segunda-feira, 12 de agosto de 2013

INTELECTUALIDADE DOMINANTE MUDA O FOCO DO DISCURSO PRÓ-FUNQUEIRO


Depois de dez anos - oito se contarmos apenas o proselitismo nas esquerdas - de pregação a favor do "funk carioca", a intelectualidade dominante, "sem preconceitos" mas muitíssimo preconceituosa (já que aposta na domesticação das classes populares pela "indústria cultural") mudou o foco de defesa do gênero.

Deixando de lado a já desgastada e problemática cena do Rio de Janeiro - que aliás já ocupa explicitamente o mainstream - , a intelectualidade passou a concentrar seu foco de apologia ao "funk" ao cenário derivado lançado em São Paulo, conhecido como "funk ostentação", fusão das diversas posturas ideológicas do ritmo carioca com o apelo narcisista do gangsta rap dos EUA.

O principal motivo do recuo da intelectualidade em relação ao "funk" feito no Rio de Janeiro está em aspectos vinculados a contextos conservadores do cenário midiático que não foram possíveis de serem desmentidos pela intelectualidade mais articulada.

Entre eles, está a histórica associação do "funk carioca" (conhecido como "pancadão" ou "batidão", surgiu em 1990) com as Organizações Globo, o apoio entusiasmado desta e da Folha de São Paulo na elaboração do discurso "socializante" do gênero, e o apoio de figuras associadas ao conservadorismo ideológico como Luciano Huck, Lobão, Gilberto Dimenstein, Nelson Motta e William Waack.

Além disso, também influíram acusações de estímulo à violência e à pedofilia, à imagem machista da mulher, reduzida esta a um objeto sexual, além do grotesco, da repetitividade e ruindade musical do ritmo, e até mesmo a falsa solteirice de algumas "musas" (fortes rumores indicam, por exemplo, que Valesca Popozuda e Mulher-Filé têm maridos e Mulher Melancia tem namorado).

Sem ter que fazer defesa do "funk" feito no Rio de Janeiro, para evitar comparações de seus pontos de vista com os de Luciano Huck, por exemplo, a intelectualidade estaria mudando o foco para o "funk ostentação", até pelo aparato de "regionalidade" que encaixa na retórica de "diversidade cultural" pregada por essa mesma intelectualidade.

OUTRO PROBLEMA - No entanto, há outro problema a respeito do "funk ostentação" que já começa a "formigar" diante do discurso apologético da intelectualidade. O "funk ostentação" não consegue separar os contextos que o "funk" feito no Rio de Janeiro, com toda a sua mediocridade e imbecilização evidentes, conseguia separar.

O "funk" do Rio de Janeiro pelo menos poderia separar o "proibidão" para um público mais "agressivo" (inclusive a marginalidade), o "funk de raiz" para educadores e ativistas, o "funk comercial" para torcedores de futebol, machistas e jovens em geral, o "funk melody" para plateias mais comportadas e o "funk de DJ" para turistas estrangeiros.

No "funk ostentação" não existe isso. O MC faz "proibidão" posando ao lado de "popozudas", quer uma reputação "séria" como a do "funk de raiz" e se acha no direito de se apresentar até em festas infantis como no "funk melody". Não existe separação de contexto. E a choradeira intelectual é ainda mais chorosa. Até quando vai valer esse discurso?

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