quinta-feira, 25 de abril de 2013

EXCESSO DE PROPAGANDA PÕE EM XEQUE CARÁTER DE "CULTURA DE POBRE" DO "FUNK CARIOCA"


Formatura de universitários, boataria envolvendo Paul McCartney, comentário de Guilherme Arantes, sugestão de novos músicos a Tom Zé... Todos favoráveis ao "funk carioca", que, sabemos, não é essa "maravilha toda", só para fazer um comentário mais educado.

O ritmo que tornou o carro-chefe da imbecilização cultural criticada por jornalistas sérios como Mino Carta está sendo objeto de muita publicidade, além de ter todo um esquema engenhoso de propaganda intelectual, midiática e investimentos financeiros pesados para documentários e até para levar para turnês europeias qualquer funqueiro, mesmo aqueles que são emergentes.

É tanta promoção que muitas pessoas acabam questionando se o "funk carioca" representa mesmo a cultura do povo pobre, de tão intenso é o lobby em torno de um ritmo marcado de sérias limitações artísticas e pela baixa qualidade musical.

OS TAIS FACTOIDES

Num rápido apanhado, dá para citar o que ocorreu com os quatro episódios acima relacionados com o "funk carioca".

Primeiro, houve a formatura de estudantes do Curso de Estudos de Mídia da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, no começo deste mês. O curso é ligado à Faculdade de Comunicação Social da UFF e os alunos, em vez de adotar como patrono uma figura do meio intelectual ou científico, resolveram escolher a funqueira Valesca Popozuda, por ela representar a "cultura de massa".

A bravataria, no entanto, não foi questionada pelos professores, que até apoiaram a atitude. E a própria funqueira se sentiu lisonjeada com isso, só não indo à formatura por problemas de agenda.

Segundo, houve uma conversa, durante um ensaio de estúdio, entre o ex-beatle Paul McCartney e o produtor Mark Ronson. Eles estavam pesquisando diversos sons, e Paul havia ouvido o Bonde do Rolê, uma banda que, para o músico inglês, é um conjunto de rock que no entanto mistura elementos de "funk carioca" em seu som.

Paul ouviu a música "Treinamento do Bumbum", versão de um sucesso do Bonde das Maravilhas - genérico da Gaiola das Popozudas, que lançou Valesca - e havia perguntado tão somente ao produtor, a respeito da energia sonora do grupo: "Como é que eu faço para conseguir essa energia"?

Isso gerou uma boataria muito grande, achando que Paul McCartney queria trazer para si o clima dos "bailes funk". Isso é um absurdo, por dois motivos. Primeiro, porque Paul via no Bonde do Rolê um grupo de rock. Segundo, porque Paul queria ser simpático para os brasileiros. Mas daí para dizer que o ex-beatle virou funqueiro, é tão ruim quanto assassinar John Lennon.

Terceiro, foi o cantor Guilherme Arantes, um dos "bodes expiatórios" da suposta decadência da MPB autêntica, que estava lançando novo CD, comentar a crise que sofre a música brasileira. No entanto, Guilherme pisa na bola dizendo que "adora funk" e que se identifica com a "pegada incrível, pegada sexual" do gênero.

Quarto, foi a notícia do lançamento do recente disco de Tom Zé, o arrojado tropicalista que resolveu suavizar o tom de crítica cultural devido à participação de músicos mais novos e menos contestadores em relação à "cultura de massa", entre eles o arroz-de-festa Emicida. Sem aqui dizer se há ou não a geraldthomização ou ferreiragullarização de Tom Zé, a ideia do "funk" teria sido do músico Marcelo Segreto.

A QUESTÃO

Com tantas dessas alusões, o "funk carioca" atingiu seu triunfo depois de seus envolvidos posarem de "coitadinhos" a toda hora na mídia? Não. O que há é que o "funk carioca" possui uma engenhosa estratégia de marketing e um poderoso lobby entre intelectuais e barões da mídia, o que põe em xeque o caráter de "cultura de pobre" acerca do gênero.

