia? A palavra "freguesia", que de tão bonita gerou dois bairros homônimos no Rio de Janeiro - um na Ilha do Governador, outro em Jacarepaguá - , de repente, caiu em desuso por força do poderio midiático que é capaz de manipular as gírias e ditar o vocabulário a ser usado pelo "senso comum".

Vide, por exemplo, o que Luciano Huck faz com a gíria "balada" e o que Fausto Silva faz com a gíria "galera". De repente, essas gírias se tornam "populares", não pela força do convívio entre amigos, mas por força do poder de quem difunde essas gírias. A ditadura midiática forja seus próprios colóquios e quase ninguém percebe essa armadilha.

A expressão "cliente", que agora corresponde a todo tipo de freguês, tornou-se outra coqueluche da ditadura midiática, substituindo a expressão "freguês", sob o pretexto de que o jargão esportivo - influência de Galvão Bueno ou, ao menos, Luciano do Valle ou Milton Neves? - deu um sentido pejorativo a tal palavra, dada a alguém que ficou para "pagar por um prejuízo".

Dias atrás, no Bom Dia Brasil, da TV Globo, houve mais um dos milhares de exemplos de substituição da palavra "freguês" pela palavra "cliente". Numa notícia sobre café da manhã em Salvador, feita pelo repórter Mauro Anchieta, da TV Bahia, ele mencionou a palavra "clientela", em vez de "freguesia", referente a uma lanchonete que oferece café da manhã na capital baiana.

Fica muito estranho, mas o uso da palavra "cliente" tornou-se "natural" por causa da rotineira difusão da grande mídia. Como a gíria "balada", privativa do vocabulário clubber - aquele dedicado a um público de pop dançante viciado em noitadas - , que se tornou falsamente "universal" e "atemporal" por causa da persuasão midiática.

A diferença entre freguesia e cliente é que esta última palavra é muito mais específica para serviços de consultório e escritório, não correspondendo a todo tipo de serviço. Mas se até mesmo borracharia de fundo de quintal já não tem mais fregueses e sim "clientes", algo está muiot errado.

Mas não é só a TV Globo que arma essa cilada. Os fregueses agora são "promovidos a clientes" por outros veículos como a TV Record, o SBT e a TV Bandeirantes. Os barões da grande mídia parecem não gostar mais da palavra freguês, parece até que virou um palavrão a ser evitado pelos chefes de redação e seus empregados.

Recentemente, o Jornal da Band, temporariamente sob o comando do reacionário Bóris Casoy, havia divulgado uma reportagem em que um entrevistado, um segurança de um centro comercial, provavelmente já influenciado pela ditadura midiática, cita a palavra "cliente" em vez de "freguês".

O premiado jornalista britânico Robert Fisk já havia alertado sobre o chamado "vocabulário do poder", palavras que a grande mídia difunde de forma que elas pareçam ser de uso comum da sociedade.

É certo que Fisk se referia aos jargões de natureza política e militar adotadas em assuntos de geopolítica internacional, mas sua análise se encaixa perfeitamente ao contexto das "inocentes" gírias "culturalmente" difundidas pelo jornalismo e pelos programas de entretenimento.

São apenas "sobremesas", mas que significam o quanto os barões da mídia usam simples expressões coloquiais para testar o inconsciente coletivo de seus espectadores, leitores e ouvintes. E mostra um grande perigo desse verdadeiro hipnotismo vocabular nas pessoas.

Pois se o garotão sarado é capaz de substituir expressões diversas como "festa", "jantar" e "agito" por "balada" e, em vez de dizer "família", "colegas", "turma" e "equipe", prefira agora falar "galera" disso ou daquilo, imagine então a legitimidade que esse pessoal é capaz de dar a um Olavo de Carvalho, se ele aparecer todo dia no horário nobre da televisão.

Daí esse perigo da ditadura midiática começar a manipular as pessoas com simples gírias ou jargões.

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