quinta-feira, 10 de outubro de 2013

"PROCURE SABER" REVELA PROTECIONISMO DA MPB


A notícia mais recente nos bastidores da música brasileira é a formação de um grupo, chamado Procure Saber, que reage contra uma lei que perimtirá a produção de biografias não-autorizadas de personalidades vivas e mortas.

A medida envolve vários setores da cultura brasileira, não só a música, mas a MPB é uma das interessadas na situação. E o grupo do Procure Saber é formado pelos principais cantores e compositores do mainstream da música brasileira.

O grupo é composto sobretudo por Caetano Veloso, Roberto Carlos e Erasmo Carlos, mas tem a adesão de Milton Nascimento, Djavan e Gilberto Gil, este antes um aparente defensor da quebra de regras de protecionismo artístico.

A intelectualidade cultural dominante passou então a repudiar essa elite da MPB, acusando-a de defender a censura. Vieram então classificações como "privatista" e "golpista". E agravou a postura hostil que essa intelectualidade já tinha em relação a essa elite, à qual contrapunha com um apoio cego e surreal às breguices musicais.

NÃO EXISTE MANIQUEÍSMO

Apesar de ser reprovável a censura e o protecionismo extremo às biografias, é perigoso adotar uma postura maniqueísta na qual os biógrafos são necessariamente o "bem" e o Procure Saber seja necessariamente o "mal".

É certo que os artistas de MPB envolvidos no Procure Saber querem interesses financeiros, no seu protecionismo extremo de suas imagens pessoais. Roberto Carlos é o mais paranoico deles, porque mesmo o acidente que o fez amputar uma das pernas ele se recusa a dar maiores explicações.

No entanto, há o outro lado da questão, que é a exploração sensacionalista das biografias. O popular ditado "quem conta um ponto, aumenta um ponto" é muito comum nesses casos, e num país como o Brasil, em que a chamada imprensa sensacionalista goza de uma reputação bem mais positiva do que no exterior, a situação se complica cada vez mais.

Por outro lado, o brega-popularesco também não parece ser muito flexível nas biografias. A imagem "libertária" das supostas tendências "populares", que vai de Odair José a MC Guimé, não quer dizer que seja necessariamente aberta a uma abordagem livre nas biografias.

O próprio caso de Waldick Soriano é ilustrativo. Paulo César Araújo havia escrito um livro sobre os ídolos bregas, Eu Não Sou Cachorro Não, lançado pela editora Record, do qual construiu uma imagem "libertária" do falecido cantor, ainda vivo na ocasião do livro. A atriz Patrícia Pillar dirigiu, anos depois, o documentário Waldick: Para Sempre No Meu Coração, no mesmo sentido.

Para Waldick, foi construído então um mito de um artista "libertário", um "cantor de protesto" e uma figura "progressista", que nada condiziam com a realidade. Na sua trajetória real, Waldick era um machista, um conservador e um despolitizado que no entanto expressava seu apoio entusiasmado à ditadura militar.

Mas a imagem tendenciosa de Waldick prevaleceu, enquanto o lobby de Patrícia Pillar, estrela da Rede Globo, fez vetar dois vídeos no portal da Globo Vídeos em que o ídolo brega era entrevistado por Marília Gabriela no programa TV Mulher, em 1983. Nos vídeos, Waldick defendia a imagem submissa da mulher e fazia ampla defesa da ditadura militar.

Ironicamente, a mesma intelectualidade que vocifera contra o Procure Saber apoiou as manobras por Waldick. E é também a mesma intelectualidade que embarca de carona nas campanhas pela verdade histórica da ditadura militar. Que se descubra tudo sobre os "anos de chumbo", desde que nada afete a imagem fantasiosa mas confortável do ídolo brega.

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