terça-feira, 1 de outubro de 2013

INTELECTUALIDADE SÓ DEFENDE MPB QUE É "OBEDIENTE" AO MERCADO

OSCAR CASTRO NEVES - Recém-falecido, compositor e músico não fazia parte da ala obediente da MPB.

Num país mergulhado na supremacia da breguice que contamina o mercado, a intelectualidade associada, com seus jornalistas culturais, antropólogos, sociólogos, historiadores, cineastas, artistas e celebridades que apostam na bregalização do Brasil, a MPB é que é vítima de preconceitos e injustiças.

Temos a supremacia de uma elite "pensante" que pensa que a bregalização é a única salvação para as classes populares, que mostraram não desejar qualquer tipo de melhoria sócio-cultural para as classes populares a não ser pelas vias do paternalismo acadêmico-estatal e da aceitação passiva e acrítica da sociedade brasileira.

Portanto, a intelectualidade dominante não quer que a opinião pública mexa nos valores de degradação sócio-cultural que assolam subúrbios, roças e favelas. Estes, segundo o discurso intelectual predominante, devem ser preservados como "valores do outro", como uma "outra cultura" que só mesmo o apoio intelectual e as verbas do MinC resolverão com o tempo.

Apostando também na redução da Música Popular Brasileira a uma gororoba que mistura, num só balaio, "malditos" da MPB alternativa e o pior do brega brasileiro, a intelectualidade dominante só aprova a MPB autêntica quando ela adota uma postura condescendente com o mercado, seja subordinando-se às trilhas de novelas, seja compactuando com os ídolos bregas.

Recentemente, perdemos Oscar Castro Neves, um dos mais geniais músicos de Bossa Nova de sua História. Ele trabalhava as influências jazzísticas de forma peculiar, abrasileirando-as. Foi famoso por formar um quarteto bossa-jazzista com seus irmãos. E era um nome que colocava a criatividade acima de qualquer condicionamento com o mercado.

Oscar era tão injustiçado que na Internet praticamente não existem fotos dele na época do movimento bossanovista, entre o final dos anos 50 e o começo dos anos 60. E ele era um dos nomes tão atuantes quanto Tom Jobim e Vinícius de Moraes, Roberto Menescal, Carlinhos Lyra, Sylvia Telles e outros nomes consagrados.

A intelectualidade pró-brega prefere, do elenco bossanovista, defender nomes como Marcos Valle, que tem também o seu grande talento e um mérito inegável, mas que depois se compactuou com o mercado, gravando músicas para ginástica aeróbica nos anos 80 e cujo parceiro e irmão, Paulo Sérgio Valle, foi, em busca de uns trocados, ser letrista do ídolo brega José Augusto.

Para a intelectualidade pró-brega, junta-se de forma demagógica os dois extremos da música brasileira - a ousada MPB "maldita" e o conservador brega - , sobretudo aproveitando o fato de que nomes como Itamar Assumpção não estão aí para reclamar.

Como havia sofrido Raul Seixas - que hoje em dia é melhor respeitado por um norte-americano como Bruce Springsteen do que por brasileiros como Chitãozinho & Xororó - , Itamar Assumpção agora é explorado pela intelectualidade mais festiva e jogado para assinar embaixo até mesmo das piores breguices como o insosso Leandro Lehart ou mesmo o ridículo "funk ostentação".

Mas mesmo nomes como Inezita Barroso, Rui Maurity, Renato Teixeira, Quinteto Violado e outros bons nomes, são inseridos num contexto que permite que eles sejam confortavelmente parasitados por ídolos neo-bregas (como os próprios Chitãozinho & Xororó) nas suas aventuras "pedantes", quando fazem a tal "MPB de mentirinha" para enganar a opinião pública.

Só que lembrar da MPB obediente, sobretudo evocando nomes que vão de Lupicínio Rodrigues a Wilson Simonal, não resolve o problema do baixo acesso da MPB autêntica ao grande público. As regravações pelos neo-bregas de sucessos da MPB não faz o grande público conhecer os artistas originais, até porque ele pensa que as covers foram originalmente feitas pelos neo-bregas.

Nomes como Luciana Mello, como Renato Teixeira, como Flávio Venturini são praticamente desconhecidos do grande público. Somente medalhões como Jorge Ben Jor, Zé Ramalho, Paulinho da Viola, Djavan ou os megaconsagrados Caetano Veloso (tal como sua irmã, Maria Bethânia) e Gilberto Gil, são mais conhecidos. Ou então nomes como Maria Rita Mariano, filha de Elis Regina.

Mas de resto a MPB autêntica é desconhecida do "povão". Se mesmo a MPB autêntica que o grande público conhece lhe soa estrangeira, como se nem brasileira fosse, imagine então os nomes pouco conhecidos, mesmo numa facção da MPB que não quer brigar com o mercado.

Já a MPB que briga com o mercado, então, é castigada com o semi-ostracismo. Não aparece sequer em rádios de MPB, mal consegue ter um artigo nos cadernos culturais da grande imprensa, e ainda por cima é capaz de ser ridicularizada por internautas das "redes sociais", como muita gente fez com o genial Turíbio Santos, discípulo de Villa-Lobos.

É essa MPB que sofre muito mais preconceito que os breguinhas que choramingam um lugar ao Sol e pensam que a sigla MPB é um título de nobreza a ser obtido de forma clientelista.  São músicos como Oscar Castro Neves que sofrem o desprezo do reacionarismo na Internet, sob o comando de uma campanha intelectualoide lamentável.

Daí os ataques a uma figura ímpar como Chico Buarque, capaz de dar entrevistas substanciais que um ranzinza Leandro Lehart - espécie de Merval Pereira do sambalanço - não é capaz de fazer. Porque a MPB de verdade, com cara e coragem, é a verdadeira discriminada pelo mercado, pela mídia e pela intelectualidade, porque não lota plateias e não se vende para a TV nem para os bregas.

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