sábado, 10 de agosto de 2013

89 FM E SUA IMAGEM SAUDOSISTA


Por Alexandre Figueiredo

Fenômeno estranho uma rádio se apoiar, no presente, pelas glórias passadas que nunca virão. Fala-se muito do saudosismo em torno da Rádio Fluminense FM, no radialismo rock, mas pouco se fala do verdadeiro saudosismo que protege o rótulo de "rádio rock" da emissora paulistana 89 FM.

A 89 FM - propriedade de uma oligarquia empresarial que se ascendeu na ditadura militar - regressou ao rótulo "roqueiro", abandonado em 2006, apoiada por uma imagem publicitária que não corresponde ao presente e nem ao futuro, mas ao passado. Com medo de virar passado, a suposta "rádio rock" se apoia justamente no passado para justificar até mesmo os erros do presente.

Famosa por uma conduta bastante duvidosa até mesmo para os parâmetros básicos do radialismo roqueiro, a 89 FM de hoje não é muito diferente de uma Jovem Pan 2 ou Mix FM, para citar emissoras de rede, ou da Energia 97 e Metropolitana, só para citar rádios jovens locais de São Paulo. E isso nada tem de desaforo, a linguagem deixa clara tais semelhanças.

É só tirar o que há de heavy ou punk no repertório da 89 e colocar no lugar nomes que variam de Madonna a One Direction, de Justin Timberlake a Double You, e substituir o grunge pelo pop dançante italiano e se terá uma rádio igualzinha às outras.

Tira-se aquelas vinhetas (bem típicas de rádios comerciais ditas "roqueiras) com um homem dizendo "wrock", quase que imitando um sapo (não seria "croac"?), e se terá uma rádio igualzinha, até nos locutores. Há milhares de clones do Tatola (um suposto punk que faria Billy Idol parecer um xiita do hardcore original) falando igualzinho nas rádios de pop dançante. Isso é fato.

Comparando os casos da Rádio Fluminense FM - em exposição e debates comemorativos dos 30 anos de surgimento da rádio niteroiense - e a "histórica" volta da 89 FM (provisoriamente sob o nome de fantasia "UOL 89 FM"), nota-se dois diferentes graus de saudosismo.

O primeiro, mais humanista, se refere aos tempos em que rádios de rock não eram questão de vinhetas alucinadas nem locutores tresloucados, mas um segmento séria e cautelosamente trabalhado, de acordo com a realidade cotidiana de seu público.

O segundo, mais arrogante, se refere a uma rádio "mais ou menos" cuja única "virtude" está longe de ser virtuosa, já que se vale não pelas qualidades a mais que não tem, mas pelos defeitos a menos, como evitar tocar pop dançante e ídolos popularescos.

Ninguém fica genial porque tem defeitos a menos, se não tem qualidades a mais. E que diferença tem um Linkin Park e um Backstreet Boys? Num mercado em que o "pop rock" e a dance music se alternam nos mesmos ídolos estrangeiros (Shakira, Demi Lovato, Pink, One Direction etc), a 89 FM nem de longe pode ser considerada uma emissora diferenciada.

Da mesma maneira, o roqueiro autêntico que é capaz de comprar uma raridade de rock na Internet, não vai sintonizar os 89,1 mhz para ouvir poser metal e bandas emo "menos andróginas" (da linha CPM 22 ou Tihuana) na esperança vã de um dia ouvir Frank Zappa na programação diária.

No entanto, a visão saudosista da 89 FM - a da rádio que tocou Frank Zappa, Violeta de Outono, Violent Femmes e a turma da Baratos Afins - , além de ter sido superestimada, não era assim tão real quanto o discurso deixou registrado. Até porque a imprensa musical geralmente escutava a 89 FM nas altas horas da noite, e era aí que a programação era melhor cuidada.

Até hoje há esse saudosismo. Mesmo quando se acha impossível que o rock da Baratos Afins um dia volte a ser tocado pela 89. Sempre tem esse papo de aceitar até mesmo os "micos" da 89, até o Tatola falando que nem o Rui Bala da Rádio Transamérica, na esperança de ouvir os alternativos novamente na rádio.

No entanto, a 89 FM não era Frank Zappa, Violeta de Outono e companhia o tempo todo. Na boa, o cardápio básico da 89, na sua melhor fase (a única e irrecuperável de 1985-1987, e ainda assim inferior e menos ousada que a fase mediana da Fluminense de 1986-1990), era U2, Duran Duran, Kid Abelha, Titãs, B-52's e sucessos mais acessíveis de Police e Clash.

A divulgação de alternativos não era tanta assim na programação normal e nem era tão ousada quanto se imagina. Apenas encontrava-se um parâmetro próximo ao da Estácio FM, com alguma inserção de nomes alternativos para divulgação de selos especializados. A Estácio foi uma rádio da carioca Universidade Estácio de Sá especializada em rock alternativo e tecnopop.

Perto do que a Fluminense FM fazia, tocando Rose Of Avalanche, Monochrome Set e Weather Prophets na programação normal, sem qualquer garantia de lançamento no Brasil, a 89 FM era bem menos corajosa, só tocando um Plasticland (banda neo-psicodélica dos anos 80) depois que a RGE garantiu que iria lançar no Brasil.

Além disso, se a 89 FM só tocou as bandas independentes, tipo Violeta de Outono, Fellini e Akira S e As Garotas que Erraram, do final de 1985 até 1988, a Fluminense FM continuou tocando todos eles de 1984 até 1990, quando os últimos vínculos com a linha original da rádio foram cortados.

A própria duração e qualidade da fase áurea difere. A Fluminense FM, em sua fase áurea, durou de 1982 até 1985 e, mesmo sem o vigor e o brilhantismo anteriores, segurou a onda até 1990. Portanto, foram oito anos mantendo um mínimo de qualidade.

Já a 89 FM só viveu uma boa fase entre o final de 1985 (quando surgiu) até 1987, quando passou a adotar, por definitivo, um perfil hit-parade e gradualmente isolou os alternativos em programas noturnos até expulsá-los de vez em 1994. No conjunto da obra, foram apenas três anos, os primeiros da rádio.

Felizmente, esse saudosismo parte de críticos musicais, músicos e alguns especialistas que ainda sonham ver a 89 FM de 1985. O público roqueiro em geral já não confia mais no esclerosado rádio FM que, no âmbito do rock, acha até Bon Jovi sinônimo de "rock clássico" e cujos locutores usam as mesmas gírias clubber de qualquer FM "poperó".

Passando longe desse besteirol todo, a maior parte dos roqueiros prefere MP3, CDs e maior liberdade de garimpar canções e artistas de rock que não precisam ser sucessos comerciais nem serem muito famosos, mas necessariamente precisam ter um mínimo de qualidade musical, algo que os interesses meramente comerciais do rádio FM menospreza até com certo radicalismo.

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