quarta-feira, 30 de outubro de 2013

LOU REED E A MEDIOCRIZAÇÃO CULTURAL NO BRASIL

LOU REED, FALECIDO ANTEONTEM, APARECE AQUI COM CAMISETA LISTRADA, JUNTO AOS DEMAIS INTEGRANTES DO VELVET UNDERGROUND.

Por Alexandre Figueiredo

Numa época de mediocrização cultural galopante, cada vez que morrem artistas de grande talento, a situação se torna mais preocupante, uma vez que não há mais a presença deles para dar um diferencial para o cenário predominantemente estéril da música contemporânea.

Anteontem faleceu Lou Reed, o cantor e guitarrista que havia começado a carreira ainda adolescente em 1957, integrando bandas de garagem, antes de se tornar conhecido como um dos membros-fundadores do Velvet Underground.

Lou foi o terceiro integrante da formação clássica do VU a falecer. Nico, a modelo que se tornou, por um período, cantora do grupo, faleceu em um acidente de bicicleta em 1988. Sterling Morrison faleceu em 1995, vítima de câncer. A morte de Reed não foi esclarecida, mas teria sido causada por complicações no fígado.


Portanto, desta formação, que gravou o "álbum da banana" em 1967 - intitulado apenas The Velvet Underground and Nico - , sobraram apenas o também guitarrista John Cale - de formação dodecafonista - e a baterista Maureen "Mo" Tucker (vocalista da música "After Hours"), ultimamente convertida em direitista, apoiando o movimento neomedieval Tea Party.

O empresário e artista plástico Andy Wahrol, ícone da pop art, faleceu em 1987. Figura ímpar da cultura nova-iorquina, ele havia sido homenageado, em 1991, por Lou Reed e John Cale, no álbum Songs For Drella, referente a um dos apelidos de Wahrol no seu meio.

Coincidência ou não, no Brasil, houve o paralelo de Caetano Veloso e Gilberto Gil homenagearem o Tropicalismo num álbum tributo chamado Tropicália 2, lançado dois anos depois de Songs For Drella.

Afinal, o Tropicalismo havia surgido na mesma época da cena alternativa diversificada do Reino Unido e dos EUA, entre 1966 e 1967, na qual o Velvet Underground foi um dos nomes mais expressivos.

O grupo seguia o estado de espírito da arte modernista, juntando rock de garagem, poesia de rua, e um movimento multimídia empresariado por Wahrol que unia artes plásticas, moda, teatro e cinema, além da música da qual o VU era um dos principais nomes.

O Velvet Underground foi um grande fracasso comercial, em seu tempo. Mas depois tornou-se influente em quase todo o rock pós-punk produzido, de Blondie e Smiths a Belle and Sebastian e Strokes. Todo o rock alternativo produzido de 1979 em diante tem, de alguma forma, influência do Velvet Underground e da carreira solo de Lou Reed.

"MODERNISMO DE RESULTADOS" SÓ VALE PELA EMBALAGEM

E ao vermos que a morte de Lou Reed choca num mundo de mediocrização cultural crescente, mesmo num contexto estrangeiro da banalização do ato de provocar causada por Miley Cyrus em suas performances recentes, ou na espetacularização organizada de Lady Gaga, no Brasil a situação ainda se torna muito mais grave.

É claro que o VU causou influência também no Brasil. Logo nos anos 60, o grupo teria em parte influenciado os Mutantes. O rock alternativo dos anos 80, sobretudo Fellini, sofreu influências da banda nova-iorquina. E, recentemente, Marisa Monte havia gravado "Pale Blue Eyes", uma das músicas do VU, num de seus discos.

No entanto, a "provocativa" intelectualidade dominante tenta criar um "modernismo de resultados" em que a rejeição e a vaia unem, forçosamente, a vanguarda alternativa e a retaguarda brega, num balaio de gatos a que se reduziu a proposta contestatória da "geleia geral" lançada pelo tropicalista Torquato Neto, sob a assistência musical de Gilberto Gil.

Daí que tentaram até mesmo criar tributos "alternativos" de Odair José e do grupo sambrega Raça Negra (!). Felizmente, não chegaram a comparar o Velvet Underground ao É O Tchan, só pela fachada "multimídia" que supostamente compararia os dois antagônicos grupos.

Aqui a cena alternativa vai aos poucos sendo substituída por bobos-alegres performáticos - tipo Felipe Cordeiro e seu Kitsch Pop Cult, ou grupos tipo Gang da Eletro, Bonde do Rolê e Vivendo do Ócio, ou poetas tipo Dudu Pererê - , já que os verdadeiros artistas alternativos não vivem da música e se concentram em seus outros empregos.

Os verdadeiros artistas alternativos são jornalistas, dentistas, taxistas, professores, servidores públicos, que apenas tratam a música como um hobby, e por isso têm seu diferencial artístico. Já os bobos-alegres da EMoPB simpáticos ao brega são apenas profissionais da música que juntam uma gororoba de informações superficiais para produzir performances "musicômicas".

Num Brasil marcado por sub-celebridades, em que qualquer siliconada posa de feminista sem motivo relevante e qualquer ídolo medíocre posa de coitadinho, fica muito complicado falar em cultura alternativa num país marcado pelo pretensiosismo.

Afinal, aqui as gerações recentes de jovens lunáticos, confiantes demais na sua overdose de informação e sem perceber a subnutrição cultural em que vivem confundindo quantidade com qualidade, acham que o hit-parade que consomem é  "alternativo" simplesmente "porque sim".

Diante de tantas tolices, tantas incoerências, tantas meias-verdades, tanto pretensiosismo, tantos mascaramentos, a mediocrização cultural, que tenta vender a retaguarda como se fosse vanguarda, e faz choradeira para promover o lixo cultural como se fosse "cultura de verdade", a morte de Lou Reed soa um fato sem importância.

Mas, para quem pensa a cultura no Brasil, é mais um exemplo estrangeiro que se vai, deixando órfã uma perspectiva cultural que é valorizada a cada dia por menos pessoas. Nas redes sociais, a morte de Lou pouco repercutiu. Se fosse um ídolo da axé-music, teria repercutido bem mais, infelizmente.

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