quinta-feira, 6 de junho de 2013

"FUNK CARIOCA" DIALOGA MAIS COM A DIREITA


Na campanha apologética do "funk carioca", a mídia direitista sempre leva a melhor. E os funqueiros, como querem mais reservas de mercado - seu discurso "ativista" e "folclórico" não passa de puro marketing - sabem muito bem disso.

O "funk" fica mais tranquilo quando transita pela mídia reacionária. Sua "choradeira", quando é expressa, ganha apoio imediato. Na direita midiática, há um apoio entusiasmado de gente como Marcelo Madureira, Nelson Motta, Marcelo Tas, William Waack, Luciano Huck, Gilberto Dimenstein, Ana Maria Braga e, principalmente, do roqueiro neocon Lobão.

Se parte dos analistas de esquerda, a parte frágil, que mais apita do que questiona as coisas, e é vulnerável às armadilhas neoliberais enrustidas, veste a camisa da causa funqueira, a postura é mais envergonhada, nervosa e chorosa, mais fruto de antigos preconceitos paternalistas com as classes populares do que realmente alguma identificação profunda com a realidade das periferias.

Na direita, o elitismo é claro, assumido. Seus analistas sabem que fazem parte de uma elite que deseja ver o povo pobre domesticado pelo entretenimento brega e seus derivados. Sua defesa é tão tranquila que Paulo César Araújo hoje se sente em casa quando fala para o jornal O Globo, a Rede Globo e o canal pago Globo News. Se Merval Pereira convidá-lo para um chá na ABL, PC Araújo irá todo feliz.

Já na mídia esquerdista, que questiona as armadilhas da ditadura midiática e estabelece causas ainda mal digeridas como a reforma agrária e a regulação da mídia, o "funk carioca" sabe que encontra uma rejeição imensa.

Afinal, o "funk carioca" é um produto de uma "cultura" midiocrática que só as esquerdas médias se recusam a entender, na medida em que o ritmo carioca, um mero pop dançante, comercial e rasteiro, por trás de seu discurso pretensiosamente "ativista" e "sócio-cultural", glamouriza a pobreza e traveste de "valores avançados" muitos valores retrógrados que incluem até mesmo machismo, alienação social e violência.

A adesão das esquerdas médias - que se comportam hoje como os neocons se comportaram às vésperas de sua gradual conversão à direita - ao "funk carioca" se deve claramente a uma visão de "cultura popular" que está mais próxima da concepção neoliberal de "livre mercado" e "democracia" do que de alguma inclinação a uma causa revolucionária da qual o "funk" nem sequer cogitou nem cogita promover.

Se existe rejeição ao "funk" na direita, ela se dá muito mais aos radicais da linha de Olavo de Carvalho, Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo, ou de saudosistas da dicotomia "Bossa Nova X CPC" como o ex-cepecista Arnaldo Jabor, e essa rejeição se dá muito mais como um protecionismo das elites do que de algum desejo de ver o povo pobre apreciando culturas melhores.

Nas esquerdas médias, também há esse protecionismo, afinal se tratam de intelectuais que se beneficiaram com a redescoberta da MPB pós-Tropicália, que os fez bancarem os "senhores absolutos" do patrimônio cultural das classes populares.

Para os intelectuais dessas esquerdas médias - juntamente aos centro-direitistas que se infiltram nas esquerdas a pretexto do falso descontentamento com os excessos da direita - , há um medo da perda desse privilégio de só eles conhecerem o som de Sérgio Ricardo, Arrigo Barnabé, Dom Um Romão, Carlos Dafé, Azymuth e outros bambas da MPB menos badalada.

Daí a defesa da intelectualidade ao brega mais rasteiro, a ponto de haver dirigismo ideológico que determina que "todo alternativo esquerdista deve apoiar Raça Negra, Luiz Caldas, Leandro Lehart e Odair José", dirigismo de causar vergonha até nos "cuecões" do Partidão. Tudo para desviar a atenção de empregadas domésticas que, limpando as estantes, deem de cara com discos de MPB que estimulem sua curiosidade.

O apoio da intelligentzia ao "funk carioca" é uma expressão de uma tendência dessa elite "pensante" em adotar uma postura paternalista com as classes populares. Essa elite, ou por ignorância, ou por puro cinismo, recusa-se a ver a diferença entre "cultura" midiocrática e folclore, achando que, sob o manto do "popular", tudo é válido.

Esse paternalismo encontra tensões nas esquerdas, porque em dado momento se choca com discussões e debates que questionam valores e procedimentos sociais que o "funk" ainda apoia, defende ou, ao menos, acoberta. Atribuir como "positivos" os mesmos valores de degradação social no "funk" que, se fosse no caso das classes mais instruídas, seriam reconhecidos como negativos, soa por demais incoerente.

Daí eventuais incidentes como a "saia justa" de Bia Abramo com as profissionais de enfermagem, na medida em que a jornalista filha de Perseu Abramo, mas "infectada" pelo Projeto Folha, preferiu defender as "mulheres-frutas". E mostra o quanto, nessas esquerdas médias, há o mesmo background ideológico que produziu neocons como Lobão e Marcelo Madureira. Sem falar que o primo de Bia Abramo, Cláudio Weber Abramo, é sócio do Instituto Millenium.

Na mídia direitista, essa discussão não existe. Se nas esquerdas o "funk carioca" precisaria explicar seu posicionamento em relação à regulação da mídia - proposta que os funqueiros, no fundo, são extremamente contrários, mas oficialmente se dizem "a favor" - , na direita não há essa explicação, já que o "funk carioca" está ali, à vontade, fazendo o esquema dos barões da grande mídia.

Na mídia direitista, o "funk" quase não polemiza porque neste caso a mídia trabalha o povo pobre da mesma forma caricatural que o gênero trabalha. Nas esquerdas, porém, os defensores do ritmo precisam explicar sua defesa, tentam desmentir a imagem caricatural do gênero e, nem sempre verossímeis, acabam num momento ou em outro mandando farpas "urubólogas" contra o que dizem ser a "alta cultura" em que, para eles, até Nelson Cavaquinho lhes é "burguês demais".

Daí que uma reportagem sobre "funk ostentação" num blogue tipo Diário do Centro do Mundo causa muito mais polêmica do que uma reportagem sobre o mesmo ritmo na Veja São Paulo. É uma prova que o "funk carioca" fica feliz ao lado do poder midiático, por ser, na verdade, um produto resultante de todos os valores difundidos pela ditadura midiática.

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