segunda-feira, 4 de março de 2013

LOCUÇÃO EM RÁDIOS DE ROCK: UM PROBLEMA DE MERCADO


Um dos maiores problemas das rádios comerciais ditas "de rock" é quanto à locução. Geralmente as emissoras quase não adotam uma linguagem própria, apenas se reservando a ela no caso de programas específicos, aqueles em que algum músico ou jornalista torna-se o apresentador.

Na grade diária ou mesmo em alguns programas específicos, porém, impera um tipo de locutor impróprio para as rádios de rock. Geralmente com um comportamento domesticado e um tanto abobalhado, com uma voz próxima a de um animador de festas infantis, esse locutor geralmente tem uma pinta de galã, às vezes meio gordinho, e que a tal "rádio rock" promove como o principal astro da emissora.

Esse problema queimou muitas rádios ditas "roqueiras" surgidas nos anos 90, eliminadas pelo baixo Ibope. Mas como no rádio FM brasileiro não se mexe em time que está perdendo, a fórmula prevaleceu, sob algumas adaptações, e virou uma norma obrigatória para a emissora de rádio que queira usar o rótulo de "roqueira".

Com a UOL 89 FM, isso não é diferente. Para piorar, o locutor que faz o tipo "gostosão abobalhado" é o próprio coordenador da emissora, José Carlos Godas, o Tatola. E, para piorar mais ainda, ele havia sido vocalista de uma banda que muitos acreditam ser de "punk rock sério", o Não Religião, mas que no fundo nunca passou de uma imitação fajuta da Plebe Rude.

A própria volta da 89 FM, na chamada "programação do fim do mundo" - em 21 de dezembro passado - , o Tatola comandava a programação, mas pelo tipo de locução ele podia muito bem se passar por algum locutor que se despedia da 89 pop que havia sido a emissora entre 2006 e 2012.

Seu estilo de locução é exatamente igual ao de qualquer locutor das rádios de pop dançante mais banais. Há milhares deles falando igualzinho ao Tatola mas anunciando nomes como Rihanna, Pitbull, One Direction e Britney Spears, com o mesmo discurso, com as mesmas gírias, e coisa e tal.

A questão tornou-se tão problemática que, num sítio de humor como o Expobesta, o texto mais popular em várias semanas era justamente relacionado ao estilo de locução de Tatola, que é apresentador do programa Temos Vagas, na UOL 89, na prática o novo nome de um antigo que ele havia apresentado na mesma emissora, A Vez do Brasil.

LOCUÇÃO POP GEROU DEMANDA EXCESSIVA

A questão ficou ainda mais séria quando Tatola, achando que as críticas se referiam a um estilo comportado, passou a falar de modo mais debochado nas edições mais recentes do Temos Vagas, mais parecendo, na melhor das hipóteses, com o locutor pop da Rede Transamérica, Rui Bala, e, na pior delas, com qualquer apresentador do SBT que faça o papel do palhaço Bozo, principalmente Luiz Ricardo.

Tatola achou que isso o faria parecer um locutor "mais roqueiro", mas isso só complicou ainda mais as coisas, principalmente numa época em que, pouco depois da euforia e do oba-oba em torno da "volta da rádio rock", vieram as críticas, muitas delas enérgicas, à emissora, com uma força maior do que aquelas que derrubaram a emissora em 2006.

Afinal, quem acompanhou as primeiras rádios de rock do Brasil nos anos 80 sabe que locutor de rádio de rock não tem essa voz de mauricinho abobalhado e dotado de gracinhas ou comentários pedantes. Tive a péssima experiência de ser ouvinte da rádio baiana 96 FM, depois que me mudei de Niterói - onde conheci a fase áurea da Fluminense FM - para Salvador.

O estilo de locução adotado na 96 FM era rigorosamente o mesmo adotado na rádio Piatã FM, dedicada à axé-music. E seu astro principal, Thiago Mastroianni, era o pior deles, porque seu estilo era escancaradamente pop. Ironicamente, Salvador já tinha uma locutora mais apropriada para rádios de rock, Adriana Quadros, mas ela trabalhava numa outra rádio de axé-music, Itapoan FM.

Era constrangedor ouvir Thiago "co-pilotando" alguns programas "alternativos" da 96 FM, inclusive um programa de surf transmitido de noite (!), fazendo comentários pedantes até sobre Joy Division. Mas, depois do fracasso da "roqueira" 96 FM (adquirida depois pela Igreja Universal do Reino de Deus), Thiago tornou-se repórter e narrador esportivo da TV Bahia, cargo que desempenha até hoje, lançando até o bordão "Está... Na Rede!" durante um gol de cada time. Mais adequado.

