sexta-feira, 15 de março de 2013

DONOS DA UOL 89 FM APOIARAM A DITADURA MILITAR


Meu blogue de humor e crítica sócio-política, o Expobesta, foi invadido depois que um blogueiro da UOL 89 FM não gostou das críticas que eu fiz quando defini um episódio em que ele cantou uma música dos Mamonas Assassinas, "Vira Vira", num culto evangélico, como "molecagem" e não como um ato revolucionário de rebeldia.

Quem observa a foto acima vê que aparece, em cima do tópico mais recente, uma frase com um trecho de uma frase citada no texto dele no portal da UOL 89, algo que não foi possível retirar, porque o fragmento não aparece no código-fonte e as mudanças de visual do blogue não eliminam a exibição dessa frase.

Já tive problemas com adeptos da antiga Rádio Cidade (quando ela era a 89 FM carioca) no Orkut, que ameaçaram invadir minha conta e disparavam desaforos violentos. Infelizmente, os "roqueiros" dessas rádios pensam a cultura rock com o próprio umbigo, e agem de forma ao mesmo tempo intolerante e estúpida, sendo um meio-termo entre os "carecas" que espancam nordestinos e a juventude emo.

Que o ouvinte da 89 é um jovem reacionário, isso é verdade. Mas nem todos percebem isso. E, pesquisando a Internet, a gente nota que muitos desses "roqueiros de condomínio de luxo" tem um perfil que se parece muito com um Reinaldo Azevedo metido a roqueiro, ou um José Serra achando que é punk.

A fruta não cai longe da árvore, e uma pesquisa mais cautelosa mostra que os donos da 89 FM, e agora o sócio mais recente, o Universo On Line, possuem uma clara relação de aliança com a ditadura militar. Não é desaforo nem raivinha de discordante, a relação de aliança é historicamente confirmada.

Na página 271 do livro Jânio Quadros: O Prometeu de Vila Maria, de Ricardo Arnt (Ediouro, 2004), José Camargo, patriarca do Grupo Camargo de Comunicação (que inclui a 89 FM e a brega-popularesca Nativa FM) é identificado como um político do PFL (atual DEM) paulista e, juntamente com seu filho João Carlos Camargo (irmão de Júnior e Neneto que administram a 89), como "deputados malufistas".

José Camargo, o patriarca do clã do Grupo Camargo de Comunicação, havia sido ligado ao PDS paulista desde quando este partido se chamava ARENA durante a ditadura militar. Um artigo do Jornal da República, de 02 de janeiro de 1980, cita uma reunião do então governador Paulo Maluf - o vice, então, era o atual presidente da CBF, José Maria Marin - com dois adesistas da ARENA. Um deles: José Camargo.

Aparentemente não vi um texto sobre a associação de José Camargo com o governo de Fernando Collor (1990-1992) na Internet, mas quem viveu a época sabe muito bem que o antigo PDS, do qual Camargo fazia parte, apoiava incondicionalmente o governo Collor.

Foi nessa época que a 89 FM foi financeiramente favorecida, o que fez a rádio jogar pesado na publicidade naquela época, enquanto pegava pesado na deturpação do perfil rock, colocando uma linguagem e uma abordagem incompatíveis com a realidade do público roqueiro no Brasil e no mundo. E olha que eram tempos pré-Internet.

Hoje o pessoal pensa que a 89 FM foi "rádio rock de verdade". Vendo sua programação, isso nem de longe acontece, como nunca aconteceu de fato. Pela programação - a mesma que gerou uma crise de reputação na 89 em 2005 - , o que se vê é apenas uma rádio pop um pouco mais neurótica, com um "vitrolão" que apenas chega perto de alguns macetes grunge / poser e poppy punk.

E agora com a participação acionária do Universo On Line, ligado à Folha de São Paulo, a situação piora mais ainda. Aos Camargo ligados à ARENA e a Paulo Maluf, juntou-se a Folha de Otávio Frias Filho, o mesmo jornal que havia colaborado com o temível DOI-CODI, órgão de tortura da ditadura militar, oferecendo até viaturas para transportar prisioneiros políticos.

INCOERÊNCIA - Com esse currículo, chega a ser incoerente que músicos surgidos no punk rock brasileiro apoiem a volta da 89 FM ao rock, sobretudo Clemente, do grupo Inocentes e agora também na banda Plebe Rude.

Isso porque Clemente havia desafiado Gilberto Gil, então figura consagrada e sagrada da MPB, mas vivendo uma época de estrelismo e despolitização dentro de um meio conhecido como establishment caetânico por Álvaro Pereira Jr. e como "máfia do dendê" pelo também jornalista Cláudio Júlio Tognoli.

O punk rock na virada dos anos 70 para os 80 no Brasil desafiava a ditadura militar, fazia protestos contra os males desse período político bastante delicado, o que chamou muito a atenção até mesmo de jornalistas britânicos e norte-americanos, que viam um cenário bem menos politizado que a cena brasileira.

Mas, hoje, ver que os antigos músicos de punk se tornam condescendentes com a 89 - que pelo jeito odeia tocar bandas que tenham letras críticas mais afiadas e menos sutis - , é algo vergonhoso. Nem digo de João Gordo, porque ele tornou-se, como celebridade, uma figura pop, chegando a entrevistar muitos "sertanejos" e recentemente até parabenizou Luan Santana pelo aniversário.

Só que os demais músicos pelo menos deveriam ter tido cautela. Afinal, outras rádios bem melhores para o rock, como a 97 Rock, a Brasil 2000 e a antiga Excelsior FM (que irradiava na frequência da atual CBN), com gente bem melhor especializada e com uma trajetória sem muitos arranhões na cobertura do rock.

Preferiram aplaudir uma 89 que retomou todos os erros que fizeram derrubar a rádio em 2006. Uma rádio que nunca aprendeu com as críticas e que, numa comparação mais exata, é o "Restart" das rádios de rock. E, além disso, com empresários bastante conservadores e ouvintes, produtores e adeptos completamente reacionários, intolerantes e fascistas.

Difícil é a UOL 89 FM explicar para o mercado por que a 89 estimulava o vandalismo digital, através da promoção de seu próprio fanatismo, pela usurpação do termo "rock" para criar um engodo apoiado cegamente por uma parcela de seguidores temperamentais, cínicos e que só pensam as coisas de acordo com suas equivocadas convicções pessoais.

Esses seguidores são filhotes tardios de uma ditadura militar que eles pode até nem terem conhecido pessoalmente, mas cuja memória lhes foi transmitida por pais, professores e patrões.

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