sábado, 3 de agosto de 2013

89 FM: DEPARTAMENTO COMERCIAL FORTE, PERFIL ROCK FRACO

ROBERTO MEDINA, AO LADO DE EIKE BATISTA - Verdadeiro motivo da volta da 89 FM é só alimentar a indústria corporativa de eventos do pop internacional.

A rádio paulista 89 FM largou o nome UOL de sua marca, adotado quando a emissora voltou ao perfil "roqueiro" - prestem atenção nas aspas - no final do ano passado. Mas a parceria continua, pois o contrato vai até dezembro próximo e, ao que tudo indica, Otávio Frias Filho continuará sendo sócio da emissora.

Observando a conduta da 89 FM - que retomou exatamente a mesma performance que "queimou" a rádio em 2006 - , nota-se que o forte da emissora é pura e simplesmente o departamento comercial, e as boas relações que tem com os empresários de grandes eventos internacionais realizados no Brasil, além dos grandes anunciantes.

Isso vem desde o fato de que um dos donos da 89, o patriarca José Camargo, era ligado a Paulo Maluf e amigo de José Maria Marin (hoje presidente da CBF). Atualmente, José Camargo, filiado ao DEM, apoia o governador paulistano Geraldo Alckmin.

Há indícios de que um dos motivos da "volta" da 89 seria criar uma base de apoio juvenil para o PSDB paulistano, que perdeu as eleições municipais de SP, já que o dono do UOL, Otávio Frias Filho, é um grande colaborador do PSDB. A 89 voltaria para trabalhar um estereótipo conservador e ao mesmo tempo reacionário e pouco contestador do "rebelde" urbano brasileiro.

O que se nota na 89 é tão somente o departamento comercial forte. Só isso. Há muitos projetos publicitários, festas, parcerias com promotoras de eventos, a 89 sorteia carros, viagens, equipamentos de som, computadores etc.

Mas isso não faz a emissora se fortalecer como rádio de rock, porque a emissora nunca teve, mesmo nos bons momentos, o estado de espírito e a mentalidade necessárias para ter uma boa reputação no público de rock (de rock mesmo).

A programação da 89, nesses meses todos, está fraquíssima. O sucesso da emissora - que até existe, mas é bem menos do que os "100 mil ouvintes por minuto" que o Ibope registra - se deve mais a um público menos radical que curte o cardápio subnutrido do rock noventista, entre o grunge, o poser metal e o poppy punk e da "cena" brasileira de Charlie Brown Jr., CPM 22 e Mamonas Assassinas.

Nada que seja uma cultura rock de verdade, séria, relevante, autêntica. Esqueçam isso. Se a Fluminense FM de 1982-1985 não volta mais, a 89 FM de 1985-1987 já está muito bem sepultada. Quem quer ouvir Frank Zappa, Violent Femmes e Violeta de Outono que vá para lojas de discos ou arrume arquivos de MP3 para ouvir. É essa a realidade.

Desde que a 89 FM adotou uma linguagem pop, há 25 anos, a emissora descarrilou. Embora, em termos publicitários, a emissora se destacou como "rádio rock", em termos de público especializado, a 89, que nem sequer fez parte da primeira divisão de rádios de rock (das quais a representante paulista era a 97 FM, ou 97 Rock), praticamente "queimou" o filme.

O que se vê hoje é uma "Jovem Pan 2 com guitarras" com locutores engraçadinhos - que contamina até o coordenador Tatola, suposto cantor punk com sua locução "putz-putz" - e um repertório só de sucessos comerciais.

Há mais ênfase em bandas pouco representativas para o rock como Creed, Live, Smash Mouth, Outfield e o brasileiro Mamonas Assassinas - convenhamos, os finados Mamonas estão mais para grupo de humor do que para banda de rock (cujo som é muito chinfrim para o gênero) - do que para bandas que fizeram história, mas que o preconceito oitentanovista define como "ultrapassados".

Afinal, é um horror ver que adeptos e profissionais de uma rádio que quer ser considerada "de rock" façam ataques violentos a Led Zeppelin e Who, que falem mal do que entendem por "rock velho" e ainda ignoram completamente efemérides como a lembrança dos 70 anos de nascimento do ex-beatle George Harrison.

Mas, em relação ao rock mais novo, há a divulgação um tanto hipócrita de umas meia-dúzia de músicas de grupos como Smiths (cujo ex-vocalista, o solitário por opção Morrissey, é tratado como se fosse uma tresloucada drag queen pelos ouvintes-padrão da 89) e há a ignorância até mesmo da existência de grupos como Beady Eye.

Para quem não sabe, o Beady Eye é o Oasis sem Noel Gallagher, que já tem um bom repertório de autoria de seus integrantes, que antes eram ofuscados pela predominante produção autoral de Noel. Nada contra, e o "racha" foi positivo, pois há um grande artista como Noel e uma grande banda como o Beady Eye do irmão e desafeto Liam Gallagher.

Só que a 89 ainda permanece nos tempos do Oasis, tocando "Wonderwall", "Don't Look Back in Anger" e alguns outros sucessos surrados pelas rádios comerciais. O que mostra que a emissora, em termos de rock novo, anda também muito fraca, preferindo lançar como "novidades" bandas novas que imitem o som do Evanescence, do Nickelback ou do Linkin Park.

De nacionais, então, enquanto os saudosos da 89 FM de 1985 (que, com todas suas virtudes, perdia até para a Fluminense FM fase segurando-os-trancos de 1986-1990) esperam em vão que apareça um Violeta de Outono e um Fellini, a dura realidade mostra que as "novas" bandas não vão muito além do que já fizeram CPM 22, Detonautas Roque Clube, Natiruts, NX Zero e, sobretudo, Charlie Brown Jr..

Portanto, como rádio de rock a 89 FM não é para ser levada muito a sério. Até porque o público realmente roqueiro prefere montar seleções próprias em MP3, para não se limitar aos hits. Segundo, porque a emissora segue a lógica "popirroque", o que sua programação deixa bem claro em linguagem e mentalidade.

Para a 89, "rock" é muito mais questão de marketing do que de cultura e estado de espírito.

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