quarta-feira, 1 de maio de 2013

MESTRANDA DA UFF NÃO QUIS DEFENDER SUPOSTO "FEMINISMO" DO "FUNK"



Os defensores do "funk carioca" tiveram um relativo mal-entendido, que pegou em cheio até um blogue de feministas que, na "boa fé", acabou defendendo as "popozudas" do gênero. Afinal, uma tese de mestrado sobre o suposto "feminismo" do "funk carioca" na verdade não é de todo elogioso ao gênero.

Embora se saiba que a Fundação Ford, uma das interessadas pela propagação do "funk carioca" no Brasil e tem vínculos tanto com a CIA quanto com a grande mídia brasileira, investe dinheiro nas instituições universitárias como a Universidade Federal Fluminense - que havia aceitado a escolha de Valesca Popozuda como patronesse de uma turma de formandos - , a tese em questão não é de todo condescendente.

A aluna Mariana Gomes, que havia feito uma tese de conclusão de graduação sobre as "mulheres-frutas", resolveu trabalhar uma tese de mestrado que questionasse a suposta importância do "funk carioca" como um dos últimos redutos do feminismo brasileiro. A tese de mestrado se intitula My pussy é poder – A representação feminina através do funk no Rio de Janeiro: Identidade, feminismo e indústria cultural.

Segundo a mestranda, o objetivo do trabalho não é glamourizar o comportamento das intérpretes do "funk carioca", mas de verificar se o discurso supostamente "feminista" de nomes como Valesca e Tati Quebra-Barraco "são um caso de libertação feminina ou apenas um atendimento da demanda do mercado erótico".

"LIBERDADE DO CORPO" CONTESTADA

 O que impressiona é que Mariana acabou inserindo no seu projeto de pesquisa um aspecto semelhante ao que este blogue já havia advertido várias vezes, a de que a suposta "liberdade do corpo" das "musas" vulgares - nas quais se inserem as funqueiras, dançarinas ou intérpretes - pode ser, na verdade, uma espécie de "prisão do corpo".

"A relação entre feminismo e erotismo é perigosa, inclusive para a Valesca. Ela se diz feminista, mas será que é mesmo? (...) A cantora afirma o corpo como espaço de liberdade, mas ele pode ser uma prisão, neste caso, porque o objetivo é conseguir bens materiais. Não chega a ser uma prostituição, mas é um jogo perigoso".

A mestranda ainda acrescenta que as letras das funqueiras trazem o valor da mulher interesseira, que dificilmente trata o homem como um companheiro, mas como um sustentador, como se vê no exemplo a seguir, descrito pela pesquisadora:  

"Mulher burra fica pobre/ Mas eu vou te dizer/ Se for inteligente pode até enriquecer/ Por ela o homem chora/ Por ela o homem gasta/ Por ela o homem mata / Por ela o homem enlouquece / Dá carro, apartamento, joias, roupas e mansão / Coloca silicone / E faz lipoaspiração / Implante no cabelo com rostinho de atriz / Aumenta a sua bunda pra você ficar feliz".

O MAL-ENTENDIDO

Mais uma vez, a tese cria um mal-entendido entre os defensores do "funk carioca", que achavam que a tese de Mariana Gomes estava defendendo o suposto "feminismo" atribuído às funqueiras. Até mesmo a própria Valesca se entusiasmou com o projeto, sem saber realmente do que se tratava: "Acordei MUITO FELIZ com a melhor notícia de todas!!! Sem palavras!!!", escreveu a funqueira no Twitter.

É mais um da galeria de mal-entendidos usados para promover o "funk carioca", depois do suposto título de "patrimônio cultural" e da má interpretação ao comentário de um ex-beatle. O que mostra que é a burrice o motor do "funk carioca" que contamina até mesmo muita gente "esclarecida" que sai em defesa do gênero.

HIERARQUIZAÇÃO CULTURAL

As discussões e propagandas que envolvem o "funk carioca" trazem à tona uma contestação à ideia de "hierarquização cultural" que aparentemente a sociedade brasileira vive, diante dos limites construídos ideologicamente entre a "alta cultura" e a "baixa cultura".

A meu ver, essas questões de hierarquização cultural foram artificialmente produzidas durante a ditadura militar, quando os debates dos Centros Populares de Cultura foram interrompidos com a sua extinção, em virtude do fechamento da União Nacional dos Estudantes pelos primeiros atos da ditadura militar, em 1964.

Os CPCs da UNE ganharam uma má fama de "ideológicos" ou "dirigistas", mas o julgamento dominante de hoje, consequente de uma linha de pensamento de intelectuais pré-tucanos da USP (influenciados por Fernando Henrique Cardoso) ignora que os CPCs só tinham três anos de fundação e dois de atividades em 1964, quando seu projeto e seus objetivos ainda eram prematuros.

Até então, a cultura das classes pobres era de excelente qualidade. Vide nomes como Cartola, João do Vale, Marinês e Seu Conunto, Luiz Gonzaga, Pixinguinha. Não havia a tal "baixa cultura", nem os bossa-novistas queriam substituir o samba.

Hoje, com a memória curta decretada pela mídia e pelo mercado que contagia a quase todos os brasileiros, achamos que a cultura popular de qualidade só é feita pela classe média. Mentira. Ela foi feita originalmente pelas classes populares, pela suposta "ralé". A breguice só foi supostamente associada pelas classes populares por um arranjo entre o coronelismo, o poder midiático e a ditadura militar.

Portanto, a "baixa cultura" é um preconceito não de quem combate a bregalização do país, mas daqueles que o apoiam. Quem defende o brega e o "funk" é que quer que o povo tenha "baixa cultura" e que nós é que temos que ignorar esse rótulo. Daí uma polêmica sem necessidade.

Embora de uma forma tímida e talvez não muito combativa, Mariana Gomes começa a recuperar a abordagem crítica que havia se ausentado nas cátedras acadêmicas. Ao questionar o suposto feminismo atribuído as funqueiras, ela já abre um caminho para a contestação de um ritmo que tentou forçar uma falsa unanimidade pela glamourização da miséria, da vulgaridade, do grotesco e da ignorância popular.

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