quarta-feira, 22 de maio de 2013

INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA E SEU CONCEITO DE "VANGUARDA"

GRUPO RAÇA NEGRA - Um dos queridinhos da intelectualidade dominante no Brasil.

A intelectualidade etnocêntrica, que exerce grande influência nos "novos" paradigmas culturais do Brasil, bateu o pé. Ela quer manipular não somente o gosto médio do "povão", como também os referenciais das classes mais "esclarecidas", defendendo a "cultura de massa" por debaixo dos panos.

Foi o que vemos na intelectualidade que deu suas dicas de "atrações recomendáveis" da Virada Cultural de São Paulo, edição deste ano. A ênfase nas "recomendações" inclui nomes consagrados pelo brega, sobretudo o dos anos 90, mas que estavam "de molho" no mainstream musical dos últimos anos.

Os "recomendados" são queridinhos da intelectualidade da moda: o veterano Odair José, o axézeiro Luís Caldas, os pioneiros do sambrega Raça Negra e Leandro Lehart (ex-Art Popular), e a turma paulista que faz o cenário local de "funk carioca", ou o chamado "funk ostentação" de nomes como MC Guimé.

Aparentemente, poderiam ser dicas despretensiosas de especialistas, mas vendo o status de "superioridade" que a intelectualidade cultural dominante têm no Brasil, não muito diferente dos "urubólogos" da imprensa política e dos ministros-estrelas do Judiciário, o que se vê é claramente um processo de "dirigismo cultural", de pura manipulação do gosto não só popular, como até mesmo do gosto mais alternativo.

Pois os tais "especialistas" - a partir do exemplo "clássico" de Paulo César Araújo - exercem uma aura de "sabedoria" e oficialmente são figuras "irretocáveis", que você, caro leitor, é desencorajado a questionar. A partir desse status, que lembra os tempos em que os "urubólogos" eram mais prestigiados, tais intelectuais tentam exercer o poder de formação de opinião do chamado público médio.

DIRIGISMO CULTURAL

Com base no ditado popular "olha só quem fala", esses intelectuais esculhambam os pensadores do CPC da UNE, do ISEB, ou pessoas como José Ramos Tinhorão, acusando todos eles de "dirigismo cultural". Chegam mesmo a "urubologicamente" compará-los ao Partido Comunista norte-coreano e a acusá-los de mero patrulhamento ideológico contra a "liberdade cultural".

A tese que a intelligentzia atual, de orientação pós-tropicalista com matizes bregas, usa para justificar tais acusações é que a "cultura de massa" atual representa um "maior processo de liberdade" aliado ao pretexto da facilidade de acesso às informações atual, que faz qualquer MC Leozinho da vida virar "gênio".

Só que, por trás desse discurso "libertário", intelectuais como PC Araújo e seguidores inserem abordagens dignas do pensamento neoliberal aplicados à chamada "indústria cultural", onde a "diversidade cultural" torna-se um pretexto de sentido análogo ao de "liberdade de imprensa" e de "democracia" dados pelo jornalismo político.

Afinal, a "liberdade de expressão" da mediocridade artística do brega-popularesco ignora que arte e cultura sejam relacionadas à produção de conhecimento. A cultura popular, da forma que é vista pela grande mídia, deixou de ser a expressão do saber para ser a "expressão do não-saber", atribuindo "positivamente" às classes populares as piores qualidades, porque "é que o povo gosta e sabe fazer".

O "dirigismo cultural" travestido de "sabedoria" desses intelectuais determina que a opinião pública aceite a breguice cultural e todos os baixos valores sócio-culturais vinculados. A intelectualidade apela para a choradeira discursiva lamentando a denominação de "baixa cultura", enquanto defende de forma paternalista a breguice cultural e se anuncia como protetora e salvadora pronta a ensinar "alta cultura" aos bregas.

É um jogo paternalista e manipulação da opinião pública, e agora que a intelectualidade dominante conseguiu impor seu conceito de "verdadeira cultura popular" - baseada em visões estereotipadas do "popular" associadas ao pitoresco, ao piegas ou ao grotesco - , ela quer agora impor sua concepção do que deve ser considerado "vanguarda" no Brasil.

A "VAIA" COMO JULGAMENTO DE VALOR ÀS AVESSAS

Sempre invertendo o discurso, a intelectualidade etnocêntrica que influi na opinião pública hoje, tenta creditar genialidade em ídolos marcados por ensurdecedoras vaias do público e por comentários agressivos de uma parte da crítica musical (por sinal superestimados, porque as críticas não são tão frequentes assim).

Assim como na pseudo-MPB falsamente sofisticada de nomes como Chitãozinho & Xororó, Alexandre Pires, Belo e Zezé di Camargo & Luciano, há uma combinação ideológica do "apelo popular" midiático com a estética pomposa de imagem e de som (incluindo vestuários, arranjos musicais, publicidade, técnica, tecnologia etc), há também uma combinação ideológica envolvendo bregas "mais difíceis".

Essa combinação ideológica envolve um quase ostracismo que, combinado com o antigo "apelo popular" do auge do sucesso com as vaias do público e da crítica musical, dão aos bregas "injustiçados" uma falsa aura de "alternativos" ou "vanguardistas". Basta ser vaiado, estar há um bom tempo sem fazer sucesso estrondoso, ter um suposto apelo popular e, pronto, virou "cult", "alternativo" ou "vanguarda".

O "funk carioca" se beneficiou muito dessas lorotas discursivas. Mas também são elas que tiram nomes como Amado Batista, Luís Caldas, Leandro Lehart e Raça Negra do ostracismo, arrumando a desculpa de que eles seriam "alternativos" como uma tentativa fácil de reinseri-los no mercado, tentando atrair um público mais "cabeça" para suas plateias.

Somos tratados feito palhaços pela intelectualidade cultural dominante, que diz "não estar atrelada" à grande mídia mas comunga fielmente com seus interesses. Condenando o que entendem como "julgamentos de valor", como os questionamentos acerca da breguice dominante, esses intelectuais "divinizados" pelo meio acadêmico acabam fazendo um julgamento de valor pior do que o que atribuem aos outros.

Desse modo, as "recomendações" de atrações da Virada Cultural mostram o tom de manipulação e julgamento de valor da intelectualidade cultural dominante, o que indica a forte influência da tirania do mau gosto que o mercado e a grande mídia quer prevalecer sobre a cultura popular brasileira.

Assim, cria-se um hit-parade brasileiro camuflado de vanguardista. Usa-se o rótulo de "alternativo" e "vanguarda" para empurrar a breguice para uma plateia mais selecionada. Tudo em vão. Mas a mentira cola direitinho.

Mas daqui a pouco Luís Caldas, Raça Negra e outros aparecerão abraçados a Marcelo Madureira e Marcelo Tas tocando nas FMs "populares" controladas por "coronéis" e politiqueiros exercendo todo o poderio mercadológico em detrimento dos verdadeiros valores sócio-culturais, perdidos pela espetacularização da breguice que reduz a sociedade em fantoche da grande mídia.

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