sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O "MORDE E ASSOPRA" DE VEJA



A revista Veja, que condena todos os movimentos sociais, resolveu chorar suas lágrimas de crocodilo em relação ao falecimento do ativista e ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela. A publicação colocou uma foto do líder negro na capa, pegando carona na comoção popular e na surpreendente solidariedade à sua figura.

Afinal, o funeral do líder negro atraiu mais autoridades que os funerais do presidente dos EUA John Kennedy, assassinado há 50 anos, e do primeiro-ministro britânico, Winston Churchill, um dos artífices para a vitória dos aliados sobre os fascistas na Segunda Guerra Mundial.

Veja pega carona no mito de Mandela sem ter adotado uma postura autocrítica em relação à participação, até pouco tempo atrás, do grupo midiático Naspers, no quadro acionário da revista. O grupo nasceu sob o nome de Nasionale Pers e teve inclinação racista e fascista.

Em seu histórico, o Naspers era ligado ao Partido Nacional, organização das elites africâneres - de etnia branca, em sua maioria de origem holandesa - , e apoiou o regime do apartheid que o partido havia instaurado em 1948, e que durou 42 anos.

Através do Naspers, se ascenderam três dos primeiros ministros do regime de segregação racial da África do Sul, sendo o primeiro Daniel François Malan,entre 1948 e 1954, que foi clérigo da Igreja Reformada Holandesa. Ele fortaleceu a legislação racista e fundou o Partido Nacional, resultante da fusão do Partido Reunido Nacional e do Partido Africâner, ligados às elites racistas.

Depois, outro figurão do Naspers foi Hendrik Frensch Verwoerd, chegou ao poder em 1958. Sob seu governo, ocorreu o massacre de Sharpeville, no dia 21 de março de 1960, quando 69 manifestantes que foram protestar contra a Lei do Livre Trânsito - que determinava os locais onde cada etnia sul-africana poderia circular - foram mortos a queima-roupa, e 180 saíram feridos.

Revoltado com o massacre, o agricultor negro David Pratt tentou matar Verwoerd num evento comemorativo da Páscoa, em 16 de abril de 1960. Verwoerd saiu ferido. Pratt foi preso e foi declarado louco, e ele suicidou-se poucos meses após sua prisão.

No mesmo ano, o ativista Nelson Mandela fundou o Umkhonto we Sizwe ("Lanceiro da Nação"), braço armado do Congresso Nacional Africano, fundado em 1912 e que se opunha ao regime de segregação racial. Outro líder do CNA, Albert Lutuli, ganhou, também em 1960, o Prêmio Nobel da Paz pela sua luta pacífica contra o apartheid.

Outro negro, Dimitri Tsafendas, que era caixeiro do Parlamento Sul-Africano, acabou cometendo outro atentado contra Verwoerd, desta vez conseguindo matá-lo. Foi em 06 de setembro de 1966, quando o primeiro-ministro estava no prédio do Parlamento, e foi esfaqueado por Tsafendas até a morte. Tsafendas foi preso e morreu doente em 1999.

Pieter Botha foi o terceiro que surgiu do Naspers. Atuou ordenando o massacre aos opositores do regime, mas enfrentou uma séria crise política de dimensões internacionais. Botha governou entre 1978 e 1989, até 1984 como primeiro-ministro e daí para Presidente de Estado.

Foi durante seu governo que a África do Sul teve suas sanções políticas, econômicas e até esportivas - sobretudo com o boicote ao turismo e a proibição de times esportivos de participarem em torneios internacionais - , além de haver projetos ativistas musicais que cantavam o fim do apartheid e a libertação de Nelson Mandela.

Destaca-se até mesmo uma música vibrante, a bela "Free Nelson Mandela", gravada em 1984, um ska vibrante feito pelo grupo Special AKA, formado por alguns integrantes dos Specials com a colaboração de integrantes do English Beat (ou The Beat). No Brasil, a música esteve em alta rotação na programação normal da Rádio Fluminense FM, de Niterói.

Com a crise atingindo níveis insustentáveis, Botha foi sucedido por Frederik De Klerk, que deu início a uma série de reformas políticas ao chegar ao poder, em 1989. Revogou várias leis do regime de apartheid e libertou Nelson Mandela, que havia sido prisioneiro desde 1962 e antes condenado à prisão perpétua.

Mandela foi eleito presidente da África do Sul em 1994 e governou até 1999. Ele e Frederik De Klerk haviam ganho o Prêmio Nobel da Paz em 1993, por conta de seus esforços para dar fim ao regime de apartheid.

É um breve histórico que a mídia reacionária até pode escrever, mas não da forma a solidarizar-se com os movimentos ativistas e sim contar a história do passado de forma "honesta", dentro do tendenciosismo das grandes corporações midiáticas.

Além disso, o irônico título "o guerreiro da paz" mostra o quanto a revista Veja parece morder os beiços diante das boas relações que Nelson Mandela teve com líderes esquerdistas, embora o líder sul-africano buscasse boas relações também com políticos moderadamente conservadores, já que, democrata, estava acima das ideologias. O título da capa seria uma alusão à breve experiência de Mandela como guerrilheiro em 1960.

A atitude "morde e assopra" de Veja certamente não mudará coisa alguma. A revista está sofrendo um violento encalhe de suas edições. Do Naspers, que recentemente deixou o quadro acionário da revista brasileira, só editores e jornalistas haviam feito em 1997 manifesto pedindo desculpas pela defesa do apartheid pela empresa, em comunicado endereçado ao bispo ativista Desmond Tutu.

De resto, Veja continuará no seu conservadorismo, com reportagens pedantes sobre saúde, e com a badalação de figurinhas reacionárias, como Romeu Tuma Jr., além de outras ridicularidades, como as do feroz Reinaldo Azevedo. Com direito a pilhas de exemplares encalhando pelas bancas de todo o Brasil.

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