quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

"FUNK" E A FRAGILIDADE RAIVOSA DE SEUS CRÍTICOS


Parece divertido. Sítios e fóruns virtuais contrários ao "funk" e até mesmo espaços específicos nas redes sociais mostram pessoas despejando comentários irônicos e até divertidos sobre o "funk", criticando suas baixarias e sua falta de senso de ridículo.

Tudo bem. O "funk" faz para levar a cara a tapa, como diz o jargão popular. E muito de sua imagem de pretensa vítima social não resolve as coisas, exceto que os funqueiros hoje contam com um poderoso lobby entre as elites acadêmicas e os artífices da chamada indústria cultural.

No entanto, as reações contra o "funk" são muito precárias se comparadas com a blindagem intelectual que o ritmo recebe, e volta e meia aparecem textos defendendo o "funk" com alegações chorosas e até "românticas", mesmo sob o pretexto da objetividade jornalística ou do cientificismo acadêmico.

Mesmo quando a intelectualidade recorre ao surrealismo pseudo-historicista, recorrendo à sociedade de 1910 para explicar a rejeição que o "funk" recebe hoje, seu discurso é bastante sutil, elaborado, convincente apesar de confuso e cheio de contradições e equívocos teóricos.

A intelectualidade parece não se incomodar com isso. Ela manobra com as contradições com a sutileza que não é tanta assim, mas suficiente num país onde o senso de discernimento ainda é raro mesmo em mentes razoavelmente informadas. Podem cometer as gafes discursivas que forem, as "provocativas" elites intelectuais dominantes parecem manter a consciência tranquila.

JOGO ELETRÔNICO PARA "MATAR" MC DALESTE

O grande problema na maioria das pessoas que contestam o "funk" é que seu discurso é primário e raivoso, girando em torno de comentários que não vão muito além de dizer "funk é uma bosta",  "morte aos funqueiros" e "transporte de funqueiro é camburão".

Esse discurso muitas vezes é divertido e chama muita gente na Internet, mas é uma reação frágil diante do outro lado, com intelectuais lançando mão de documentários, monografias e reportagens que defendem o "funk" com a habilidade discursiva que parece sedutora, e de fato seduziu muita gente.

A intelectualidade dominante conhece esse discurso anti-funqueiro e não se intimida com ele. Esse discurso até estimula a choradeira intelectual em prol dos funqueiros. Se o anti-funqueiro exreve, num comentário de Internet, que "transporte de funqueiro é camburão" o intelectual rebate, com uma monografia, dizendo que o funqueiro é jogado em "novos navios negreiros".

A intelectualidade rebate com cerca de 300 páginas de monografias ou livros (ou de monografias que viram livros) e com duas horas de documentários o que anti-funqueiros escrevem em menos de dez linhas. O poderio e a sofisticação do discurso pró-funqueiro torna inúteis quaisquer medidas de protesto contra a imbecilização cultural simbolizada pelo "funk".

Às vezes, a raiva anti-funqueira pega pesado demais. Existe um jogo eletrônico, disponível na Internet, para o jogador "matar" o funqueiro MC DaLeste, que havia sido assassinado no palco meses atrás. DaLeste havia sido um dos nomes da cena de "funk ostentação" de São Paulo.

O jogo simula um cenário de "baile funk" e exibe cartazes com o logotipo do PT e da Rede Globo de Televisão, além de mostrar figuras como Regina Casé e Tati Quebra-Barraco. Todos são assassinados no decorrer do jogo.

ARGUMENTOS DELIRANTEMENTE "ETNOGRÁFICOS"

A atitude, que poderia ser muito bem um desabafo contra o avanço da imbecilização cultural através do "funk", acabou sofrendo o peso da reação convicta da intelligentzia, que mais uma vez recorre à imagem de falsa vítima atribuída ao "funk", com direito a argumentos delirantemente "etnográficos", como os de Joseh Silva no sítio da Carta Capital:

"O vídeo revela o reflexo de uma sociedade reacionária, que reforça mais e mais a intolerância cultural. Um jovem índio (...) não é respeitado em uma escola caso ele chegue de cocar para assistir uma aula. O mesmo acontece com ciganos, hippies, negros, nordestinos, gays, povos tradicionais e de terreiros. Isto mostra que não somos capazes e conviver com as diferenças dentro da nossa própria espécie."

Claro, esse discurso sedutor, verossímil e choroso arranca palmas de muita gente. Imagine de plateias lotadas, com um número de cerca de 100 pessoas, superior aos 30 que respaldam comentários anti-funqueiros na comunidade "Unidos Contra o Funk", a maior comunidade anti-funqueira do Facebook.

Mesmo com o risco de expressar um sutil racismo, já que associar o "funk" à negritude seria submeter o povo negro aos estereótipos nem sempre positivos do gênero, os defensores do "funk" apelam para essa falsa etnografia, achando que o "funk" é tão rejeitado quanto sambistas, tribos indígenas e hippies que levam dura da polícia.

Só que esse discurso pseudo-etnográfico não tem outro objetivo senão o de fazer com que o "funk", às custas de apelações falsamente sociológicas, pretensamente "culturais" e "ativistas", amplie seus mercados para plateias mais abastadas.

O discurso intelectual em prol do "funk", se dermos uma observação bem cautelosa, é confuso, hipócrita, oportunista e revela um paternalismo intelectual que contagia até mesmo alguns porta-vozes das periferias. Mesmo figuras "tarimbadas" como Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches apresentam falhas de análise, o mesmo ocorrendo com cineastas documentaristas.

Daí que o mal é a estagnação do discurso anti-funqueiro, que acaba sendo visto como mera dor-de-cotovelo de roqueiros frustrados ou bossa-novistas nostálgicos. Quase não existe um discurso anti-funqueiro que faça frente à confusa mas sofisticada retórica dada por jornalistas, cientistas sociais e cineastas em favor do gênero.

Por isso, os anti-funqueiros terão que provar, em seus argumentos, muito mais do que simplesmente dizer que "funk é uma bosta".

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