terça-feira, 6 de agosto de 2013

ALEX MARIANO E O LADO HUMANO DO RADIALISMO ROCK


Na noite de ontem, morreu assassinado num assalto o comerciante Alex Mariano Franco. Ele encerrava o expediente de sua loja Fênix, na Rua Visconde de Sepetiba, no Centro Norte de Niterói, quando foi rendido e depois baleado por assaltantes. O Centro Norte é considerado uma das áreas mais perigosas de Niterói.

Mas ele seria apenas um dos cidadãos covardemente mortos pela violência urbana se não fosse o fato de que, nos anos 80, Alex Mariano tivesse sido um dos integrantes da equipe fundadora da Rádio Fluminense FM. É a terceira morte entre os membros fundadores, depois de Samuel Wainer Filho, morto em acidente de carro em 1984, e Carlos Lacombe, também vítima de assalto, em 2002.

Alex vivia o espírito da época, quando jovens brasileiros ainda sentiam o gosto da Contracultura dos anos 60 que, naquele Brasil sufocado pela ditadura militar, foi tragada aos poucos, só acabando às vésperas do Rock In Rio, em 1984.

Mas o aparente atraso, no entanto, revelava uma criatividade. Afinal, tivemos mentes brilhantes que fizeram o Rock Brasil, o cinema juvenil brasileiro, o radialismo, o teatro e as artes plásticas que marcaram a década de 80. Se os jovens brasileiros ainda eram meio hippies quando até o punk parecia passado na Inglaterra, eles tinham jogo de cintura o bastante para se manterem modernos e atualizados.

E a Fluminense FM mostrava esse espírito, o lado humano do radialismo rock que hoje é apenas um baú de recordações. É pena que hoje o radialismo rock, reduzido a uma piada de dois números consecutivos (89), é mais uma questão de logotipo, de departamento comercial e parcerias promocionais do que um estado de espírito, impossível de ser assumido por locutores imbecilizados de fala tresloucada.

Há trinta anos atrás - e eu, aos 12 anos, começava a "mergulhar" fundo nas audições da Fluminense FM - , Alex Mariano dava seu sangue junto a Luiz Antônio Mello, Mylena Ciribelli, Monika Venerabile, Amaury Santos, Sérgio Vasconcellos, Liliane Yusim, Selma Boiron, Maurício Valladares, o citado Carlos Lacombe, entre outros.

Tempos em que rádios de rock tinham locutores que falavam feito gente, tinham inteligência e não arrogância, e respeitavam o rock antigo e o rock novo. Nada a ver com os tempos boçais de hoje, de uma 89 FM que tanto ignora os Beatles quanto o Beady Eye e acha que tudo que Mark Knopfler fez na vida foi "Sultans of Swing" e o álbum Brother In Arms.

E as rádios de rock eram mais abrangentes. Os vários produtores da Fluminense FM, com um pouco de sua bagagem musical, contribuíram para o vasto repertório que a "Maldita" tocava, e a anos-luz da Internet, havia muito mais liberdade de repertório roqueiro do que hoje, tempos de informação globalizada. Luiz Antônio Mello marcou não só pelo seu grande talento de coordenador, mas também pela cumplicidade de uma equipe que compartilhava com ele esse talento, amor e dedicação à rádio.

É porque, entregue à mesmice empresarial e aos interesses meramente comerciais, o radialismo rock hoje é um hit-parade robotizado e acéfalo montado praticamente pelas gravadoras, já que basta apenas ao programador hoje "distribuir" as músicas previamente lançadas.

Não há mais amor nas "rádios rock", não há mais espontaneidade nem talento nem criatividade. Há até ódio e rancor nas rádios ditas roqueiras hoje. Muita arrogância, muito fascismo, baseado apenas na "virtude" de não tocarem grupos vocais adolescentes e ídolos do "pagode romântico" e "sertanejo". Mas ter defeitos a menos não é o mesmo que ter qualidades a mais.

Alex Mariano entendia de tropicalismo e música brasileira. Mas também apreciava o rock clássico, e como coordenador da Fluminense FM logo após a saída de Luiz Antônio Mello em 1985, ele adotou essa linha. E um episódio ficou célebre envolvendo a briga entre Alex e Maurício Valladares.

Por causa do Rock In Rio, Maurício Valladares, fotógrafo, jornalista e divulgador e amigo de bandas como Paralamas do Sucesso e Legião Urbana, apresentava o Rock Alive (a princípio, junto com Liliane Yusim), pensava que a Fluminense FM deveria mudar seu rumo para a soul music, funk autêntico e world music.

Era uma época em que a etnografia musical não era corrompida pelo canto da sereia brega-popularesco pois hoje, em nome do "mundialismo cultural", misturam-se alhos com bugalhos enfiando o joio do "funk carioca", tecnobrega, axé-music no trigo da diversidade folclórica terceiro-mundista. Como deixou claro Hermano Vianna, antropólogo que surgiu como discípulo de Valladares.

