segunda-feira, 1 de abril de 2013

A AMEAÇA DO FIM DO BLOGUE VIOMUNDO


Pressionado pelo processo judicial movido pelo jornalista Ali Kamel, que não gostou de ser chamado de "todo-poderoso do jornalismo da Globo", o jornalista Luiz Carlos Azenha, que tenta recorrer da condenação de indenizar Kamel por uma quantia de R$ 30 mil por "campanha difamatória", anunciou que está pensando em encerrar o blogue que ele mantém, o Viomundo.

O Viomundo, juntamente com o Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, e Escrevinhador, de Rodrigo Vianna, compõe a trincheira de luta contra a mídia monopolista. E seus esforços de combater o poderio midiático de Globo, Folha, Abril e similares acabam eventualmente provocando a reação desses monopólios através de processos "por danos morais" contra esses blogueiros.

Figuras como Diogo Mainardi e Ali Kamel, além da Folha de São Paulo, tornaram-se famosos não somente por processá-los, mas também de processar outros blogues parceiros, como Doladodelá, de Marco Aurélio Mello, e o humorístico Cloaca News, de um gaúcho barbudo conhecido como Sr. Cloaca.

A blogosfera progressista, como se tornou conhecida, passou a ser um fenômeno de mídia na medida em que trazia uma gama de informações e uma abordagem diferentes do que os grandes veículos de mídia transmitem. A força da Internet, neste caso, permitiu uma transformação nos meios de comunicação de tal forma que a grande mídia passou a ser abalada com isso.

Jornalões passaram a sofrer prejuízo nas vendas nas bancas e nas assinaturas. Revistas associadas idem. Rádios FM passaram a sofrer quedas vertiginosas de audiência e emissoras de TV aberta simplesmente perdem milhares de telespectadores a cada ano.

A blogosfera atuou de forma tão diferenciada que nem mesmo a instantaneidade radiofônica, antes o diferencial absoluto dos meios de comunicação, foi imune a esse abalo. Afinal, o que é a instantaneidade se uma notícia dada em primeira mão só possui exclusividade por poucos segundos e, aperfeiçoada por terceiros, faz seus primeiros divulgadores caducarem num pioneirismo esquecido?

E, além do mais, noticiários televisivos, telejornais e emissoras de rádio all news mais parecem hoje versões ampliadas do "gilette-press", que eram aqueles boletins mofados de rádio, diante da abrangência da blogosfera progressista. E, não bastasse isso, o "opinionismo" da velha grande imprensa só rumava para abordagens reacionárias, contrárias ao interesse público, apegadas a interesses dos donos do poder.

Jornalistas que trabalharam na Globo como Amorim, Azenha, Vianna e Mello sabem muito bem que a grande imprensa está caducando. Eles tentam criar um contraponto com suas atuações na Rede Record, mas são desprovidos de ilusões. Sabe-se que a Rede Record é muito longe de ser uma rede progressista como foi a TV Excelsior, mas pelo menos eles têm uma liberdade de atuação que a Globo não lhes daria.

TRUCULÊNCIA "GLOBAL"

A aparente decisão de Azenha de encerrar seu blogue acaba se tornando uma denúncia da censura que a blogosfera progressista sofre da Internet. Acaba expondo a prepotência do poder midiático em preservar seus interesses e privilégios, além de manter uma hegemonia que se perde a cada dia, já que até mesmo pessoas não muito progressistas já começam a duvidar da credibilidade da Globo.

O Jornal Nacional, há muito tempo, deixou de ser o telejornal mais visto e mais influente do país. Outros programas da Globo, como Fantástico, Esporte Espetacular e mesmo o badalado Big Brother Brasil e os lúdicos Domingão do Faustão e Caldeirão do Huck, perdem boas fatias de audiência.

Azenha ouviu horrores do jornalismo da emissora, sobretudo manobras noticiosas que envolveram a cobertura jornalística das eleições de 2006, que evitavam divulgar sobretudo denúncias contra políticos de PSDB envolvidos em corrupção ou mesmo contra figuras estratégicas como o bicheiro Carlinhos Cachoeira.

O que Azenha define como "assassinato de caráter" tornou-se a regra da grande mídia, cada vez mais comprometida nos interesses empresariais em declínio, como um efeito de reação contra as transformações vividas na sociedade brasileira nos últimos dez anos.

Daí a preocupação da grande mídia em criar novos meios de apoio ao seu poderio, chegando até mesmo a ressuscitar a "rádio rock" 89 FM, de um empresário historicamente ligado a Paulo Maluf, como uma forma da Folha de São Paulo, que se tornou sócia da rádio, buscar suas últimas bases de apoio na juventude brasileira.

A grande mídia reage de todas as formas para que seus impérios, construídos sobretudo com o apoio que elas derem à ditadura militar, não sejam abalados. Sabem seus donos que a blogosfera têm um poder de pressão social antes nunca imaginado, e se a presidenta Dilma Rousseff anda condescendente com os barões da mídia, os blogueiros progressistas pressionam a cada dia pela regulação democrática da mídia.

As grandes empresas de comunicação já não conseguem mais se camuflarem para se confundir com o interesse público. O chamado "quarto poder" agora é posto em xeque, e o episódio com Luiz Carlos Azenha, um dos cinco processados por um único Ali Kamel - PHA, Marco Aurélio, Luís Nassif e Sr. Cloaca são outras vítimas - só revela essa truculência "global" que tempera o cardápio grão-midiático.

Só que, mesmo com as vitórias judiciais, a grande mídia não evitará o desgaste. A arrogância com que a grande mídia comemorará tais vitórias irá expor seu autismo cínico e sua prepotência, e só distanciará ainda mais esses jornalistas a serviço dela dos interesses da sociedade, pois a cada dia é mais difícil eles esconderem o conflito entre os interesses empresariais da mídia e o interesse público de nossa sociedade.

Fica aqui nossa solidariedade com o Viomundo e com o profissionalismo de Luiz Carlos Azenha e outras vítimas da truculência midiática.

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