quinta-feira, 9 de maio de 2013

A FICHA NÃO CAIU. SISTEMA DE ÔNIBUS DO RJ ESTÁ ANTIQUADO

CARLOS ROBERTO OSÓRIO - O Secretário de Transportes de Eduardo Paes fala como se fosse um sargento do Exército.


Abril havia terminado com pelo menos 12 mortos em acidentes com ônibus municipais do Rio de Janeiro, incluindo o sensacionalista BRT. Dois dos mortos foram pessoas relativamente famosas, como a produtora da TV Globo, Gisella Matta, de 36 anos, e o ciclista Pedro Nikolay, de 30 anos, ambos atropelados por ônibus na Zona Sul carioca enquanto passeavam de bicicleta.

A maior parte dos mortos ocorreu, no entanto, na Zona Norte, no viaduto Brigadeiro Trompowsky, que liga os bairros de Bonsucesso e Ramos à Ilha do Governador e ao Aeroporto Internacional Tom Jobim, quando um ônibus da Transportes Paranapuan, linha 328 Castelo / Bananal, caiu desta ponte causando a morte imediata de sete pessoas e de outra depois de dias internada num hospital.

Desde 2011, centenas de acidentes ocorreram com frequência assustadora no sistema de ônibus carioca, antes considerado referência para o país. Quiseram mexer em time que está ganhando, com base na habitual teimosia do grupo político de Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho, que não costumam ouvir o povo nem ler com atenção as leis, e a coisa chegou ao ponto de tragédia.

Que o sistema de ônibus do Rio de Janeiro, antes desse plano autoritário e tecnocrático de "mobilidade urbana", anunciado no final de 2009 e implantado em 2010, tinha seus defeitos, era verdade. Mas havia muitas qualidades que foram deixadas de lado, e que paliativos como ônibus de pisos baixos e articulados BRT não conseguem compensar.

PINTURA PADRONIZADA ESCONDE IRREGULARIDADES

Afinal, os defeitos que existiam antes de 2010 não só permaneceram como pioraram, somados a outros que foram implantados, como a impopular, ineficiente e nada funcional pintura padronizada das frotas de ônibus, que só estão causando problemas e nenhuma vantagem se notou com a medida.

As autoridades dizem que a pintura padronizada "organiza mais", dentro do que eles entendem como "reordenamento do transporte coletivo municipal". No entanto, isso é uma desculpa pseudo-técnica que, mesmo usando como pretextos critérios de trajetos ou consórcios, na verdade não passa de mera propaganda política que acoberta fatalmente esquemas de corrupção.

É o que se nota quando ônibus que estão devidamente com as cores padronizadas - diferentes empresas agora ostentam uma mesma pintura - estão com documentação irregular, geralmente com registros de muitas multas por infrações, o que poderia significar alguma apreensão, mas estranhamente continuam circulando pelas ruas cariocas.

Um simples passeio pelas ruas do Rio de Janeiro é suficiente para ver a péssima qualidade dos ônibus, com lataria amassada e rodando com o barulho sacolejante que parece o de velhos caminhões de entulho. Empresas antes conceituadas como Real Auto Ônibus e Rodoviária A. Matias estão com ônibus sucateados. Até os de piso baixo da Translitorânea estão um lixo. Cerca de 300 ônibus enguiçam por mês.

Por que a pintura padronizada tem a ver com isso? É uma simples questão de linguagem comunicativa. Com a padronização visual, a empresa perde sua identidade, a identidade apresentada é a da Prefeitura, como se esta fosse dona das frotas dos ônibus, a exemplo do latifundiário que marca seu gado a ferro. Só isso faz com que a coisa piore, pelos motivos a seguir.

Primeiro, porque as empresas não se sentem responsáveis em zelar pelas frotas de ônibus, já que elas apresentam a imagem da Prefeitura do Rio de Janeiro. Isso fica claro, quando o nome "Cidade do Rio de Janeiro" aparece com mais destaque do que o nome de cada empresa. Sem falar que, com várias empresas com o mesmo visual, não há quem possa oferecer um verdadeiro diferencial para os passageiros.

Além disso, a pintura padronizada escolhida é um horror, com estética de embalagem de remédio. A cor cinza - nada a ver com o prateado natural dos ônibus mais antigos - dá um tom de velho que emporcalha os ônibus com dois anos de uso. E, além do mais, o que se vê é o acobertamento da corrupção e o avançado sucateamento dos ônibus municipais do Rio de Janeiro.

O povo nem sabe direito do processo. É obrigado a se contentar em identificar o ônibus pela linha, enquanto se prepara para eventuais acidentes. Reina o medo entre os passageiros de ônibus cariocas. Já houve caso de empresa de ônibus mudar o nome e o passageiro não saber.

FICHA NÃO CAIU PARA AS AUTORIDADES

Isoladas no autismo de seus escritórios, as autoridades não conseguem ver o problema com isenção. Se limitam a cobrar maior competência e ação das empresas de ônibus, sem saber que o problema está no tipo de sistema de ônibus implantado, que é antiquado e remete à ditadura militar. A propósito, o atual secretário municipal de Transportes, Carlos Roberto Osório, fala como se fosse um sargento do Exército.

Há muitos problemas que são inerentes ao próprio sistema, que não serão resolvidos com mais cobrança ou presenteando o povo com tendenciosos ônibus articulados, de piso baixo ou com ar condicionado, ou com promoções de bilhete único ou coisa parecida.

Afinal, dois problemas graves deveriam ser extintos. A pintura padronizada é um grave problema porque foi comprovado que não existe qualquer funcionalidade em empresas diferentes ostentarem uma mesma pintura. Isso não traz qualquer tipo de transparência, até porque a pintura padronizada mascara as empresas, ela esconde do público as empresas aparentemente licitadas.

A pintura padronizada deveria ser abolida, voltando a diversidade da identidade visual de cada empresa de ônibus. Isso não iria anular os consórcios - embora eles expressem um caráter politiqueiro - , que poderiam ser identificados através de letreiros digitais ou por nomes descritos de forma discreta num canto de cada veículo.

Quanto a outro problema, é a confusão de atribuições à Secretaria de Transportes, no caso municipal. Confunde-se poder regulador e fiscalizador com autoritarismo, com concentração de poder. Uma coisa é trabalhar por melhor eficiência, outra é mandar e usurpar o patrimônio das empresas - suas frotas de ônibus - e exercer o monopólio de imagem sobre tais ônibus.

Portanto, a decadência do sistema de ônibus do Rio de Janeiro está no modelo que foi implantado em 2010. Melhorá-lo é impossível, apesar das autoridades prometerem "aperfeiçoá-lo". Daqui a pouco, vão presentear os cariocas com os BRTs do corredor Transcarioca, mas o que se espera provavelmente serão novos mortos, ao lado de ônibus com pintura padronizada que escondem documentação irregular.

E os passageiros de ônibus seguem suas rotinas entrando num ônibus sem saber se voltarão vivas de lá.

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