quarta-feira, 27 de março de 2013

CULTURA ROCK NÃO É SÓ CATARSE


O aparente sucesso da rádio UOL 89 FM se deve não a um resgate de uma visão cosmopolita perdida entre "sertanejos" e "pagodeiros", mas em função de uma visão bastante provinciana e bairrista que vê grandes novidades em coisas que no fundo nem são novas assim.

Isso porque, na prática, a UOL 89 FM não é uma rádio de rock de verdade, mas sim uma Jovem Pan 2 voltada ao que ela entende por "cultura rock". Isso porque é muito fácil jogar a palavra "ROCK" num logotipo de impacto e vinhetas alucinantes e jogar aquilo que as gravadoras previamente anunciam como o que há de "rock'n'roll" no mercado

Difícil é adotar uma linguagem muito diferenciada, ter uma estrutura empresarial e um histórico mais transparente, adotar uma mentalidade sóbria, sem porralouquices. Num Brasil com uma mídia bastante retrógrada e provinciana, é evidente que raras são as emissoras de rádio que são competentes para o rock.

RÁDIO MATUTA

Infelizmente, não é esse o caso da 89 FM. Eu me surpreendi nas pesquisas recentes ao saber que a 89 FM nunca passou de uma rádio matuta, provinciana, dessas que integram o coronelismo midiático do interior do país. Não é à toa que a 89 é do mesmo grupo empresarial da breguíssima Nativa FM.

A diferença é que a 89 FM é sediada em São Paulo, cidade considerada cosmopolita, a maior da América Latina mas que, na prática, sofre o eterno conflito entre o moderno e o arcaico, entre o cosmpolitismo e o provincianismo, até porque a cidade nasceu financiada pela burguesia cafeeira, que representava há cem anos atrás um perfil equivalente ao do agronegócio hoje.

Eu já conheci rádio similar, de desempenho desastroso, que foi a 96 FM de Salvador, formalmente conhecida como Rádio Aratu Ltda. Seu projeto de "rádio rock" era risível, feito para criar uma base de apoio juvenil para os interesses políticos de um político interiorano da cidade baiana de Guanambi, Nilo Coelho, um típico coronel de fazenda.

Recentemente pude perceber o passado do principal proprietário da 89 FM, José Camargo, cuja identidade "secreta" era de um político surgido durante a ditadura militar, filiado à ARENA, e vinculado à figura de Paulo Maluf.

Hoje dá pena ver que uma parcela da juventude que se diz "rebelde" e "contra a corrupção" apoia a 89 sem conhecer esse passado sombrio e não completamente superado. José Camargo pode ter rompido com Maluf, mas depois apoiou Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, e relançou a tal "rádio rock" de mãos dadas com Geraldo Alckmin, José Serra e o sócio Otávio Frias Filho.

ESTEREÓTIPO ROQUEIRO CARICATO

O estereótipo "roqueiro" trabalhado pela 89 FM ao longo de sua história, não sendo diferente nessa sua retomada atual, não é mais do que uma caricatura esquizofrênica que junta clichês de juventude e de rebeldia trabalhados seja por novelas da Globo, propagandas de faculdades particulares, filmes medianos de Hollywood e até mesmo por entes moralistas que vão de delegados de polícia à Opus Dei.

O estereótipo trabalha um tipo "roqueiro" que é uma mistura de pestinha com filhinho mimado. Um rapaz que odeia ler livros, mas é fanático doentio pelo futebol. Um jovem capaz de caluniar os outros mas que exige respeito para si. Um jovem rebelde na forma e reacionário no conteúdo, que fala palavrão e usa o "som rock" como mera catarse para seus instintos animalescos.

Portanto, isso é muito diferente daquele roqueiro que correspondia às rádios originais de rock, que era uma pessoa que adorava pensar e apreciar outras modalidades culturais, que curtia rock autêntico sem desprezar literatura, artes plásticas, Política, História etc.

É uma diferença enorme ver os antigos jovens pensantes que ouviam a Rádio Fluminense FM nos anos 80 e os jovens trogloditas que ouvem hoje a UOL 89 FM. Daí o povo ter sua "rádio rock" que merece, num Brasil que considera o brutamontes Reinaldo Azevedo um "grande jornalista" e elege Merval Pereira para a Academia Brasileira de Letras.

A VERDADEIRA CULTURA ROCK ESTÁ FORA DO RÁDIO

A constatação, um tanto incômoda para muitos, é que a verdadeira cultura rock continua fora do rádio, mesmo em São Paulo. A Kiss FM é que mais se aproxima de sua cobertura, mas ela ainda segue um meio caminho entre oferecer algo diferente em relação à 89 FM e competir com ela mesma, numa rivalidade que muitos acham "teatralmente saudável".

