terça-feira, 17 de dezembro de 2013

THE VOICE BRASIL BANALIZA "LIÇÃO" DOS NEO-BREGAS


Muitas vezes o pior precisa, no seu prejuízo escancarado, explicar o ruim que muita gente pensa ser coisa boa. O The Voice Brasil, com seus cantores de proveta fazendo seus malabarismos vocais, mais gritando do que expressando beleza na voz e soando mais técnicos do que criativos, é uma boa lição disso.

Desde os anos 90 a mediocridade cultural mostra ídolos neo-bregas usurpando o cancioneiro da MPB autêntica. "Sertanejos" de asfalto interpretando Clube da Esquina, Renato Teixeira, Lupicínio Rodrigues e canções tradicionais caipiras. "Pagodeiros" de boutique interpretando Djavan, Jorge Ben Jor, Lupicínio Rodrigues e canções tradicionais sambistas. E por aí vai.

A axé-music, o "pagodão" pornográfico baiano, o "forró eletrônico" etc também se valiam dessa parasitagem musical. Gravam covers da MPB autêntica com a obsessão de parecerem "artistas sérios" e se vincularem, de uma forma ou de outra, aos artistas originais.

Quando os ídolos eram gente apoiada pela grande mídia, pela intelectualidade cultural dominante e eram bem tratados pelo mercado, sua usurpação era aplaudida. Por mais oportunistas que sejam Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Belo, Frank Aguiar, Banda Calypso, Ivete Sangalo e Zezé di Camargo & Luciano, a blindagem midiática os fazia "respeitáveis".

As gravações que esses nomes faziam para clássicos da MPB autêntica, ou então de nomes mais sofisticados como Jorge Aragão, Renato Teixeira, Wilson Simonal e Geraldo Vandré - inclusive a canção "Disparada" cuja letra vai contra a profissão de fé coronelista dos "sertanejos" - poderiam ser constrangedoras, mas a "boa imagem" dos neo-bregas trabalhada pela mídia disfarçava.

Mas no The Voice Brasil, a coisa torna-se escancarada não só pelo fato de não serem os cantores protegidos do mercado e da mídia, mas por sua fórmula se tornar banalizada e sem as sutilezas das versões dos neo-bregas, que pelo menos tinham a ajuda decisiva de arranjadores sérios mas que estavam no plantão das grandes gravadoras.

Graças a esses arranjadores, a canastrice de um Alexandre Pires, de Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, ou de um É O Tchan que aparece de vez em quando gravando coisas como "Cada Macaco no seu Galho", do grande sambista Riachão, poderia passar quase incólume, soando "sofisticada" para o gosto médio e tranquilizando até mesmo as elites intelectuais.

Mas o The Voice Brasil, por ser uma competição de calouros, dentro dos padrões mais comerciais ditados pela Endemol, a empresa holandesa dona da franquia adotada pela Rede Globo, não adota tais sutilezas, não existe a "MPB de mentirinha" feita para enganar até mesmo estudiosos de música.

Daí as broncas que se fazem contra as versões de sucessos de João Gilberto, Beto Guedes e outros. Zélia Duncan, por exemplo, escreveu no Twitter que a caloura Marcela Bueno "jogou na fogueira" a música "Amor de Índio", de Beto Guedes.

A intelectualidade pró-brega até tentou dar o apoio, animada com a "subversão" dada aos totens consagrados da MPB que seus "pensadores bacaninhas" querem tanto derrubar. O que eles querem mais é ver um The Voice Brasil todo dedicado a Chico Buarque, com gente desafinada cantando as músicas dele em arranjos pasteurizados que a intelligentzia julga "libertários".

Dois dos jurados do programa já são suspeitos desse processo. Cláudia Leitte, cantora de axé-music, e Daniel, ídolo breganejo, já parasitaram a MPB autêntica em seus discos, em covers por demais oportunistas e pedantes.

Cláudia já é um clone de Ivete Sangalo, a tendenciosa cantora baiana que quer bancar a "dona da MPB" e possui um talento musical mediano. Daniel, por sua vez, reedita a imagem do cantor brega dos anos 70 - tipo Nahim e Ângelo Máximo - no contexto do breganejo dos anos 90, sem ter uma música autoral que deixe marca, se alimentando somente de regravações de sucessos alheios.

Portanto, o The Voice Brasil apenas leva às últimas consequências a usurpação dos clássicos da MPB que os neo-bregas haviam feito há pelo menos 15 anos, muitas vezes em tributos e especiais transmitidos pela Rede Globo.

Nenhum comentário: