segunda-feira, 22 de julho de 2013

PSEUDO-MPB E OS ARTIFÍCIOS DOS NEO-BREGAS



No Domingão do Faustão, o cantor breganejo Leonardo, que havia pensado em se aposentar, apareceu mais uma vez para lançar seu novo disco e contar a respeito de fatos de sua vida, incluindo conhecidas tragédias familiares, como o acidente que quase matou seu filho e a doença que matou o irmão e parceiro Leandro, com o qual formou a dupla Leandro & Leonardo.

A exemplo de outros nomes da geração neo-brega dos anos 90, como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Belo, Alexandre Pires e Daniel, Leonardo tenta um "revival" não-assumido, mas agora admitindo a postura de "veteranos" depois de uma enxurrada de nomes "universitários" que povoam as cenas pós-bregas (que emulam um aparato mais "moderno"), prometendo uma postura mais "sofisticada".

Os neo-bregas que, em 1990, simbolizavam a Era Collor - o próprio ex-presidente Fernando Collor, hoje, é senador e dublê de conselheiro para as esquerdas médias - , sempre ignoraram a MPB e esnobavam qualquer tipo de sofisticação. MPB era "coisa de bacana", mesmo quando, na época, ela tinha um bom trânsito nas rádios e pelo menos fazia parte de 5% do cardápio musical tocado pelas rádios popularescas.

Naquela época, nomes como Marisa Monte e Adriana Calcanhoto, além de Chico César - com sua voz parecida com a de Caetano Veloso - , faziam a juventude brasileira, na ressaca do já desgastado Rock Brasil (que não conseguia manter o mesmo diálogo com o público brasileiro que exercia antes), redescobrir a verdadeira MPB. Era uma surpresa ver, em 1993, jovens de 15 anos falando em Paulinho da Viola, em Bossa Nova, em sambalanço. Era uma grande novidade.

Somente nos últimos 15 anos, talvez para "correr atrás do prejuízo", os neo-bregas passaram a emular clichês bastante manjados da MPB popularizada pelo rádio, mas sem representar qualquer tipo de ruptura com a mesmice que assolou a MPB autêntica a partir do final dos anos 70. Pelo contrário, com o êxodo dos então medalhões da MPB para fora das grandes gravadoras, elas apostam nos neo-bregas para assumir o nicho da "MPB pasteurizada" que a MPB não quis mais fazer.

Leonardo, na sua aparição de ontem, interpretou até mesmo uma canção em arranjo de voz e piano de Michael Sullivan e Paulo Massadas, "Talismã", que havia sido um sucesso nacional da dupla Leandro & Leonardo (mas um sucesso local, no Rio de Janeiro, pelo pagodeiro Edson do Forrogode).

A performance segue a mesma tendência de Alexandre Pires, em arranjo acústico num CD recente - o Eletrosamba, em que o agora regresso vocalista do Só Pra Contrariar imaginou um "novo cenário de samba" que nunca existiu - , e Chitãozinho & Xororó, em arranjos orquestrais sob a batuta do veterano João Carlos Martins.

É a tendência de regravar antigos sucessos agora com arranjos luxuosos - evidentemente feitos por outrem - , como se quisessem entrar no primeiro time da MPB sem muito esforço. Um artifício que os neo-bregas fazem para ampliar seu mercado ou justificar alguma perenidade artística que, na verdade, não existe, por serem eles ídolos da música comercial, queiram ou não queiram seus fãs.

Afinal, trata-se da mesma pseudo-MPB que irritava os jovens nos anos 80, que fazia a crítica torcer o nariz e que fazia intelectuais do porte de José Ramos Tinhorão e Rui Castro os definirem como símbolos da decadência cultural do país. A única diferença é que os "artistas" de hoje possuem maior apelo popular do que os antigos medalhões da MPB que se cansaram de serem feitos marionetes dos executivos das gravadoras.

No entanto, se os neo-bregas ganham dos medalhões da MPB autêntica por terem maior apelo popular, eles, como artistas, perdem pela falta de criatividade e até mesmo pela submissão com que abraçam as tendências do mercado, regravando antigos sucessos ou regravando sucessos da MPB autêntica sem que acrescentassem algo à verdadeira Música Popular Brasileira que não sejam sucessos financeiros ou visibilidade midiática.

Já dá até para perceber que os neo-bregas hoje soam bastante datados. Mesmo os ídolos tardios dessa tendência, como Thiaguinho e Cláudia Leitte, também soam muito datados. E todos eles, querendo fazer "MPB de verdade", apenas repetem os clichês elitistas que a fase pasteurizada da MPB, mais preocupada em criar um clima de luxo e de gala do que de renovar nossa cultura musical, fez para tornar-se conhecida jocosamente como "Música Impopular Brasileira".

Até porque a MPB nunca esteve no coração dos neo-bregas. Nunca fez parte, de fato, de suas vidas, a MPB como um estado de espírito para vocação musical. E ainda por cima eles só esperaram ficar ricos, fazer muito sucesso, para depois tentar fazer MPB, mas uma MPB sem alma, uma mera embalagem para os públicos de elite consumirem. Mas cujo conteúdo chega a ser pior do que a MPB pasteurizada de antes. Os neo-bregas acabaram ficando bregas demais para a MPB.

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