sábado, 28 de dezembro de 2013

CHUVAS E O LADO MELANCÓLICO DAS PERIFERIAS



No discurso difundido amplamente por uma intelectualidade cultural dominante, unida e coesa quase como numa unanimidade - ou talvez num acordo combinado em que todo mundo defende as mesmas coisas, seja no Esquenta da Rede Globo, seja no blogue Farofafá, seja em monografias e documentários festejados pela mídia - , a periferia aparece quase como um tipo de paraíso.

As favelas de puro sonho e fantasia, que esperam serem pintadas por algum artista plástico mais generoso, são consideradas "arquiteturas pós-modernas", como se as construções improvisadas em áreas caóticas ou de alto risco fossem o suprassumo da criatividade humana.

Já o povo pobre é visto pelo discurso intelectual como se fossem crianças inocentes nesse paraíso idealizado, com sua ignorância e sua miséria da qual não se pode mexer na sua essência, apenas se permitindo que o Estado e alguns entes privados financiem o recreio duvidoso da "garotada".

O lobby intelectual é tão grande que quem questionar essa visão mítica das periferias corre o risco de ser visto como "moralista" e "preconceituoso". Se for um blogueiro, perderá aquela visibilidade fácil garantida por todo aquele que acredita numa periferia de contos de fadas, numa espécie de Disneylândia dos subúrbios brasileiros. E poderá até perder seguidores.

Mas existe o outro lado, oposto à "dolce vita" das favelas sonhadas pela intelectualidade. Ela até dá um jeitinho para descrever, em separado, as duas periferias, a fantasiosa e a real, como se estivessem falando de assuntos diferentes.

Pouco importa se é uma mesma periferia da Baixada Fluminense, por exemplo, que num artigo bem animado é cenário de um festejado "baile funk" num discurso cheio de delírios pseudo-modernistas e pseudo-etnográficos, e, em outro, descreve o drama das pessoas que perderam bens e até entes queridos com as enchentes e deslizamentos que destruíram suas casas.

São dramas terríveis que as autoridades não se interessam em resolver. Em certos casos, como em Nova Friburgo ou mesmo em Santa Catarina, a corrupção impede que as vítimas recebam donativos ou obras de recuperação e prevenção. No caso da cidade fluminense, o dinheiro público foi desviado para interesses pessoais do prefeito. No Estado sulino, são os donativos extraviados para o usufruto de outrem.

Enquanto a intelectualidade fala numa periferia feliz, onde todos podem comprar e consumir, onde a prosperidade bate à porta de cada barraco, sobrado ou casa nas favelas, as periferias da vida real veem a perda de eletrodomésticos, alimentos, álbuns de famílias, utensílios diversos e outros objetos pessoais, adquiridos de forma tão trabalhosa e sofrida.

Isso quando não se perdem parentes, sejam mães, filhos, avós, tios, amigos de infância, e por aí vai, por causa de afogamentos ou de soterramentos. E tudo isso na tentativa de construir uma vida ao menos com algum conforto, dentro dos limites duros que as classes populares têm que aceitar.

Tudo vai embora. Desde os objetos de costuras, os livros de orações religiosas, os computadores, a televisão. Vai desde a reserva de alimentos aos CDs de "sucessos populares". Vai a televisão, vão-se muitas roupas, vão-se os remédios, os livros, o material de aula, as fotos de recordações de entes vivos ou os que já se foram.

Enquanto as elites e os políticos fingem que se preocupam com os problemas sociais, o povo pobre sofre, com suas sucessivas perdas, com sua insegurança anual de cada verão, com seu medo, com seus dilemas.

Eles não têm aonde ir, ficam nas áreas de risco porque é onde podem ficar. São desprezados pelo poder político, que lhes dá mais promessas que ajuda. E isso nada tem a ver com os pobres estereotipados da "cultura popular" alegre e feliz que deixa a intelectualidade, acomodada em seus apartamentos de luxo, bastante satisfeitas.

Daí que, fora da órbita do Brasilzinho brega, ainda reina sofrimento nas classes populares que não querem a bajulação barata da intelectualidade, mas soluções reais para a melhoria de vida e o fim definitivo de suas tragédias de todo ano.

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