terça-feira, 5 de novembro de 2013

O "MICO" E O MITO DA AXÉ-MUSIC "COMUNISTA" E O "FUNK" DO ADVOGADO DO MENSALÃO


As esquerdas médias, que não estão muito preocupadas com o progresso do país e no fundo apenas estão na carona do governo petista, tiveram dois episódios em que a defesa da mediocridade cultural vale mais do que qualquer melhoria de qualidade de vida do povo pobre, principalmente no que diz à cultura.

Em tempos de Procure Saber, em que a MPB autêntica, independente dos erros de seus medalhões, é "demonizada" pela intelectualidade "bacaninha" que quer promover a bregalização absoluta do país, ela não está satisfeita com a hegemonia do brega e dos derivados no imaginário popular, querendo agora que as classes mais instruídas aceitem o brega como algo "libertário".

Um desses dois episódios foi a divulgação, nas redes sociais, de um vídeo do hoje esquecido grupo de axé-music As Meninas, a música "Xibom Bombom", enquanto comentários atribuíam a letra da música a um suposto tema de protesto esquerdista.

O outro episódio é o lançamento do livro do advogado e ex-político do PDT, Nilo Batista - que chegou a ser governador em exercício do Rio de Janeiro, nos anos 90 - , intitulado Tamborzão: Olhares Sobre a Criminalização do Funk, que bate na mesma tecla de que o "funk" é rejeitado pelos mesmos padrões moralistas da sociedade brasileira de 1910, na verdade já superados.

Os equívocos entre uma e outra coisa são notórios. "Xibom Bombom" é uma canção comercial, como toda música da axé-music, um mercado musical cujo poder empresarial sobre cantores e músicos é muito forte. Além disso, a música é de co-autoria de um rico empresário local, o produtor Wesley Rangel, o que põe em dúvida o aspecto "socialista" da letra.

Nos EUA, o grupo Earth Wind & Fire, famoso grupo de funk autêntico dos EUA, havia lançado, nos anos 80, uma música chamada "System of Survival", e apesar de uma letra bem mais substancial dentro dos padrões de pop dançante, ninguém se atreveu a definir a talentosa superbanda de "comunista", "socialista" ou coisa parecida.

Mas a forma diluída do funk, que a gente coloca entre aspas e apelida também como "pancadão", "batidão" etc, é tida como "libertária" até mesmo por meio de letras risíveis como "Rap da Felicidade". E a choradeira de Nilo Batista, além da insólita tese de que é o Brasil de 1910 que rejeita os funqueiros, conta com um detalhe incômodo para as esquerdas.

Nilo foi advogado de defesa do deputado federal Valdemar Costa Neto, político originário da ARENA e que, integrando o então Partido Liberal (PL - atual PR, Partido da República), se envolveu com o esquema de propinas do publicitário Marcos Valério, que tornou-se conhecido como o Escândalo do Mensalão.

Se agora os funqueiros precisam de um advogado de mensaleiro para recorrer à tese surreal de que o "funk" seria rejeitado pela pressão de padrões morais arcaicos e já superados, oriundos da República Velha, é algo que só mesmo eles poderiam explicar, mas mesmo assim não querem.

Afinal, todos nós sabemos que o "funk" é rejeitado até mesmo dentro das próprias periferias e, no todo, por uma sociedade moralmente muito mais aberta, mas que não admite excessos nem grosserias.

Por outro lado, o "funk" estaria, na verdade, se autopromovendo de sua falsa imagem de vítima, superestimando as ocorrências policiais, tudo para disfarçar o verdadeiro motivo da decadência do "funk": o ritmo é rígido e fechado nos seus valores e na sua estética, comprometido com a mediocrização artístico-cultural e a degradação de valores morais nas populações pobres.

Nilo tenta ainda dizer que os "proibidões" existem por causa das ações policiais e que, encerrando com as mesmas, dariam lugar aos "permitidões". Grande asneira. Enquanto isso, o "funk" resiste a tudo que é transformação vivida no seio das classes populares e na transformação dos valores morais e culturais do Brasil como um todo.

Já o caso do sucesso de As Meninas, é constrangedor que a axé-music, que também sofre uma séria decadência até mesmo em Salvador, seja vista por alguns ingênuos e outros deslumbrados como "canção de protesto de esquerda".

Há ainda o caso de "Vermelho", na verdade um sucesso nortista regravado por um nome da axé-music, sobre a suposta sedução de um "velho comunista" àquele que canta a letra. E também existe o caso de "Feijão com Arroz", de Zé Paulo, dentro daquela linha primária e vaga de "letra de protesto" que não possui muita expressividade.

Alguém já comparou tais letras, por exemplo, às do recém-falecido Lou Reed? Este, sim, mostrava letras de protesto do cotidiano, falando de suas desilusões até mesmo em relação à Contracultura dos anos 60, antecipando, via Velvet Underground e via começo de sua carreira solo, o espírito punk e pós-punk que marcaria a cultura alternativa contemporânea.

O fascínio pela imbecilização cultural, para as esquerdas médias que apreciam Carta Capital, deveria render uma bronca séria do grande Mino Carta, que havia descrito meses atrás um texto reprovando a imbecilização que hoje deslumbra gerações mais recentes das esquerdas médias.

Assim, Reinaldo Azevedo fica animado. Infelizmente, ele está com tudo. Aumenta sua visibilidade midiática não só escrevendo para Veja e lido na Internet, como agora tem coluna na Folha. E, ironicamente, tornou-se um aliado de peso para Pedro Alexandre Sanches - o mesmo blogueiro abrigado pelo portal da Carta Capital - derrubar Chico Buarque e toda uma linhagem da MPB autêntica, abrindo o caminho para os bregas.

Extremamente reacionário, Reinaldo Azevedo adota esculhambar as esquerdas quando estas adotam posturas débeis defendendo a mediocrização cultural. E, o que é pior, Reinaldo Azevedo falando mal da bregalização mais parece um elogio, porque Reinaldo acaba, mesmo sem querer, fazendo propaganda dos bregas. "Xibom, xibom, xibom bombom"...

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