domingo, 10 de março de 2013

PREFEITURA DE NITERÓI FAZ "GALHOFA" COM PASSAGEIROS DE ÔNIBUS



Só pode ser alguma gozação. A impopular padronização visual nos ônibus de Niterói, na tentativa de "evitar" os transtornos da medida similar adotada no Rio de Janeiro, fez com que a prefeitura municipal niteroiense adotasse como um inócuo paliativo a exibição, facultativa, do nome da empresa.

Essa exibição é feita através de letreiros digitais ou janelas, o que é insuficiente para mostrar a identidade visual de cada empresa. Só que as autoridades de Niterói apresentam essa medida como se fosse uma "solução" para prevenir a desatenção dos passageiros, segundo a imaginação de seus tecnocratas.

Isso se torna inócuo porque a padronização visual coloca os ônibus com as mesmas pinturas. Em Niterói, há a cor vermelha para o "consórcio" Transnit, destinado às linhas da Zona Norte, e Transoceânico, às linhas da Zona Sul.

A padronização visual é uma herança da ditadura militar e caraterística de um projeto autoritário de mobilidade urbana originalmente lançado pelo político e arquiteto Jaime Lerner. Sua formção vem de uma UFPR comandada pelo reitor Flávio Suplicy de Lacerda, o mesmo que, como ministro da Educação do general Castelo Branco, provocou a ira juvenil que gerou os históricos protestos estudantis de 1966-1968.

Lerner, filiado à ARENA, estabeleceu que colocando diferentes empresas de ônibus sob uma mesma pintura, a pretexto de critério de trajetos ou tipos de ônibus utilizados, iria "disciplinar" o transporte coletivo. É uma visão claramente influenciada pela lógica da ditadura militar, e encontra paralelo ao pensamento que Roberto Campos, também ministro de Castelo, trouxe para a Economia.

Hoje o modelo de mobilidade urbana de Jaime Lerner encontra-se datado em muitos aspectos, além de mostrar que a padronização visual dos ônibus não traz qualquer tipo de transparência, do contrário que se alardeia por aí.

Afinal, analisando as coisas com muita cautela, veremos que a transparência é impossível quando diferentes empresas de ônibus são camufladas com uma mesma pintura. Paliativos não resolvem, sobretudo em cidades de imenso corre-corre, onde nem todo mundo é busólogo e por isso não compartilha dos mesmos conhecimentos técnicos dessas pessoas especializadas em admirar e pesquisar ônibus.

Isso porque a lógica acaba sendo a de um véu acobertando pessoas. A padronização visual mascara, esconde dos passageiros a possibilidade de identificação imediata da empresa de ônibus. No caso de Niterói, um ônibus de piso baixo, por exemplo, mostra um mesmo modelo para as empresas Viação Araçatuba e Auto Lotação Ingá e outro para as empresas Expresso Miramar e Viação Pendotiba.

Percorrendo, em parte, itinerários comuns, as empresas continuam confundindo os passageiros. A exibição paliativa dos nomes das empresas não resolvem quando uma pessoa observa os ônibus fora da única posição pensada pelos tecnocratas, que é tão somente de observar o ônibus pela sua dianteira chegando ao ponto.

No lado esquerdo, os nomes das empresas continuam escritos em tamanho pequeno junto ao nome do "consórcio" e se observou, numa pesquisa feita na Praia de Icaraí, que é difícil reconhecer qual empresa é de um ônibus visto à distância, percorrendo a Praia João Caetano (antiga Praia das Flechas) mas visto de um ponto da Praia de Icaraí, como, por exemplo, próximo à Rua Lopes Trovão.

Alem desse problema sério, que não existia quando cada empresa tinha sua própria pintura, há o fato de que a padronização visual nada tem a ver com a Lei das Licitações, de número 8.666. de 1993. A padronização apareceu como uma interpretação equivocada de alguns artigos, mais pela falta de alguma proibição explícita do que de qualquer tipo de autorização para o "fardamento" dos ônibus.

MOSCA NA SOPA

Colocar a padronização visual como item obrigatório da licitação de um sistema de ônibus é algo comparável ao de tornar obrigatória a presença de um cadáver de mosca em toda sopa servida em um restaurante. Imagine se a gerência de um restaurante alegar que a mosca, por ser uma criatura da natureza, precisa ter seu cadáver boiando sempre num prato de sopa. Você iria gostar?

No Rio de Janeiro, a padronização visual dos ônibus tira até mesmo a responsabilidade de cada empresa pelo serviço. Convenhamos, a padronização visual dá o direito de apresentação de imagem não às empresas de ônibus, e sim à Prefeitura, a pretexto dos tais "consórcios".

Com a pintura padronizada, a prefeitura, que deveria ser apenas dona das linhas de ônibus, se autoproclama "dona" das frotas de ônibus. Isso fere o princípio de concessão de serviço, porque as empresas prestadoras de serviço precisam apresentar sua imagem personalizada para estabelecer uma relação com o público consumidor, os passageiros de ônibus.

Se a Prefeitura estabelece seu monopólio de imagem, o que se vê é uma encampação não formalizada, algo como o que foi feito no Estado do Rio de Janeiro em 1985, só que de uma forma mais cafajeste. E isso está causando a queda vertiginosa de qualidade do sistema de ônibus carioca, onde até mesmo empresas que desempenhavam boa qualidade de serviço agora rodam com ônibus sucateados.

A padronização visual favorece até mesmo a corrupção no sistema de ônibus, porque os passageiros não conseguem mais reconhecer a empresa operadora com facilidade, e no Rio de Janeiro já houve casos de linhas mudando de empresa e empresa mudando de nome sem que o passageiro tenha o menor conhecimento da coisa.

Convém questionarmos essa padronização visual, porque é uma medida antiquada e que não traz qualquer tipo de vantagem para o sistema de ônibus. O único efeito dessa medida é uma propaganda da prefeitura, um tanto oportunista e um tanto cínica. Afinal, trata-se de prefeituras que pouco se importam com a Saúde e Educação públicas, mas que se acham "donas" de uma mobilidade urbana demodê e autoritária.

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