Mas neste caso não existe rivalidade do tipo Beatles e Rolling Stones, mas uma concorrência que envolve aspectos de diferenças e semelhanças que prejudica o radialismo rock. Porque, se a Kiss tem coragem de tocar nomes mais "difíceis" do rock, no entanto tem a covardia de, como a 89, ter programa de futebol (nada a ver com rock) e tocar até mesmo o meloso Bon Jovi.

Nos anos 80 não era assim e eu, no final de minha infância, conseguia entender a Fluminense FM, cuja linguagem, entre 1982 e 1985 (quando eu tinha entre 11 e 14 anos de idade), estava mais para o público de nível universitário.

Ironicamente, depois dos 25 anos só se tem oportunidade de ouvir supostas "rádios rock" que tratam os ouvintes feito débeis-mentais. E o pior é que, com a vocação de "paga-pau" que contamina muitos brasileiros (vide o Big Brother Brasil, por exemplo), ainda tem ouvinte da 89 e similares que me esculhamba na Internet só porque eu critico a "rádio rock" que ele e seus amiguinhos adoram.

MAIOR ACESSO ÀS INFORMAÇÕES TIRA OUVINTES DAS "RÁDIOS ROCK"

Mas hoje questiona-se a mídia por completo e a trolagem que existe na Internet está sofrendo um ciclo que sempre termina na desmoralização do troleiro. Ele no princípio parece triunfante nas suas vinganças digitais, mas depois ele é desmascarado e, se ele faz trolagem no seu local de trabalho, ele é demitido na certa.

Se as "rádios rock" não conseguem oferecer um diferencial que atraia um público mais qualificado, elas sofrerão a crise que nenhuma campanha publicitária consegue resolver. E isso não é mero comentário "infeliz" de alguém que "odeia a 89 FM", é uma constatação que pessoas experientes como o jornalista Luiz Antônio Mello, idealizador da Fluminense FM, não cansa de dizer.

Afinal, se a "rádio rock" não consegue tocar uma música na íntegra, jogando vinhetas ou locuções em cima, o ouvinte se afasta. Ele corre para o MP3 ou para os arquivos de áudio do YouTube e vai gravar o rock que ele quer ouvir do começo ao fim.

Se a "rádio rock" só tem locutores engraçadinhos, desses que falam "galera" a toda hora e adotam gírias clubber - o próprio Tatola, da UOL 89 FM, falou uma vez que foi a um "baladão" - o roqueiro autêntico desliga o rádio, revoltado, porque o que ele quer é um locutor de rock que fale feito gente, de preferência com uma dicção parecida com a de um jornalista musical falando na tevê, com dicção mais natural.

Se a "rádio rock" vai repetindo músicas e só toca obviedades, como a UOL 89 FM faz, atolada na sua mentalidade hit-parade enrustida mas escancarada, o roqueiro nem chega perto do rádio, porque ouvindo seus CDs e seus arquivos MP3 ele tem maior liberdade para escolher o rock que ele vai ouvir.

Não vale lorotas do tipo dizer que um Young Guns (grupo de nu metal) representa o "lado B do rock", ou que até Alice In Chains é "raridade do rock", porque isso só expressa a nivelação por baixo que está na nossa cultura e que contamina até os "roqueiros" da 89, que no fundo reconhecem que o padrão musical corrente é de tendências brega-popularescas.

É só esse pessoal que acha que cultura rock é sinônimo de catarse, da "galera" (sic) pular sobre a cama, da juventude se espernear e "liberar" seus instintos. Cultura rock, de verdade, não é isso. A 89 FM nunca teve um estado de espírito realmente roqueiro, uma filosofia de vida, uma mentalidade própria.

A 89 FM sempre imitou a linguagem das rádios pop que dizia abominar, e em nenhum momento fez juz ao seu impactuante logotipo. No fundo, sempre foi uma rádio de segunda ou terceira categoria, que nada serviu, de fato, para a cultura rock, pois perdeu muito tempo adotando uma mentalidade hit-parade que achou que resolveria a situação de atrair um público mais heterogêneo possível.

Agora, com a blogosfera questionando cada vez mais a grande mídia, a UOL 89 FM não consegue ter o mesmo sucesso que a rádio tinha nos anos 90, embora tente afirmar o contrário. Os tempos são outros. Mas a 89 não está sozinha diante do passado midiático a serviço da ditadura militar. Nomes como Alexandre Garcia, Elio Gaspari, Bóris Casoy, Mário Kertèsz e a Folha de São Paulo estão junto dela.

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