quarta-feira, 23 de outubro de 2013

"VÍTIMA" DE CENSURA, PAULO CÉSAR ARAÚJO TENTOU CENSURAR FACE "DESAGRADÁVEL" DE WALDICK SORIANO


"Herói" do episódio do movimento Procure Saber, pela sua oposição às posturas defendidas pelos medalhões da MPB contra biografias não-autorizadas, Paulo César Araújo, no entanto, tentou censurar a veiculação de vídeo que mostra a postura ultraconservadora do ídolo brega Waldick Soriano (1933-2008).

Waldick havia sido um dos enfocados pelo livro Eu Não Sou Cachorro, Não, que Araújo, historiador e professor da PUC do Rio de Janeiro, havia lançado em 2001. O título do livro, aliás, é o mesmo de um dos maiores sucessos de Waldick Soriano.

Um vídeo chegou a ser incluído no portal Globo Vídeos, em que uma entrevista de Waldick a Marília Gabriela, no programa TV Mulher, mostra o cantor defendendo a imagem submissa da mulher brasileira e elogiando a ditadura militar.

No entanto, o vídeo foi precocemente excluído - foi digitalizado em 2007 e sumiu pouco depois, em 2008 - , antes mesmo do prazo que o portal Globo Vídeos dá para os vídeos serem retirados de acesso, que é cerca de três anos.

Além de Araújo, o lobby foi reforçado pelo fato de Patrícia Pillar, atriz que, como diretora de documentário, fez o filme Waldick Sempre No Meu Coração, ser estrela da TV Globo, o que também influiu na retirada do vídeo.

Em ambos os casos - livro e documentário - Waldick Soriano é trabalhado como um ídolo ao mesmo tempo "sofredor" e "libertário", num esforço de fazer o cantor, cujo repertório sempre foi antiquado e conservador, parecer "moderno" para as novas gerações.

Em dados momentos, o fato de Waldick Soriano ter sido censurado era superestimado, mesmo quando sabemos que a Censura Federal censurava qualquer coisa, dependendo do julgamento de seus funcionários (que iam de donas-de-casa de classe média baixa a sargentos do exército), o que nunca poderia fazer do censurado em si uma figura "libertária" ou "transgressora".

Araújo também superestimou e levou extremamente a sério uma "pesquisa" feita em 1972 por estudantes da PUC de Belo Horizonte que se baseavam na tese surreal de que "Eu Não Sou Cachorro Não" escondia uma "mensagem de protesto" das classes trabalhadoras. Pura tese conspiratória sem fundamento mas creditada por Araújo como se fosse fato científico.

Como se não bastasse, Araújo havia também explorado uma suposta imagem de "rebelde" do cantor Odair José, outro ídolo brega (por sinal apoiado pelo mesmo Caetano Veloso hoje ligado ao Procure Saber), só porque também foi censurado e que tinha uma canção cujo tema era o uso de pílulas anticoncepcionais, "Pare de Tomar a Pílula".

O próprio Odair, numa entrevista à imprensa, reclamou da imagem de "rebelde" trabalhada por Paulo César Araújo, e afirmou que suas letras apenas cantavam sobre as relações entre homem e mulher. Odair achou exagerada a imagem "subversiva" trabalhada pelo historiador.

Odair José, assim como outros cantores como Paulo Sérgio, Fernando Mendes, Amado Batista e José Augusto, também surgiram sobre a forte influência da fase romântica de Roberto Carlos (sobretudo a pós-1975), o mesmo que censurou o livro Roberto Carlos em Detalhes de Paulo César Araújo.

São detalhes "tão pequenos" de um brega que nada tem a ver com causas libertárias e transformadoras para a cultura brasileira.

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