domingo, 22 de dezembro de 2013

BREGA REVELA SENTIMENTO PATERNALISTA DAS ELITES BRASILEIRAS


O aparente apoio da sociedade dita esclarecida ao brega e seus derivados, que acontece nos últimos anos no Brasil, tem muito mais a ver com algum sentimento paternalista com as classes populares do que qualquer conscientização e solidariedade.

A comoção que ocorre quando ídolos diversos do brega morrem - seja o despretensioso Reginaldo Rossi, sejam os festejados Waldick Soriano e Wando, seja o funqueiro MC Daleste, seja o tecnobrega Mike do Mosqueiro - , em que pese a popularidade deles, reflete um contexto de uma sociedade midiatizada e paternalista.

O apoio maciço da intelectualidade cultural dominante ao brega e seus derivados é um reflexo disso. Manipulando, de forma tendenciosa e não raro equivocada, seu discurso em prol de falsas alusões de caráter etnográfico, militante ou historiográfico, os intelectuais mais influentes, embora não admitam, estão a serviço dos interesses da grande mídia e do mercado.

HIT-PARADE BRASILEIRO

Daí que a defesa da bregalização, mesmo envolvendo nomes que não têm a menor intenção de parecerem "sérios", como o recém-falecido Reginaldo Rossi, é uma estratégia armada pela mídia e pelo mercado, às custas da blindagem intelectual, para criar um mercado de hit-parade brasileiro. E isso se deve por causa de aspectos muito estranhos.

Primeiro, é a defesa desesperada do chamado "mau gosto popular", que pouco tem relações reais com as antigas raízes culturais que hoje constituem o rico patrimônio brasileiro, e tem mais relação com uma imagem estereotipada do "inconsciente popular" trabalhada pela grande mídia nacional e regional sob o apoio de grandes empresas brasileiras, estrangeiras e do latifúndio.

Segundo, é a campanha, um tanto depreciativa, mas por vezes caluniosa, de desmoralização das gerações que marcaram a MPB autêntica nos anos 60 e 70, que então eram conhecidas por sua arte impactante e pelo talento impecável.

A campanha visa desmoralizar nomes dotado de talento e uma postura insubordinável em relação às regras do mercado, e um desses artistas é Chico Buarque, devido à sua capacidade ímpar de assimilar as raízes da música carioca e trabalhá-las num estilo próprio e dar opiniões sobre diversos assuntos de maneira segura e inteligente.

A intelectualidade cai quase em uníssono contra Chico Buarque, porque o que ela quer são os ídolos "coitadinhos", sejam os "inocentes" ídolos popularescos que aparecem no Domingão do Faustão e nas FMs mais tocadas do país, sejam os "coitadinhos" mais bregas que também aparecem nas rádios mas são emergentes no mercado televisivo.

Tais intérpretes são cortejados por uma intelectualidade a serviço do mercado porque são mais adaptáveis às regras do mercado, por mais que, de forma demagógica, digam estar à margem dele. Esses intérpretes "populares" podem não ser os grandes criadores da nossa música, mas se adaptam a modismos diversos e a qualquer regra de mercado.

Em outras palavras, o que a intelectualidade quer é substituir o enfant-terrible tipo Chico Buarque por ídolos-carneirinhos tipo Thiaguinho, ou algum funqueiro pseudo-ativista mas com discurso de "vítima". Gente que não incomoda muito, embora carregue a fama de "deixar apavorada" a sociedade "moralista" que só existe nas mentes retrógradas dos intelectuais festejados.

Mil monografias, reportagens, documentários, artigos, resenhas etc vão tentar desmentir que a defesa da bregalização cultural tenha a ver com interesses mercadológicos. Oficialmente, o mercado e a grande mídia "morreram" com Chico Buarque e o Brasil irá respirar cultura independente, alternativa e folclórica. Então tá.

Por trás desse discurso oficial, porém, o que se vê é a formação de um hit-parade brasileiro. Pode ser um mercado que não necessariamente tenha representantes em Nova York ou Los Angeles, ou uma mídia que não tenha necessariamente escritórios na famosa Av. Paulista, em São Paulo. Mesmo assim, é mercado e grande mídia do mesmo jeito. A intelectualidade mente.


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