Afinal, se um funqueiro qualquer pode fazer turnê na Europa - se bem que ele nunca se apresenta em lugares mais conceituados, mas em casas noturnas e programas de rádio e TV de segundo escalão - , é porque rola muito dinheiro por fora e por trás. Até para obter apoio intelectual se investe muita grana para promover o "funk carioca".

O historiador Sérgio Cabral (nenhuma relação com as traquinagens do seu filho e governador fluminense, porque o pai é intelectual sério) e a sambista Beth Carvalho haviam dito que o "funk carioca" fazia parte de uma estratégia da CIA para enfraquecer a cultura brasileira.

A denúncia, séria e que necessita de investigação maior (alô Wikileaks!), foi gracejada em uníssono pela intelectualidade festiva brasileira e seus séquitos. Esnobes, eles trataram a denúncia como se ela ocorresse num processo simbólico de um diretor da Central Intelligence Agency fazer um despacho determinando que a MPB acabou e que a cultura brasileira será predominantemente o "funk carioca".

O que ocorre, na verdade, é que a CIA conta com um departamento de relações culturais que conta com uma rede complexa de atores no processo de manipulação sócio-cultural do Brasil. Isso continua existindo, mesmo depois do fim da ditadura militar, tamanha a preocupação dos EUA em manter seu raio de influência sobre a América Latina.

São empresas norte-americanas - além de outras dos demais países ricos - que, instaladas no Brasil, patrocinam eventos de entretenimento. Há também instituições que financiam projetos sociais para estabelecer controle ideológico estratégico sobre os mesmos, como a Fundação Ford e a Soros Open Society, esta última do magnata George Soros, um dos "astros" do Fórum Econômico Mundial.

No Brasil, há o respaldo de veículos de Comunicação ligados a oligarquias empresariais ou a grupos políticos e latifundiários, que se relacionam com empresários ligados a eventos de entretenimento, de casas noturnas aos próprios cantores e músicos "populares" que aparecem facilmente nas rádios.

O "funk carioca" não foge a esse contexto e historicamente seu sucesso está diretamente relacionado às Orgajnizações Globo, através de seus veículos sediados no Rio de Janeiro, desde a rádio 98 FM até o canal pago Multishow, passando, evidentemente, pela Rede Globo com o apoio explícito de figuras hoje neo-conservadoras como Willam Waack, Luciano Huck, Nelson Motta e Marcelo Madureira.

Só o apoio das Organizações Globo - há também o apoio mais recente do Grupo Folha, de Otávio Frias Filho - faz o "funk carioca" fortalecer seu lobby dentro de um projeto ideológico que tenta promovê-lo como "movimento sócio-cultural" para evitar que os verdadeiros movimentos sócio-culturais, como os pela reforma agrária, cresçam e floresçam no Brasil.

A própria Fundação Ford está por trás dos investimentos ao maior ideólogo brasileiro do "funk carioca", Hermano Vianna, antropólogo ligado ao grupo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Mas mesmo a APAFUNK, presidida por MC Leonardo, estaria também recebendo verbas da FF intermediadas por entidades sociais brasileiras por esta sustentadas, como a CUFA (Central Única das Favelas).

Portanto, o capitalismo estrangeiro está, de uma forma ou de outra, envolvido com o "funk". Queiram ou não, as denúncias do envolvimento da CIA são sérias. Havendo Wikileaks ou não a respeito do assunto, o que é preciso é fazer um verdadeiro "funkleaks" para investigar tudo isso.

Há muita coisa estranha por trás desse ritmo capaz de fazer valores da degradação social prevalecerem e perpetuar o machismo sob a fachada do falso feminismo das funqueiras. E que musicalmente é muito, muito ruim. Sem falar das fortunas que rolam soltas em ritmo de "pancadão". Aceitar tudo isso é que não dá.

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