sábado, 21 de setembro de 2013

INTELECTUAIS CRIAM TESE PARANOICA SOBRE REJEIÇÃO DO "FUNK"

ABSURDO - Antropólogos, artistas, cineastas e jornalistas culturais que apoiam o "funk" dizem que sua rejeição remete à mesma sociedade moralista de 1910 (na foto, a Av. Rio Branco, no Rio de Janeiro da época).

A intelectualidade que defende o "funk" está em pânico. Assustada com a ampla rejeição sofrida pelo gênero, que ultrapassa os limites supostamente vinculados às elites moralistas, a intelectualidade passou a dar mais ênfase na tese de que o ritmo sofre hoje o que o samba havia sofrido na sociedade brasileira de 1910.

Nada mais patético. É como se esses intelectuais estivessem sampleando a História, querendo que se repitam fatos e situações históricas correspondentes a um contexto muito diferente de hoje, de 100 anos atrás.

A falsa analogia é uma das mais aberrantes apelações discursivas dos propagandistas do "funk", apavorados com a baixa reputação do gênero e achando que com ele pode ocorrer a mesma reabilitação do samba, a verdadeira vítima do moralismo social da época.

"FUNK" É RÍGIDO NA ESTRUTURA E NOS VALORES

A tese paranoica de que o "funk" hoje é rejeitado pela mesma sociedade moralista de 1910, criada na esperança de dar ao ritmo a mesma respeitabilidade obtida pelo samba ao longo do tempo, no entanto ignora que o próprio "funk", do contrário do samba, faz por merecer qualquer tipo de rejeição.

Em primeiro lugar, o "funk" demonstrou não ter qualquer valor cultural, uma vez que o ritmo renegou as lições do funk autêntico de outrora, eliminando quase toda sua expressividade artística e reduzindo à caricatura o ótimo funk eletrônico de Afrika Bambataa.

Estruturalmente, o "funk" eliminou completamente a figura do músico, do compositor e do arranjador, reduzindo a um DJ e um MC, e mais recentemente, um MC de apoio que fica balbuciando. O hip hop também tem estrutura DJ e MC, mas é muito mais flexível e musicalmente mais elaborado.

O "funk", não. Ele ficou prisioneiro de uma rígida estrutura e um não menos austero sistema de valores. Ele se torna vítima de seu "minimalismo" sonoro, tornando-se repetitivo independente do intérprete. Além disso, os valores de degradação sócio-cultural e moral são defendidos como se eles fossem um fim em si mesmo dos funqueiros.

Daí que o "funk" não defende a qualidade de vida e ainda vê como "único sentido" a manutenção de suas baixarias, que a intelectualidade defende sob o eufemístico nome de "discurso direto". O "funk" não é cultura porque se recusa a assumir a caraterística inerente ao processo cultural, que é a evolução de valores, de sons, de linguagem.

Até agora o "funk" só "mudou" três vezes. O ritmo surgiu em 1990 numa combinação de uma mera batida eletrônica (que fazia o som do "pum") e um vocal esganiçado. Durou 15 anos. Depois veio o "tamborzão", som de batida eletrônica que imitava batuques de umbanda, provavelmente uma dívida de DJs funqueiros pela mandinga que os permitiu abrir o sucesso entre os "bacanas".

Em seguida, veio a combinação caótica de sons eletrônicos diversos que imitavam de sirenes a galopes de cavalos, pré-gravados em um sintetizador registrado no vinil do DJ. Mas combinar tais sons ficou caro e, para piorar, o "funk exportação", o "funk de DJ" para turista ver, copiava até sons de gaita ou músicas alheias como o solo de "Baker Street", do falecido Gerry Rafferty.

Ficou "sofisticado" demais, exigindo "mais recursos", técnicos ou financeiros, e aí o "funk" adotou sua última mudança, que é a de limitar os "efeitos sonoros" a uma balbuciação de um segundo MC.

Mas tudo isso não faz o "funk" se tornar "culturalmente rico". As mudanças não foram adotadas de forma espontânea, mas visando tendências de mercado, calculadas tendenciosamente pela vontade conjunta dos DJs.

O que se conclui é que o "funk" é muito rígido em seus valores e no seu som. Embora use um discurso "libertário" e "subversivo", o ritmo é bastante conservador, quase nada contribuindo para a evolução sócio-cultural das periferias.

Moralmente, o "funk" transforma o povo pobre em prisioneiro de um sistema de valores baseado na ignorância e na supervalorização dos instintos, apostando também numa visão glamourizada da pobreza e na defesa de valores ligados à degradação sócio-cultural, como a forma grotesca de trabalhar a sensualidade feminina, onde a sedução cede terreno para a grosseria.

A intelectualidade dominante talvez esteja, ela mesma, presa aos valores de 1910. Deve achar que vivemos um quadro social da República Velha. Tudo a ver: afinal, esses intelectuais parecem acreditar ainda numa "cultura do cabresto" a domesticar as classes populares.

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