terça-feira, 18 de junho de 2013

A ECLOSÃO DOS PROTESTOS JUVENIS NO BRASIL



Era apenas para ser um protesto contra aumento das passagens. Seriam mais alguns movimentos como esses, protestos pontuais, revoltas voltadas para o acréscimo de alguns centavos que, somadas a cada semana num mês, representam uma séria despesa tirada dos salários dos trabalhadores.

Sim, esses protestos têm esses motivos, sobretudo através do Movimento Passe Livre para os estudantes, a partir de São Paulo, mas com equivalentes em outras cidades do país. Mas a coisa, de repente, se transformou em manifestações intensas, algo nunca visto nos últimos 45 anos.

Fala-se 45 anos porque os protestos estudantis de 1977 (contra o "pacote" ditatorial de maio lançado pelo general Ernesto Geisel) e de 1992 (contra a corrupção do governo do presidente Fernando Collor), embora relativamente bastante expressivos, são apenas sombras do que foram os protestos de 1968.

Os protestos de 1968 foram o auge de uma série de manifestações, várias delas sangrentas, feitas por estudantes descontentes com as medidas arbitrárias lançadas pelo então ministro da Educação do governo de Castelo Branco, Flávio Suplicy de Lacerda, em 1966, entre elas a substituição da UNE por uma entidade "representativa" vinculada ao regime militar.

Depois de Suplicy de Lacerda - artífice, também, do acordo MEC-USAID que reduziria a Educação brasileira num mero mercado tecnocrático patrocinado pelos EUA - , outros ministros assumiram a pasta. Mas Suplicy de Lacerda se destaca pelo mesmo pano de fundo que busca relações com os dias de hoje.

Afinal, Flávio era professor paranaense e havia sido, pouco antes de assumir a pasta da Educação, reitor da Universidade do Paraná (atual UFPR). Nessa época, o estudante de arquitetura Jaime Lerner começava a se destacar como "aluno modelo" que, de tendência conservadora, passou a se lançar na política através da Aliança Renovadora Nacional (ARENA), sendo nomeado prefeito de Curitiba.

O prefeito biônico de Curitiba que lançou um modelo autoritário de "mobilidade urbana" até tentou se passar por "progressista", pegando carona em nas filiações do PDT e PSB só para dizer que "não era de direita", e hoje Lerner é aposentado da vida política. Mas ele fez horrores como prefeito e governador, tinha apetite privatista doentio e foi padrinho político de Beto Richa, figura "notável" da direita paranaense.

Lerner vendeu seu projeto de "mobilidade urbana", que cheira a mofo mas mesmo assim é vendido como "novidade", com seus ônibus fardados e uma carga horária tirânica contra os motoristas, para outras capitais, com o apoio aberto dos políticos que descuidam do interesse público e "lavam" todo o dinheiro sujo junto com as verbas públicas despejadas para garantir a farra politiqueira dos eventos esportivos.

De repente, os protestos passaram a se dirigir não apenas aos aumentos das passagens de ônibus, mas também à ditadura midiática e contra os gastos faraônicos para a Copa das Confederações, que prenunciam o que será a farra política na Copa de 2014 e nas Olimpíadas de 2016. Estas, embora ocorram apenas no Rio de Janeiro, envolvem interesses turísticos das demais capitais do país.

E mesmo a repressão policial - a mesma tanto da parte de um claramente reacionário Geraldo Alckmin quanto da parte de um falsamente progressista Sérgio Cabral Filho - não intimidou os estudantes, antes causasse maior desgaste aos governantes que prometiam "manter a ordem".

A MÍDIA TENTOU CONDENAR OS MOVIMENTOS

A grande mídia começou a cobrir os manifestos estudantis de forma reacionária, condenando os protestos juvenis e dando ênfase exagerada nos atos de vandalismo que, na verdade, eram feitos por desordeiros sem qualquer relação com as manifestações.

O reacionarismo midiático era tanto que Veja e Folha de São Paulo pregavam a mobilização policial para reprimir os manifestantes, mesmo que seja a bala. A postura era motivada pelo promotor Rogério Zagallo, que defendeu que a polícia atirasse nos manifestantes. Através dessa postura, a grande mídia tentava definir os protestos como "atos terroristas" que deviam ser combatidos a bala.

E aí comentaristas como Arnaldo Jabor e José Luiz Datena foram despejar seu reacionarismo, tentando definir as manifestações como "desordeiras". Jocoso, Reinaldo Azevedo, o "calunista" de Veja, disse ironicamente que virou "progressista" mas ridicularizou quem acreditasse do poder transformador desses protestos que juntam milhares de pessoas pelas ruas dos centros das grandes cidades.

Arnaldo Jabor, por sua vez, repetiu aquele jeito rabugento de comentar os fatos políticos e disse que os estudantes "não valiam" sequer os 20 centavos que geralmente são acrescidos em cada unidade de tarifa de ônibus reajustada. Diante da repercussão negativa de seus comentários, Jabor pediu desculpas, admitindo a validade dos movimentos estudantis.

A reação popular contra o poder midiático era tal que até mesmo o jornalista da Globo, Carlos Barcellos - que segue uma abordagem temática tolerada pelas esquerdas médias - , foi vaiado por alguns manifestantes, que o acusavam de "manipulador".

Ontem à tarde, as manifestações simplesmente cresceram de forma impressionante. Se, na semana passada, uma estudante havia ido às ruas com o cartaz "Desculpe o transtorno: estamos mudando o país", hoje a coisa está mais intensa.

Os protestos também mostram que a visão caduca da "coisificação" do ativismo social através das "novas mídias digitais", defendida por esquerdistas médios que não conseguem esconder seus desejos puramente tecnocráticos de submeter a humanidade ao jugo das máquinas e reduzir as mobilizações sociais a meros sub-produtos das novas tecnologias.

Deslumbrados com a utopia de que as novas tecnologias, em si, transformam a humanidade, os esquerdistas médios, vários deles ligados ao Coletivo Fora do Eixo (mas dentro de George Soros), se frustraram ao ver que não é a mensagem que se submete ao meio, mas o meio é que serve de instrumento para propagação de uma mensagem.

E essa mensagem só se propaga com o contato presencial, e nenhum Facebook e nenhum Twitter substituem as manifestações nas ruas, rejeitando a demagogia, o autoritarismo e a corrupção, não da forma que a grande mídia deseja, não do modo que as autoridades toleram e não da maneira que os esquerdistas médios gostariam que acontecessem.

Não se sabe até que ponto irão essas manifestações e quais efeitos concretos poderão causar. Mas isso é só o começo, e as coisas só passam a ter um significado definido no decorrer do tempo. Em todo caso, é salutar ver que as manifestações nas ruas crescem, dando um ânimo nos jovens e rompendo com a letargia que a ditadura militar tentou "ensinar" ao povo brasileiro. Enfim, começam as "primaveras" no Brasil.

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