sexta-feira, 16 de agosto de 2013

"FUNK" É INSEPARÁVEL DA GRANDE MÍDIA

REDE GLOBO E "FUNK" - Tudo a ver.

Não faz sentido separar o "funk" da grande mídia. O chamado "pancadão" é um subproduto do poder midiático, queira ou não queira a intelectualidade dominante e sua "etnografia social de resultados". Se percebermos o caminho histórico do "pancadão", desde que surgiu em 1990, ele nada seria se não fossem os mecanismos do poder midiático e a crise de valores em que o país vive.

Da crise da Educação popular trazida pela ditadura militar e pelo fisiologismo político à farra de concessões de rádio e TV pelos dois oligarcas nordestinos, Antônio Carlos Magalhães e José Sarney, nos anos 80, ofereceram as condições para o desenvolvimento da deturpação que o outro funk, o autêntico, acabou permitindo através dos diversos jogos de interesses.

Com o tempo, os DJs que fizeram a verdadeira festa do funk autêntico - Big Boy, Cidinho Cambalhota, Messiê Limá, Ademir Lemos - faleceram e deixaram uma lacuna que os então aprendizes Rômulo Costa e DJ Marlboro não quiseram preencher. Eles, a exemplo de Fernando Henrique Cardoso em relação à antiga formação marxista-weberiana, jogaram fora as lições originais e "melaram o negócio".

O "funk carioca", como passou a se conhecer o empastelamento do antigo funk eletrônico, já deturpado a partir da mafiosa cena de Miami, foi completamente esvaziado de qualquer inclinação contestatória. Hoje falam que o tal "funk de raiz" é "música de protesto", mas observando bem essa fase não tem metade do poder contestatório que a intelectualidade atribui com persistência.

Há vários aspectos que fazem com que o "funk" seja inseparável e indissociável do contexto do poder midiático e mercadológico que vive. Até o reino mineral sabe que o "funk" é um depositário de valores conservadores ou retrógrados consequentes tanto da miséria quanto do descaso político e da manipulação político-midiática.

E quem pensa que o "funk" é uma reação a esse contexto, está mentindo ou acreditando em mentiras. Isso porque o "funk" não é a solução da crise social das periferias, mas o próprio problema em si, porque se transformou numa camisa-de-força das periferias, impedindo o povo pobre de conhecer culturas melhores e mais significativas.

Alguns motivos confirmam essa constatação de que o "funk" é inseparável do poder midiático, é expressão desse poder e não contribui em coisa alguma para a emancipação social das periferias.

1) DISCURSO LIBERTÁRIO FALSO - O discurso de que o "funk" é "expressão libertária" da juventude dasfavelas é conversa para boi dormir. Discurso para alimentar o mercado funqueiro às custas de falsas alegações sociais. Além disso, é um artifício que só serve para promover a falsa reputação "combativa" de DJs e MCs e enriquecê-los às custas da submissão do povo pobre a seu domínio.

2) POVO MANOBRADO - O povo pobre é manobrado pelo discurso funqueiro. A retórica, veiculada em tom choroso, desesperado mas imposto de forma totalitária e quase raivosa, impõe o "funk" como "livre expressão cultural das periferias", mas sufocando as demais manifestações culturais e impedindo ou dificultando outros meios de emancipação da juventude.

Por exemplo, se uma jovem da favela quiser cursar uma boa escola e quiser ser professora, terá "baixa reputação" em relação ao "ofício" de funqueira. Se ela for uma MC, será mais "prestigiada" no seu meio. O "funk" manipula as populações das favelas para tomar como "sua" uma "cultura" que só interessa às ambições financeiras dos empresários-DJs envolvidos.

3) CRISE SOCIAL - O "funk" nunca foi uma reação contra as condições miseráveis da população e o descaso político. Pelo contrário, ele se concebeu em conformidade com tais condições de dominação e se tornou ele próprio um sistema de dominação do povo pobre. Artisticamente, sofre de sérias limitações e tornou-se uma "expressão" que glamouriza a miséria e a ignorância em detrimento de oferecer novas respostas para superação da pobreza nas periferias.

Quando muito, o único apelo "real" dos funqueiros está ligado a uma sutil aversão ao policiamento, por causa da imagem generalizada da violência policial.

4) MANIPULAÇÃO MIDIÁTICA - Se no sentido da pedagogia social o "funk" é um produto da ignorância causada pelo descaso público à Educação, no sentido da formação midiática a coisa é pior ainda, porque o "pancadão" se baseia em valores duvidosos transmitidos pela televisão e rádio durante a ditadura, associados ao grotesco, ao pitoresco, ao aberrante.

Junte-se a manipulação midiática (que trabalhava uma imagem deturpada da população pobre) com a crise educacional e a transmissão de valores associados ao machismo, à violência, ao sexo obsessivo e mesmo apologias à pedofilia, à prostituição e à criminalidade. Cria-se um estereótipo de classes populares que nada tem a ver com a lógica dos movimentos progressistas.

5) PARCERIAS COM A GLOBO - A histórica parceria do "funk carioca" com a Rede Globo vem desde 1990, quando a rádio 98 FM (hoje conhecida como Beat 98) havia aberto espaço para o gênero, tomando dianteira em relação a outras emissoras que antes trabalharam o gênero na antiga fase pré-pancadão.

No entanto, a parceria tornou-se mais intensa quando os filhos de Roberto Marinho (então no final de sua vida), que administravam as Organizações Globo em 2003, fez um amplo acordo de divulgação do "funk carioca", com um discurso "etnográfico" que também foi trabalhado em parceria com a Folha de São Paulo.

DJ Marlboro foi logo contratado pela Som Livre, Luciano Huck tornou-se o porta-voz maior do ritmo e até mesmo o antropólogo Hermano Vianna, academicamente ligado a Fernando Henrique Cardoso, passou a servir abertamente ao lado dos Marinho para transformar o "funk" num "sucesso permanente" às custas de uma retórica "intelectual".

A partir dessa parceria, o "funk" passou a ter um discurso "social" que muitos pensam ser "progressista", mas a verdade é que ele foi trabalhado nos bastidores dos altos círculos da grande mídia.

Portanto, essa é a realidade acerca do "funk", seja o "funk carioca" propriamente dito, seja o "funk ostentação" ou outro que vier. Não faz sentido desvinculá-lo do poder midiático que o criou. O "funk" foi condicionado pelos elementos ideológicos do poder midiático, e se desenvolveu pelas limitações sociais e pelos mecanismos de manipulação e poder sobre as classes pobres.

O "funk" nunca foi libertário. E nem será. E essa constatação nada tem de preconceituosa nem de moralista. É fato comprovado que o "funk" é produto da grande mídia e do mercado, e na prática o ritmo apenas colabora para a manutenção das estruturas de poder e controle que afetam o povo das periferias.

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