terça-feira, 14 de maio de 2013

BREGA PEGA CARONA NA MPB DA TRAMA DISCOS

THIAGUINHO (AO LADO DE GILBERTO GIL), CANTANDO A MPB DA TRAMA - O brega sempre é o último a saber...


A pseudo-MPB que passaram a fazer, depois de 1997, a geração de neo-bregas que se ascenderam em 1990, dá a falsa impressão de que essa geração é "sofisticada", quando ela apenas tenta um vínculo forçado e tendencioso à MPB que sempre desprezaram, por considerarem "coisa de bacana".

É aquela manobra. Ídolos formados pelo indigesto cardápio radiofônico das FMs popularescas e claramente inspirados na breguice musical através da qual diluíram suas músicas em sambas e modas de viola pasteurizados, que nunca se interessaram em fazer MPB de fato - a MPB rolava solta nas rádios nos anos 80 - , recorrem a ela depois que conseguem alguma fama.

Aí acusam de terem sido "mal orientados" por produtores, ou que estavam "ainda aprendendo" com o sucesso, mas a verdade é que a mediocrização que lhes fez populares em todo o país tenta algum oportunismo quando eles passam a ser mais ricos e famosos.

Na busca de um público mais conceituado, pelo menos financeiramente, ídolos dos chamados "pagode romântico" e "sertanejo" mais "veteranos" - ou seja, aqueles que iniciaram o sucesso estrondoso entre 1989 e 1992 - tentam criar um arremedo de MPB que nem de longe é espontâneo e que se inspira justamente nos vícios e erros que a MPB autêntica havia feito diante das pressões comerciais dos anos 80.

No fundo, os neo-bregas dos anos 90 acabaram ocupando o nicho, na visão mercadológica da indústria fonográfica, deixado pelos artistas de MPB, inconformados com as imposições das gravadoras em gravar todo ano os mesmos álbuns com letras piegas sobre desencontros amorosos e exaltações à natureza.

Evidentemente, artistas como Zizi Possi, Djavan e Belchior não iriam fazer a toda vida esse papel caricato imposto pelas gravadoras, vendo o caso da cantora baiana Simone, entregue aos ditames do mercado (gravou até José Augusto e Sullivan & Massadas), se "queimar" como um símbolo do que não se deve ser feito na Música Popular Brasileira e que abriu caminho para a ascensão do Rock Brasil.

Daí a suposta maleabilidade de nomes como Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Leonardo, Daniel, Alexandre Pires e Ivete Sangalo. Eles podem fazer a tal "MPB de mentirinha", seu apelo popular fácil os faz "admiráveis" mesmo quando seguem as mesmas regras pasteurizadas que tornaram a MPB impopular não só entre os jovens como entre a intelectualidade.

Evidentemente, com o tempo, o parasitismo que neo-bregas surgidos na época e outros surgidos depois (como Thiaguinho, Cláudia Leitte e Michel Teló) fazem da MPB ficou cada vez mais ambicioso. Se antes eram os sucessos fáceis dos medalhões da MPB que eram regravados por neo-bregas, hoje a coisa já chega a nomes mais "difíceis" como Wilson Simonal e, mais recentemente, a turma da gravadora Trama.

É o caso do cantor Thiaguinho, novo ídolo do sambrega e principal aposta da Rede Globo na reciclagem do brega no gosto popular. Depois de participar tendenciosamente em eventos como o Samba Social Clube e o disco-tributo de Wilson Simonal, ele agora promove o cover de "Simples Desejo", do refrão "Hoje eu só quero é que o dia termine bem", sucesso de Luciana Mello também gravado por Ney Matogrosso.

Para reforçar o oportunismo, Thiaguinho contou com a participação de Gilberto Gil, um grande nome da MPB que, no entanto, assim como Caetano Veloso é condescendente com a breguice que domina o mercado brasileiro. Outro arranjador também foi escalado para dar um "requinte" à versão, incluída na trilha sonora da novela Sangue Bom, também da Rede Globo.

ASCENSÃO OU EXPLORAÇÃO?

Assim como Jorge Ben Jor, antes, e Wilson Simonal ainda há pouco, a geração da Trama atingiu o mainstream brasileiro e o gosto médio dos brasileiros - aqueles que tomam o brega como prioridade mas "também curtem" MPB - , com o preço de serem explorados e usurpados pela breguice dominante.

Daí o cantor Alexandre Pires, espécie de discípulo "sambista" do cantor José Augusto, ter tentado inventar um "eletrosamba" sem pé nem cabeça, num DVD que inclui baladas chorosas dignas de um Luiz Miguel. Assim como Thiaguinho, o cantor mineiro havia também participado tendenciosamente dos dois eventos, Samba Social Clube e o disco-tributo de Wilson Simonal, sem deixar algo marcante.

Nomes como Seu Jorge, Luciana Mello e Wilson Simoninha, símbolos da "MPB da Trama Discos", hoje entram escondidinho em trilhas sonoras da Globo, única condição para a MPB autêntica possuir alguma visibilidade e atingir o grande público.

Esse movimento da MPB não necessariamente é composto por contratados pela Trama Discos, gravadora de médio porte, já que nomes como Seu Jorge e Maria Rita Mariano seguem essa tendência, caraterizada pelo resgate modernizado de elementos sofisticados da MPB pós-tropicalista de 1967-1970 até pouco tempo atrás bastante esquecidos do público.

A tendência se ascendeu no final dos anos 90, quando a Trama Discos representou uma alternativa à MPB diante do êxodo causado pela hegemonia comercial dos neo-bregas. A redescoberta de nomes como Wilson Simonal, Erlon Chaves, Sérgio Sampaio, mais a Gal Costa fase 1967-1971 e nomes como Marcos Valle, norteou esse movimento que conquistou agora o mainstream da MPB autêntica.

Mas existe o preço do parasitismo dos ídolos brega-popularescos, impulsionado pela banalização das informações obtidas na Internet e pela pressão da intelectualidade etnocêntrica que quer juntar MPB e brega como se une alhos e bugalhos, trigo e joio. E esse é o preço que a MPB autêntica tem para chegar ao grande público, enfrentando regravações bregas que tentam ofuscar as gravações originais.

Novamente a "MPB de mentirinha" dos brega-popularescos tenta passar a perna na MPB autêntica, deixando esta na sua posição secundária do gosto popular. A usurpação de covers, desde a versão de Chitãozinho & Xororó para "No Rancho Fundo", de Lamartine Babo e Ary Barroso, tornou-se a mina de ouro de ídolos bregas querendo tirar uma "casquinha" do cancioneiro da MPB autêntica.

Quem sai perdendo é o grande público, que não vai se lembrar que certas músicas de seus ídolos bregas são covers, seja o próprio "No Rancho Fundo", que muitos desconhecem a autoria original, ou músicas mais recentes como "Só Você", cuja regravação de Fábio Jr. faz muitos esquecerem de que se trata de uma composição de Vinícius Cantuária.

Desta vez, será a "oportunidade" do grande público engolir a música "Simples Desejo" na voz de Thiaguinho, sem se dar conta de que a música foi primeiro gravada pela filha do veterano Jair Rodrigues, Luciana Mello, cantora prestigiada que busca um lugar ao Sol no mercado musical.

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