O que fez as ditas "rádios rock" apostarem na locução pop tem uma motivação puramente mercadológica. As rádios pop, surgidas a partir do sucesso de pioneiras como Rádio Cidade (RJ) e Jovem Pan 2 (SP), geraram uma demanda excessiva de locutores, que a expansão para formatos popularescos - sobretudo a partir da carioca 98 FM, atual Beat 98, das Organizações Globo - não conseguiu suprir.

Isso fez com que parte dos locutores formados se aproveitasse da formação profissional e do suposto ecletismo para criar um lobby que os colocasse em rádios mercadologicamente posicionadas ao rock, se aproveitando do modismo de muitas delas que não tiveram qualquer adaptação para uma linguagem e uma mentalidade mais especializadas.

Além disso, havia outras questões complicadas que só favoreceram os locutores "mauricinhos". As rádios "de rock" adotavam a locução pop para atrair um público não-roqueiro e, além disso, havia interesses comerciais e políticos por trás, além do fato de muitos locutores autenticamente de rock não contarem com diplomas de radialismo, apesar da grande competência comunicativa e da especialização aprofundada.

O QUE É UM LOCUTOR DE ROCK?

Tudo isso criou dilemas e vícios que fizeram com que o radialismo rock se tornasse uma caricatura pasteurizada. Para a lógica do mercado, o ideal era que as rádios comerciais fizessem uma guinada lenta e gradual, adaptando-se para o perfil de rádio de rock autêntica aos poucos, conforme a subida de pontos no Ibope. Uma fórmula conveniente para o mercado, mas inconveniente para o público de rock.

Afinal, uma rádio comercial dessas só se aproximará do perfil de uma rádio de rock autêntica depois de muito, muito tempo. Precisa-se esperar modismos, tendências e isso impacienta sobretudo os ouvintes mais jovens, porque isso poderá levar dez, vinte anos, mas mesmo cinco anos já é algo constrangedor. E as mudanças nunca são espontâneas, mas sempre tendenciosas.

A própria lógica dessas rádios não compreende que uma rádio de rock deveria, desde o começo, desenvolver um estilo e uma mentalidade mais específicos. Não adianta colocar a palavra "Rock" com destaque no logotipo ou no lema da emissora, ou vinhetas em que um sintetizador imita um solo de guitarra enquanto uma voz pronuncia "wrock" com aparente ênfase, se a programação não está à altura.

Por isso poucas rádios puderam se apropriar para o perfil rock. Poucos executivos de rádio conseguem ter uma percepção (feeling) para implantar ou permitir a implantação de uma rádio de rock com personalidade. Muitas se limitam a enfatizar o nome "rock", mas criam uma postura caricata e mais próxima de qualquer rádio pop convencional, geralmente detestada pelo público roqueiro.

A locução rock, por incrível que pareça, não tem a ver com arranhar a garganta e caprichar nas gírias. É justamente o contrário. A locução, sóbria, é igualzinha ao de um crítico de arte falando na televisão. Fala-se como gente normal, e não como um locutor debiloide metido a "rebelde radical".

Isso é o que havia nos primórdios da Fluminense FM e 97 Rock nos seus primórdios. Elas claramente evitaram um estilo de locução que, hoje, se torna escancarado numa UOL 89 FM. E isso constrange e até irrita muita gente, porque é um locutor que prefere perder tempo fazendo gracinhas, comentando aquilo que não sabe e falando gírias sem qualquer necessidade.

Daí o fracasso de muitas rádios ditas "roqueiras". E, sobretudo com a Internet, onde se torna cada vez mais evidente o diferencial das rádios autenticamente roqueiras, nacionais (as antigas ou as comunitárias ou digitais) e estrangeiras, que possuem locução sóbria e repertório abrangente, em relação à UOL 89 FM, que só toca hit-parade e possui locutores "mauricinhos" (Tatola inclusive).

E quando a Internet mostra essa realidade da forma mais explícita e evidente do que se poderia imaginar há 20 ou 30 anos atrás, é sinal que há algo muito errado na UOL 89 FM na sua "vitoriosa" conduta como pretensa rádio de rock brasileira. Os roqueiros de verdade acabam fugindo dela.

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