domingo, 23 de junho de 2013

BREGA NUNCA REPRESENTOU RUPTURA ALGUMA

CAETANO VELOSO E ODAIR JOSÉ, NOS PREPARATIVOS PARA A "POLÊMICA" PERFORMANCE NO FESTIVAL PHONO 73.


Criou-se uma "tradição" ideológica em acreditar que a "cultura" brega e todos os seus derivados - o que se entende por "popular" veiculado pela mídia nos últimos anos - representa uma suposta ruptura com o estabelecido e, segundo essa tese, seria um movimento "injustiçado" pela mídia e pelo mercado dominantes.

É uma visão oficial que conta com um forte lobby de intelectuais, jornalistas, blogueiros, acadêmicos, celebridades, artistas e produtores de eventos, e que deixa a "boa sociedade" numa situação confortável. Afinal, é apoiando o brega que as elites disfarçam seus piores preconceitos, a partir de um paternalismo cordial com a mediocrização cultural do país, que cria uma imagem adocicada do povo pobre.

Essa visão tenta atribuir à breguice dominante um tom de "rebeldia" que ele nunca teve. Afinal, o brega, assim como seus derivados, sempre manteve uma postura resignada, conformista e subalterna, até mesmo retardatária na assimilação de influências culturais obsoletas, como uma tradução fiel às ideias que, na Economia, são expressas no pensamento de Roberto Campos e Fernando Henrique Cardoso.

O brega nunca rompeu com o poder midiático porque este era justamente a fonte de sua formação "cultural". A grande mídia sempre forneceu aos aspirantes de expressões bregas - cantores e músicos cafonas, "boazudas", jornalistas policialescos, humoristas de besteirol, vários craques de futebol - os elementos que os caraterizam no som, no vestuário, na atitude, no comportamento etc.

POR QUE O BREGA É VISTO COMO "RUPTURA"?

Mas por que o brega é visto como uma suposta ruptura contra paradigmas que as elites enxergam em relação à grande mídia, à cultura brasileira e ao mercado? Por que essa visão, de validade duvidosa, no entanto é defendida em aparente unanimidade no mainstream da opinião pública?

Criou-se uma tendência de semi-intolerância em relação à MPB autêntica, desde que veio a rejeição crítica compartilhada por intelectuais e acadêmicos, diante da mesmice e da acomodação da MPB feita pela indústria fonográfica.

De repente, não só a MPB mas qualquer desejo de melhoria cultural das classes populares foi visto como "dirigismo ideológico", logo pela sociedade pró-brega que faz dirigismo "recomendando" Raça Negra para o público alternativo da Virada Cultural.

Tudo que acontece como "culturalmente negativo" nas classes populares e que consiste na ideologia brega, para essa "boa sociedade" e seus ideólogos intelectuais, é visto de forma positiva como se essa inferiorização cultural fosse "superioridade".

Essa postura se dá com um mal disfarçado rancor com o suposto academicismo atribuído à MPB, aos movimentos sociais, ao verdadeiro feminismo e a tudo que age contra a mediocridade cultural e a imbecilização. Para a intelectualidade dominante, o povo pobre só poderá melhorar por via da Economia, enquanto dependerá do apoio da intelectualidade para as supostas melhorias culturais.

Esse rancor se dá sobretudo contra figuras como Chico Buarque, Tom Jobim, contra o Clube da Esquina - sem atacar diretamente Milton Nascimento, para não dar impressão de racismo - , contra a Bossa Nova, contra a música instrumental de qualidade, enfim, contra tudo que for considerado "alta cultura" pela intelligentzia atual.

Para contrapor-se a isso, a intelectualidade dominante passou a ver no brega um suposto foco de rebeldia, e isso a princípio parecia uma atitude de provocação, quase que uma postura jocosa, feita para gracejar dos excessos que o academicismo havia pregado nos anos 70.

BREGA ERA PIADA; GRANDE MÍDIA O FEZ LEVAR-SE A SÉRIO DEMAIS

Não vamos nos esquecer também que essa visão de defesa preciosista do brega surgiu em São Paulo e, pouco depois, se projetou no Norte e Nordeste, de onde veio a maioria dos ídolos bregas, que os reciclou através do aval de artistas, celebridades e jornalistas paulistas.

No começo, o brega era visto como uma piada que era aproveitada por artistas paulistas como um elemento a somar nas performances humorísticas. O brega não era algo a se levar a sério, e lá por volta da década de 80 houve até mesmo grupos teatrais e músicos que utilizavam estéticas cafonas como forma de expressão satírica renovada.

Só que, desde o fim dos anos 90, com a adaptação brasileira dos ideais da cultura trash - que no auge do modismo grunge de então exaltava até serial killers - somados à versão brasileira do "politicamente correto" (forma tendenciosa de adotar posturas sociais "elevadas"), fez a grande mídia fazer uma propaganda do brega tratando-o não como uma piada, mas como uma "coisa séria".

Daí a choradeira que definia os ídolos brega-popularescos como "vítimas de preconceito", invertendo o sentido do sucesso comercial e da popularidade. Superestimava-se até mesmo a rejeição que uma pequena parte da imprensa musical fazia a esses ídolos, atribuindo a ela defeitos e danos maiores do que esta realmente causava aos ídolos cafonas.

A própria grande mídia, acusada de cúmplice na "discriminação" sofrida pelos bregas, criou todo um discurso favorável a esses ídolos. Juntas, as Organizações Globo e a Folha de São Paulo criaram um discurso que tentava, de forma tendenciosa, promover o brega como se fosse "cultura superior", em detrimento de expressões artísticas de qualidade menosprezadas ou depreciadas.

O brega sempre foi establishment, tanto pelo fato de sua formação ser vinculada à grande mídia regional, quanto pelo fato de que o establishment midiático e cultural sempre arrumaram algum jeito para favorecer os ídolos cafonas e seus derivados, sejam os "comportados" (como "sertanejo", axé-music e "pagode romântico"), sejam os "polêmicos" (como "funk carioca", "forró eletrônico" e tecnobrega).

Desde Caetano Veloso cantando com Odair José até Lobão, em seu surto neocon, praticamente dizer que só o "funk" é que "presta" na cultura brasileira, a sociedade dominante sempre apoiou o brega. O brega nunca foi um excluído cultural. Apenas tirava férias da grande mídia, aparentemente longas, mas longe de qualquer desprezo real.

O brega é inofensivo, mercadológico e artisticamente precário. Fácil de trabalhar fórmulas musicais mercadológicas, com baixo investimento aos "artistas". Além disso, sua despolitização agrada em cheio o neoliberalismo e deixa os barões da mídia felizes e tranquilos. O brega é capitalista por excelência, porque o capitalismo fez o povo ficar brega.

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