MauVal, como era conhecido, chegou aos estúdios da Fluminense FM, no mesmo centro de Niterói que viu Alex Mariano morrer na noite passada, e, encontrando ele no seu trabalho, criticou a programação roqueira da emissora. Mariano não gostou das críticas, e afirmou que a linha da Fluminense era aquela, rock'n'roll, e MauVal, irritado, decidiu dar fim ao Rock Alive, que, reformulado, hoje corresponde ao programa Ronca Ronca.

Alex Mariano, através do episódio tardiamente divulgado na Internet, foi injustamente tido como radical e xiita. Mas ele apenas havia sido fiel ao caminho que a Fluminense FM tomou, que, do contrário que se imagina, ainda manteve a programação musical em bons termos até 1990, já que entre 1986 e 1988 a emissora chegou mesmo a divulgar novos nomes do rock alternativo estrangeiro, alguns inéditos até hoje no mercado brasileiro, como Weather Prophets e Rose Of Avalanche.

A imagem de radical vinha em tempos trevosos de 2001, quando a ditadura midiática estava no auge e, no lugar do brilhantismo da Fluminense, o radialismo rock era (muito mal) representado pelo reacionarismo de tinturas extremo-direitistas da Rádio Cidade (que um dia foi uma rádio pop boa), que transformou até Monika Venerabile em caricatura de si mesma (hoje, "castigada", ela apresenta programas popularescos na Nativa FM carioca, franquia de rádio dos mesmos donos da 89 FM).

Foi uma luta para mim, que escrevia textos sobre radialismo rock na Internet, provar que o radialismo rock representado pela 89 e Cidade era fajuto, quando a tendência (equivocada) era de muita gente acreditar que a Fluminense FM de 1986 que ousava tocar Durutti Column na programação normal era "pior" do que a Rádio Cidade de 1996 que tinha medo de tocar até Beck Hansen (sucesso na MTV na época).

Muito da relembrança da Rádio Fluminense FM se deveu nos meus textos da Internet, que apresentavam às gerações recentes caraterísticas que as ditas "rádios rock" hoje não têm, e pude expandir a recordação da emissora niteroiense que Luiz Antônio Mello descreveu no livro A Onda Maldita.

Hoje a Fluminense FM não existe mais, mas até mesmo a 89 FM de 1985-1987 está morta para sempre, e olha que nessa época a 89 estava mais para uma sub-equivalente paulistana da Estácio FM, perdia até para a Fluminense de 1986-1990. É de se lamentar que muitos apoiem a 89 FM e sua fórmula "Jovem Pan com guitarras" esperando, em vão, ouvir Frank Zappa e Violeta de Outono até na hora do almoço, enquanto seus ouvidos sangram ao som de bandas poser, emo e pós-grunge.

Há muito Alex Mariano não estava mais no radialismo rock. Foi sua opção pessoal largar o ramo. Tinha outros projetos. Gostava da cultura de povos primitivos, como os Maias, Incas e Astecas, adorava viajar e gostava muito de ler sobre Economia e transporte aéreo. E, até o lamentável desfecho de ontem, também adorava manter a loja Fênix.

Ver que, no país atolado pela medriocridade galopante (até a boa publicação Carta Capital se vende para um bando de jornalistas culturais que glamourizam a breguice cultural que arrasa com o Brasil) uma pessoa como Alex Mariano morrer da forma que morreu, é desesperador.

E nem tanto por apenas ele ter sido um grande profissional de rádio. Mas como figura humana e um exemplo para os tempos de hoje, movidos pelo mero pragmatismo das conveniências. Amigos, familiares e parceiros sentirão muita falta do convívio diário de Alex Mariano, deixando uma sombra na Fênix que nem se sabe se renascerá das cinzas da violência urbana.

Eu mesmo passava nas minhas andanças pelo centro niteroiense pela Rua Visconde de Sepetiba e não tinha a menor ideia que Alex Mariano trabalhava numa loja de lá. Só soube depois da tragédia. Se soubesse antes, quem sabe eu pudesse conhecê-lo e trocar ideias e conversar sobre vários assuntos na vida. Lamentavelmente, meu quase xará faleceu relativamente cedo, aos 59 anos de idade.

O que resta agora é a polícia identificar e prender os assassinos de Alex Mariano. Depoimentos estão sendo feitos neste sentido por diversas testemunhas. Quanto ao legado do radialismo rock, Alex já faz parte da história. E, sem uma rádio à altura da Fluminense FM, num dial FM que, em todo o Brasil, sofre uma crise catastrófica - até agora não-assumida por colunistas de rádio - , quem curte rock está a anos-luz longe da 89 FM e asseclas e monta sua seleção pessoal por MP3.

São outros tempos. Creio que mais sombrios.

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