terça-feira, 15 de outubro de 2013

BREGA NÃO SERIA MAIS "LIBERTÁRIO" QUE O "PROCURE SABER"


A iniciativa do grupo de medalhões da MPB autêntica de criar o Procure Saber, movimento feito para tentar banir a produção de biografias de personalidades brasileiras sem a prévia autorização dos biografados ou de seus herdeiros legais, criou uma grande polêmica e fez vários jornalistas definirem os integrantes do PS como "censores".

Em muitos momentos, há até a comparação entre o passado de vítimas de censuras vivido por vários desses artistas - como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque - e o presente censor dos mesmos, e episódios como o veto de Roberto Carlos ao livro Roberto Carlos em Detalhes de Paulo César Araújo e o veto de Chico Buarque às remontagens de sua peça Roda Viva (símbolo da rebeldia cultural de 1968) foram mencionados.

A revolta intelectual tem seus momentos de coerência, quando questiona o zelo rigoroso dos artistas quanto à sua imagem, mas tem outros momentos de exagero, sem ver o outro lado, o da cobertura sensacionalista ou mesmo do zelo dos ídolos bregas - tidos como "libertários" - em relação às suas imagens.

Para aumentar a polêmica, Caetano Veloso ainda escreveu, na sua coluna do jornal O Globo, que não se considera censor, não deseja que seus descendentes lutem por uma imagem "limpa" do cantor e apenas está preocupado com o "cabo de guerra entre a liberdade de expressão e o direito à privacidade".

No entanto, em relação aos ídolos cafonas, glamourizados pela suposta associação com o "popular" - muitas vezes construídas pelo poderio midiático vigente, queiram ou não queiram os intelectuais solidários com a breguice - , as posturas deles potencialmente não seriam muito diferentes do Procure Saber, pois eles mesmos desejam uma imagem "limpa" deles mesmos.

Aqui vão alguns exemplos, dentro do âmbito da música brega, de pessoas que poderiam ou já fazem por promover uma imagem "limpa" deles mesmos, como forma de garantirem uma projeção mais agradável na posteridade:

WALDICK SORIANO - O cantor brega, focalizado entre os ídolos cafonas no livro de Paulo César Araújo, Eu Não Sou Cachorro Não, e tema do documentário dirigido pela atriz Patrícia Pillar, Waldick - Sempre No Meu Coração, havia dito, em entrevistas diversas, que defendia uma postura submissa da mulher brasileira e fazia defesas entusiasmadas à ditadura militar. Trechos de uma entrevista no programa TV Mulher, da Rede Globo, em 1983, foram tirados do ar provavelmente sob influência dos partidários de Waldick - e do lobby de Patrícia e Paulo César nas Organizações Globo - , pouco depois de digitalizados para o portal Globo Vídeos, antes que fossem vazados para o YouTube.

ZEZÉ DI CAMARGO & LUCIANO - A dupla breganeja teve uma imagem "adocicada" pela cinebiografia Os Dois Filhos de Francisco, lançado em 2005 sob um forte lobby da intelectualidade cultural dominante. A imagem da dupla, mesmo num dramalhão cinematográfico, tentou ser "idealizada" como uma dupla de cantores "sofredores", "libertários" e "progressistas", até pela aparente adesão da dupla ao PT. Mais tarde, constatou-se que o esquerdismo da dupla era falso, os dois haviam votado no rutalista Ronaldo Caiado para o deputado federal e haviam recebido até mesmo verbas do esquema financeiro de Marcos Valério.

ALEXANDRE PIRES - Pode até ser duvidoso creditar o ídolo sambrega como "gênio da MPB", mas ele entende o espírito do Procure Saber. Ele havia ameaçado processar a revista Exame Vip por conta de piadas contra ele, quando namorava a dançarina Sheila Mello, então do É O Tchan. No entanto, Pires também é conhecido por letras preconceituosas como "A Barata" e "Kong", da qual já sofreu um processo judicial por causa da música e do videoclipe.

É O TCHAN - E já que citamos o grupo baiano, ele tentou ser reabilitado por uma monografia que resultou no livro Que Tchan é Esse?, de Mônica Neves Leme, que já começava distorcendo a imagem do grupo, na verdade ícone do mais escancarado comercialismo do brega-popularesco, como integrante de uma suposta "cena alternativa e independente" de Salvador. A tese não convenceu e o livro não teve grande repercussão.

VALESCA POPOZUDA - A funqueira "ativista", quando foi gravar um documentário sobre sua vida e carreira, viajou para a Europa para fazer pequenas apresentações em boates inexpressivas alugadas pelo seu empresário. A ideia é dar a falsa impressão de que a funqueira conquistou a Europa (inclusive a Inglaterra, país normalmente desconfiado com modismos popularescos), e, dizem, o documentário, já em pós-produção, apostará até mesmo em edição de imagens, quando plateias pequenas são enquadradas num ângulo de câmera para parecerem grandes multidões.

"FUNK DE RAIZ" - Pessoas como MC Leonardo e DJ Marlboro juram pelos quatro ventos que são "transparentes" e que, em tese, não temeriam biografias não-autorizadas. Mas eles, integrantes do tal "funk de raiz" que simbolizou as primeiras deturpações do funk em 1990, quando a cena carioca rompeu com qualquer tipo de lição do funk autêntico e só ficou com o nome, não desejariam uma imagem que fuja daquela que oficialmente exibem na mídia. Por exemplo, teses que definem o "funk de raiz" como "risível" seriam desencorajadas, em prol de uma imagem "limpinha" de suposta "canção de protesto". E episódios como o enriquecimento de DJ Marlboro e as acusações de exploração sexual também não seriam encorajados a serem colocados em uma biografia, daí que os dois poderiam muito bem fazer o coro para o Procure Saber.

CHICLETE COM BANANA - A banda baiana, que cumpre agora os últimos compromissos tendo à frente o cantor Bell Marques, é conhecida pelos fãs fanáticos, pela riqueza de seus integrantes (inclusive seu futuro ex-líder), e por episódios pouco agradáveis ligados a Bell, acusado de sonegação fiscal, de maus tratos a um músico da banda gravemente enfermo e de não ter dado o devido apoio a uma cantora baiana iniciante. Tais detalhes poderiam incluir Bell no coro do Procure Saber, porque o cantor baiano não gostaria de ver essas informações pouco agradáveis em biografias que passem longe de sua autorização.

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