quarta-feira, 28 de agosto de 2013

BARRETOS E AS DUAS FACES DA MOEDA DO BREGA


O brega há muito se fragmentou em tendências "populares" diversas, que não consistem na verdadeira diversidade cultural brasileira, mas são, antes de mais nada, diferentes "sabores" de um mesmo produto: a "cultura" brega.

Há, nos últimos anos, uma tentativa de polarização, no âmbito da música brega, entre tendências "tradicionais" e "comportadas" e tendências "arrojadas" e "polêmicas". Entre uma e outra, o "abraço" dos barões da grande mídia é explícito, mas no segundo caso a intelectualidade sempre arruma um jeito para justificar, mesmo de forma mentirosa, que os ritmos estão "à margem da grande mídia".

Antes era todo o brega que era promovido de forma igual por intelectuais e porta-vozes da grande mídia. De Waldick Soriano a Chitãozinho & Xororó, de Chiclete Com Banana a Mr. Catra, eram todos "pobres, excluídos e discriminados", por mais que estivessem ricos, incluídos e badalados pelo "abraço" da grande mídia.

Hoje, com alguns ídolos brega-popularescos revelando posturas nada progressistas  - de Chitãozinho& Xororó a Belo, de Zezé di Camargo & Luciano à Banda Calypso, sem falar dos irrecuperáveis É O Tchan e Latino - , o discurso de defesa da mediocridade cultural hegemônica no Brasil teve que se dividir em duas frentes: a "tradicional" e a "arrojada".

Nesta segunda forma de defesa retórica, o carro-chefe é o "funk", e agora que o cenário do Rio de Janeiro está negativamente visado - seja pelo inegável patrocínio das corporações midiáticas, seja pela repercussão negativa das baixarias e ocorrências criminais - , o foco mudou completamente para o "funk ostentação".

Mas existe o outro lado, o "mais tradicional", aquele que encontra no Domingão do Faustão sua maior arena eletrônica. E cuja ênfase está nos medalhões do neo-brega - tendência dos anos 90 que juntava o brega dos anos 70-80 com clichês da MPB pasteurizada dos anos 80 - , sobretudo ligados à axé-music, ao "pagode romântico" e principalmente ao "sertanejo".

E é aí que entrou a festa anual de Barretos, evento que junta rodeios com apresentações musicais quase sempre de ídolos bregas. Aparentemente, é o contraponto mais "família" para o "agressivo" e supostamente controverso "funk carioca", que representa o pólo "rebelde" do aparente maniqueísmo da música brega.

E aí Barretos se torna o "paraíso astral" tanto de supostos sertanejos "de raiz" quanto o chamado "sertanejo universitário", detentores de um mercado escancaradamente patrocinado por latifundiários, empresários de agronegócio e por políticos ruralistas de tal modo que nomes como Victor & Léo evitam serem fotografados ao lado da senadora ruralista Kátia Abreu.

Mas evitar isso não adianta muito, já que, em eventos como Barretos, cantores "sertanejos" e políticos ruralistas se encontram de uma forma ou de outra. E a conhecida festa do peão boiadeiro, o maior evento realizado no interior paulista, tem o claro apoio de políticos do porte de Geraldo Alckmin, conhecido pelo seu ultraconservadorismo.

Daí que não funcionou para as esquerdas médias - que querem a verdade histórica da ditadura militar, exceto para o direitista Waldick Soriano - fazer blindagem com breganejos. O caso Zezé di Camargo & Luciano e seu filme Os Dois Filhos de Francisco gerou uma chorosa blindagem intelectual, mais lacrimosa do que o dramalhão a que se transformou a biografia dramatizada dos dois cantores goianos.

Daí o constrangimento que as esquerdas médias tiveram quando, depois de obrigarem as esquerdas em geral a aceitarem a "superioridade artística" da dupla, equivocadamente associada ao esquerdismo pela superestimação de seu voto à eleição de Lula, ao verem Zezé, o principal cantor, se mobilizar contra o presidente, não bastasse o fato dele e seu irmão terem votado no "demo" Ronaldo Caiado.

Mas o remorso só se deu quando houve o aspecto patético das esquerdas médias - teleguiadas por intelectuais vindos da centro-direita - em fazer blindagem com o fenômeno "mundial" do também breganejo Michel Teló, ligado a formas "modernas" de breganejo, já ligado a uma subdivisão do "sertanejo universitário", o "sertanejo pegação".

Depois do "mico" de ter promovido como "libertário" um ídolo muito criticado por refrões vazios como "Ai, ai / Assim Você Me Mata" e que estava se expondo demais na grande mídia para ser tido como "discriminado" pela mesma, as esquerdas médias preferiram defender sua visão de "diversidade cultural" deixando de lado o mainstream da música brega.

Daí que a festa de Barretos repercutiu apenas nos cenários da grande mídia. A "militância" que tenta nortear as esquerdas a apoiar o populismo de mercado do brega preferiu dar sua choradeira à batalha perdida de não poder mais defender com convicção o altamente rejeitado "funk" do Rio de Janeiro, apostando todas as suas lágrimas à "novidade" da cena paulista do "funk ostentação".

Nenhum comentário: