sábado, 30 de março de 2013

COMENTÁRIO DE LUIZ ANTÔNIO MELLO SERVE DE CRÍTICA À UOL 89 FM


Sabemos que existe muita diferença entre as comemorações dos 30 anos de surgimento da Fluminense FM e a volta da dita "rádio rock" 89 FM, ambas ocorridas no ano passado.

O evento da Fluminense FM teve debates, relatos, testemunhos, e até mesmo exposição de material relacionado à emissora, apresentando a autêntica rádio de rock para quem nunca a vivenciou de fato, já que muitos mal eram nascidos quando a Flu surgiu e tiveram seus pais ocupados nas 98 FM da vida.

Já o da 89 FM - que pelo jeito não se sente confortável em virar passado e ser condenada ao (merecido) desprezo público - mais parecia o lançamento de uma nova temporada de Malhação, aquele seriado-novela juvenil da Globo, estando mais para uma noitada repleta de famosos e convidados vip.

Dá para perceber muito bem a diferença entre uma rádio que não precisa colocar a palavra "ROCK" mas mantém todo o seu estado de espírito e uma rádio que precisa colocar a palavra "ROCK" nas vinhetas, nos logotipos e na retórica de sua equipe mas nada tem senão um mero vitrolão que nem chega a ser totalmente roqueiro, já que anda discriminando o rock mais antigo e as bandas alternativas.

E para quem pensa que as pessoas que criticam o tipo de "rádio de rock" trabalhado pela UOL 89 FM (e pela 89 antes do hiato de 2006) são meros internautas malcriados, é bom deixar claro que essas críticas, na verdade, partem de gente muito mais informada e gabaritada, incluindo gente que trabalhou muito dentro de rádios autenticamente rock.

E o próprio Luiz Antônio Mello, que dirigiu a Fluminense FM, já havia feito comentário a respeito. E ele tem conhecimento de causa, porque conviveu dentro dos bastidores do rádio, da imprensa, das agências de publicidade e até com profissionais de televisão, portanto foi e é um homem com uma carreira profissional rica e nada fácil, e sua experiência na Fluminense foi aliás uma das mais difíceis e perseverantes.

Portanto, o comentário que Luiz Antônio Mello escreveu na edição de 1999 do livro A Onda Maldita, é bastante contundente para aqueles que estão sintonizados na UOL 89 FM e pensam que aquilo é "o máximo em radialismo rock". Seguem as seguintes palavras:

"Existe um erro clássico nas grandes empresas quando se metem com Rock, que é fazer uma coisa festiva, engraçada, de patricinhas bonitinhas, quando na verdade Rock é Zappa, Rock é Renato Russo, Rock é Beck e Jeff Beck, e Filosofia, Política, Economia, Estudos Sociais, existência, nada a ver com esse mundo perfeito de mulheres deliciosas e chocolates alucinantes que estão associados ao Rock pela mídia convencional".

Portanto, se os fanáticos pela 89 FM e congêneres se sentem incomodados com as críticas que leem na Internet, é bom prestar atenção no que essas críticas se baseiam antes de fazer qualquer trolagem nas redes sociais.

sexta-feira, 29 de março de 2013

VÍDEO COMPARA LOCUÇÃO DA UOL 89 FM E DA FLUMINENSE FM

Este vídeo dá uma noção didática sobre o que deve ou não ser a locução em rádio de rock.


quarta-feira, 27 de março de 2013

CULTURA ROCK NÃO É SÓ CATARSE


O aparente sucesso da rádio UOL 89 FM se deve não a um resgate de uma visão cosmopolita perdida entre "sertanejos" e "pagodeiros", mas em função de uma visão bastante provinciana e bairrista que vê grandes novidades em coisas que no fundo nem são novas assim.

Isso porque, na prática, a UOL 89 FM não é uma rádio de rock de verdade, mas sim uma Jovem Pan 2 voltada ao que ela entende por "cultura rock". Isso porque é muito fácil jogar a palavra "ROCK" num logotipo de impacto e vinhetas alucinantes e jogar aquilo que as gravadoras previamente anunciam como o que há de "rock'n'roll" no mercado

Difícil é adotar uma linguagem muito diferenciada, ter uma estrutura empresarial e um histórico mais transparente, adotar uma mentalidade sóbria, sem porralouquices. Num Brasil com uma mídia bastante retrógrada e provinciana, é evidente que raras são as emissoras de rádio que são competentes para o rock.

RÁDIO MATUTA

Infelizmente, não é esse o caso da 89 FM. Eu me surpreendi nas pesquisas recentes ao saber que a 89 FM nunca passou de uma rádio matuta, provinciana, dessas que integram o coronelismo midiático do interior do país. Não é à toa que a 89 é do mesmo grupo empresarial da breguíssima Nativa FM.

A diferença é que a 89 FM é sediada em São Paulo, cidade considerada cosmopolita, a maior da América Latina mas que, na prática, sofre o eterno conflito entre o moderno e o arcaico, entre o cosmpolitismo e o provincianismo, até porque a cidade nasceu financiada pela burguesia cafeeira, que representava há cem anos atrás um perfil equivalente ao do agronegócio hoje.

Eu já conheci rádio similar, de desempenho desastroso, que foi a 96 FM de Salvador, formalmente conhecida como Rádio Aratu Ltda. Seu projeto de "rádio rock" era risível, feito para criar uma base de apoio juvenil para os interesses políticos de um político interiorano da cidade baiana de Guanambi, Nilo Coelho, um típico coronel de fazenda.

Recentemente pude perceber o passado do principal proprietário da 89 FM, José Camargo, cuja identidade "secreta" era de um político surgido durante a ditadura militar, filiado à ARENA, e vinculado à figura de Paulo Maluf.

Hoje dá pena ver que uma parcela da juventude que se diz "rebelde" e "contra a corrupção" apoia a 89 sem conhecer esse passado sombrio e não completamente superado. José Camargo pode ter rompido com Maluf, mas depois apoiou Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso, e relançou a tal "rádio rock" de mãos dadas com Geraldo Alckmin, José Serra e o sócio Otávio Frias Filho.

ESTEREÓTIPO ROQUEIRO CARICATO

O estereótipo "roqueiro" trabalhado pela 89 FM ao longo de sua história, não sendo diferente nessa sua retomada atual, não é mais do que uma caricatura esquizofrênica que junta clichês de juventude e de rebeldia trabalhados seja por novelas da Globo, propagandas de faculdades particulares, filmes medianos de Hollywood e até mesmo por entes moralistas que vão de delegados de polícia à Opus Dei.

O estereótipo trabalha um tipo "roqueiro" que é uma mistura de pestinha com filhinho mimado. Um rapaz que odeia ler livros, mas é fanático doentio pelo futebol. Um jovem capaz de caluniar os outros mas que exige respeito para si. Um jovem rebelde na forma e reacionário no conteúdo, que fala palavrão e usa o "som rock" como mera catarse para seus instintos animalescos.

Portanto, isso é muito diferente daquele roqueiro que correspondia às rádios originais de rock, que era uma pessoa que adorava pensar e apreciar outras modalidades culturais, que curtia rock autêntico sem desprezar literatura, artes plásticas, Política, História etc.

É uma diferença enorme ver os antigos jovens pensantes que ouviam a Rádio Fluminense FM nos anos 80 e os jovens trogloditas que ouvem hoje a UOL 89 FM. Daí o povo ter sua "rádio rock" que merece, num Brasil que considera o brutamontes Reinaldo Azevedo um "grande jornalista" e elege Merval Pereira para a Academia Brasileira de Letras.

A VERDADEIRA CULTURA ROCK ESTÁ FORA DO RÁDIO

A constatação, um tanto incômoda para muitos, é que a verdadeira cultura rock continua fora do rádio, mesmo em São Paulo. A Kiss FM é que mais se aproxima de sua cobertura, mas ela ainda segue um meio caminho entre oferecer algo diferente em relação à 89 FM e competir com ela mesma, numa rivalidade que muitos acham "teatralmente saudável".

Mas neste caso não existe rivalidade do tipo Beatles e Rolling Stones, mas uma concorrência que envolve aspectos de diferenças e semelhanças que prejudica o radialismo rock. Porque, se a Kiss tem coragem de tocar nomes mais "difíceis" do rock, no entanto tem a covardia de, como a 89, ter programa de futebol (nada a ver com rock) e tocar até mesmo o meloso Bon Jovi.

Nos anos 80 não era assim e eu, no final de minha infância, conseguia entender a Fluminense FM, cuja linguagem, entre 1982 e 1985 (quando eu tinha entre 11 e 14 anos de idade), estava mais para o público de nível universitário.

Ironicamente, depois dos 25 anos só se tem oportunidade de ouvir supostas "rádios rock" que tratam os ouvintes feito débeis-mentais. E o pior é que, com a vocação de "paga-pau" que contamina muitos brasileiros (vide o Big Brother Brasil, por exemplo), ainda tem ouvinte da 89 e similares que me esculhamba na Internet só porque eu critico a "rádio rock" que ele e seus amiguinhos adoram.

MAIOR ACESSO ÀS INFORMAÇÕES TIRA OUVINTES DAS "RÁDIOS ROCK"

Mas hoje questiona-se a mídia por completo e a trolagem que existe na Internet está sofrendo um ciclo que sempre termina na desmoralização do troleiro. Ele no princípio parece triunfante nas suas vinganças digitais, mas depois ele é desmascarado e, se ele faz trolagem no seu local de trabalho, ele é demitido na certa.

Se as "rádios rock" não conseguem oferecer um diferencial que atraia um público mais qualificado, elas sofrerão a crise que nenhuma campanha publicitária consegue resolver. E isso não é mero comentário "infeliz" de alguém que "odeia a 89 FM", é uma constatação que pessoas experientes como o jornalista Luiz Antônio Mello, idealizador da Fluminense FM, não cansa de dizer.

Afinal, se a "rádio rock" não consegue tocar uma música na íntegra, jogando vinhetas ou locuções em cima, o ouvinte se afasta. Ele corre para o MP3 ou para os arquivos de áudio do YouTube e vai gravar o rock que ele quer ouvir do começo ao fim.

Se a "rádio rock" só tem locutores engraçadinhos, desses que falam "galera" a toda hora e adotam gírias clubber - o próprio Tatola, da UOL 89 FM, falou uma vez que foi a um "baladão" - o roqueiro autêntico desliga o rádio, revoltado, porque o que ele quer é um locutor de rock que fale feito gente, de preferência com uma dicção parecida com a de um jornalista musical falando na tevê, com dicção mais natural.

Se a "rádio rock" vai repetindo músicas e só toca obviedades, como a UOL 89 FM faz, atolada na sua mentalidade hit-parade enrustida mas escancarada, o roqueiro nem chega perto do rádio, porque ouvindo seus CDs e seus arquivos MP3 ele tem maior liberdade para escolher o rock que ele vai ouvir.

Não vale lorotas do tipo dizer que um Young Guns (grupo de nu metal) representa o "lado B do rock", ou que até Alice In Chains é "raridade do rock", porque isso só expressa a nivelação por baixo que está na nossa cultura e que contamina até os "roqueiros" da 89, que no fundo reconhecem que o padrão musical corrente é de tendências brega-popularescas.

É só esse pessoal que acha que cultura rock é sinônimo de catarse, da "galera" (sic) pular sobre a cama, da juventude se espernear e "liberar" seus instintos. Cultura rock, de verdade, não é isso. A 89 FM nunca teve um estado de espírito realmente roqueiro, uma filosofia de vida, uma mentalidade própria.

A 89 FM sempre imitou a linguagem das rádios pop que dizia abominar, e em nenhum momento fez juz ao seu impactuante logotipo. No fundo, sempre foi uma rádio de segunda ou terceira categoria, que nada serviu, de fato, para a cultura rock, pois perdeu muito tempo adotando uma mentalidade hit-parade que achou que resolveria a situação de atrair um público mais heterogêneo possível.

Agora, com a blogosfera questionando cada vez mais a grande mídia, a UOL 89 FM não consegue ter o mesmo sucesso que a rádio tinha nos anos 90, embora tente afirmar o contrário. Os tempos são outros. Mas a 89 não está sozinha diante do passado midiático a serviço da ditadura militar. Nomes como Alexandre Garcia, Elio Gaspari, Bóris Casoy, Mário Kertèsz e a Folha de São Paulo estão junto dela.

segunda-feira, 25 de março de 2013

MÚSICA DO ELECTRONIC SERIA UMA CRÍTICA ÀS "POPOZUDAS"?


A dupla de Manchester Electronic, de Johnny Marr (ex-Smiths) e Bernard Sumner (New Order), é um projeto musical subestimado. Johnny, um dos maiores guitarristas dos anos 80 e um dos mais inspirados compositores de sua geração, e Bernard Sumner, vocalista de uma das principais bandas que fundem pop dançante e rock como ninguém e ex-guitarrista do Joy Division, têm carreiras musicais de respeito.

Pois o grupo, de um repertório que pode fazer os roqueiros radicais torcerem o nariz, mas que, sem dúvida alguma, é feito com muita competência - embora, no estilo, o Electronic se aproxime do New Order e, a exemplo do guitarrista Bernard no NO, Johnny também se aventura nos teclados - , gravou um considerável repertório de boas canções.

Uma delas, de 1991, se chama "Reality", e aparentemente a letra é um recado contra uma moça sem graça e desprovida de inteligência. Mas a letra poderia ter uma mensagem subliminar para os dias de hoje, a julgar pelo fato de que, no Brasil, por exemplo, há os reality shows cujas "musas", na sua maioria, são pouco atraentes mesmo sendo bonitas, e são desprovidas de inteligência e compostura.

Note-se que o refrão também mostra uma mensagem subliminar no arranjo, já que os versos "I don't need you anymore / I'm not the man you're looking for" são cantados por Bernard sob o som do teclado imitando uma cuíca. Seria uma alusão ao fato de que as musas vulgares brasileiras, as chamadas "popozudas", têm nas escolas de samba sua maior "vitrine"?

Vamos ver a letra abaixo e sua tradução livre, e quem for ler que tire suas conclusões pessoais:

Reality

Electronic (autoria de Bernard Sumner e Johnny Marr)

You keep calling but I'm not at home'
To give me your explanation 

I'm not waiting by the telephone
With a feeling of frustration 

I always thought that if you understood
You'd clean up this mess and you'd do me some good

I don't need you anymore 

I'm not the man you're looking for

Can't you see there's nothing in your head
And your body's on vacation
I keep hearing what I never said
You got me in your conversation
Now it's too late and you get what you see
I don't like this hatred, it just isn't me


Realidade

Você me telefona e não estou em casa
Pra você me dar alguma explicação
Não estou aguardando telefonema
Para ficar sentindo frustração
Eu sempre pensei que se você entendesse
Você deixaria esta bobagem e me faria bem assim

Eu não preciso de você jamais
Não sou o homem que você procura na vida

Você não vê que nada há em sua cabeça
E seu corpo está de férias
Me mantenho ouvindo o que eu nunca disse
Você me tem na sua conversa
Mas agora é tarde e você conseguiu o que você vê
Não gosto desta raiva, isso não sou eu

sábado, 23 de março de 2013

É ASSIM QUE SE FAZ UMA COPA DO MUNDO?





COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Infelizmente, o grupo político de Sérgio Cabral Filho e Eduardo Paes são dotados de decisões autoritárias. Eles acham que, agindo assim, estão promovendo o desenvolvimento do Estado do Rio de Janeiro e sua capital, enfrentando oposições aos seus projetos "progressistas". Mas num momento ou em outro eles mostram que não têm a menor sensibilidade com o interesse público, parecendo que estão governando para turistas. E hoje eles realizaram a expulsão das tribos indígenas da Aldeia Maracanã, mesmo com todos os clamores de juristas e ativistas sociais em defesa dos índios.

É assim que se faz uma Copa do Mundo?

Por Fernanda Sánchez* - Reproduzido do blogue Maria da Penha Neles e do blogue de Raquel Rolnik


Nesta sexta-feira, o Batalhão de Choque da Polícia Militar invadiu a Aldeia Maracanã, antigo Museu do Índio, e agiu com extraordinária truculência. Os policiais  jogaram bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo, gás pimenta, bateram nos manifestantes e prenderam ativistas e estudantes. A Aldeia estava ocupada desde o ano de 2006 por grupos representativos de diferentes nações indígenas que, nos últimos tempos, diante do projeto de demolição do prédio (para aumentar a área de dispersão do Estádio do Maracanã, estacionamento e shopping), vinham resistindo.


As lideranças indígenas são apoiadas por diversos movimentos sociais, estudantes, pesquisadores, universidades, comitês populares, organizações nacionais e internacionais de defesa dos Direitos Humanos, redes internacionais e outras organizações da sociedade civil. A luta dos índios e o conflito estabelecido entre o governo e o movimento resultaram num importante recuo do governo, que diante da pressão social desistiu da demolição do prédio e passou a defender a sua “preservação”. A desocupação do prédio foi decretada, com hora marcada. Os índios, no entanto, continuaram a resistir, apoiados por diversas organizações.


Certamente essa posição política ensina muito mais aos cidadãos cariocas e ao mundo sobre preservação, direitos e cidades do que as violentas ações que vêm sendo mostradas nos diversos meios. Para os índios e para as organizações sociais que os apoiam, preservar o prédio vai muito além de preservar sua materialidade. A essência da preservação, neste caso como em muitos outros, está na preservação das relações sociais, usos e apropriações que lhe dão sentido e conteúdo. Seria um exemplo para o Brasil e para o mundo a preservação da Aldeia Maracanã, o reconhecimento de seu uso social e a pactuação democrática acerca da reabilitação arquitetônica do edifício.


Cada vez que se comete um ato de violência que coloca em risco a integridade de um grupo social indígena, se esfacela sua cultura, seu modo de vida, suas possibilidades de expressão. É uma porta que se fecha para o conhecimento da humanidade, como dizia Levi-Strauss. É essa a Copa do Mundo que o governo quer fazer? É esse espetáculo da violência, a lição civilizatória que o Rio de Janeiro tem para mostrar ao mundo? A política-espetáculo tem um efeito simbólico: mostrar que o avanço do projeto de cidade, rumo aos megaeventos esportivos, far-se-á a qualquer custo.


Direitos humanos, democracia e pactuação estão fora da agenda deste projeto de cidade. Os manifestantes, em absoluta condição de desigualdade frente à força policial e seu aparato de violência, lançaram mão de instrumentos bem diferentes daqueles utilizados pelo Batalhão de Choque: ocuparam o prédio para apoiar os índios, resistiram à sua desocupação e manifestaram, no espaço público, nas ruas e avenidas do entorno do complexo do Maracanã, sua reprovação e indignação frente à marcha violenta desta política.


*Fernanda Sánchez é professora da UFF e pesquisadora sobre megaeventos e as cidades.

quinta-feira, 21 de março de 2013

HOJE É UM GRANDE DIA


Hoje é meu dia. Faço 42 anos, embora com uma aparência bem mais jovem. E hoje é um dia de renovação na minha vida. Não vou escrever muito, porque hoje é um dia para eu me curtir. Feliz aniversário para mim mesmo e uma longa vida de saúde e prosperidade.

terça-feira, 19 de março de 2013

A MEDIOCRIDADE DO "FUNK" GARANTE ATÉ CÓPIAS


O "funk carioca" tem dessas coisas. Recentemente, um grupo que se passou pelo MC Federado e os Lelekes foi detido pela polícia e impedido de se apresentar em Juiz de Fora, Minas Gerais. Os funqueiros originais são responsáveis pelo "Passinho do Volante" que fez sucesso com o apoio do jogador Neymar.

O grupo farsante fazia seu vocal em cima de uma gravação do som original, e segundo denuncia o empresário da Furacão 2000, Rômulo Costa - que assumiu o passe do grupo "descoberto" pelo empresário Dieddy Santana -  , os falsos "lelekes" já teriam recebido R$ 500 mil de adiantamento para futuras apresentações.

Dois integrantes do falso grupo, além de dois empresários e um produtor envolvidos na fraude foram chamados para depor na delegacia. Como não comprovaram a apropriação de direitos autorais, o boletim de ocorrência não foi feito. Rômulo Costa, no entanto, estuda meios legais de processar o grupo farsante e seus responsáveis.

A lição que dá esse episódio é que o "funk carioca" não tem qualidade musical alguma e que hoje, seja de modo fraudulento, ou mesmo de uma maneira um pouco mais "responsável", cria-se até mesmo genéricos de funqueiros para alimentar o mercado. Por exemplo, com a saída de MC Perlla do "funk", já que ela se tornou evangélica, o mercado teve que criar uma similar, a MC Anitta, para substitui-la.

Por isso torna-se muito fácil para farsantes criarem clones de ídolos funqueiros. Daí os falsos "MC Federado e os Lelekes". O som funqueiro é o mesmo, não tem a criatividade que certos intelectuais, celebridades e artistas delirantemente atribuem ao gênero, mas as sérias limitações artísticas que mostram a evidente ruindade artística.

Além disso, não há inocência nesse processo de "subversões culturais" que certos apologistas do brega-popularesco, bancando os "profetas digitais", pregam na mídia. Piratear, copiar, vandalizar digitalmente etc não é um processo lícito, e o que a intelectualidade etnocêntrica prega como "revolucionário" na verdade é um processo cruel de precarização profissional e vandalismo mercadológico.

Portanto, nada de libertário ou transgressor. É apenas um mercado "modesto" que segue as mesmas regras do mercadão. E isso faz com que o "funk carioca" acabe favorecendo a criação de ídolos farsantes. Se os originais nunca são grande coisa, imagine então as imitações.

domingo, 17 de março de 2013

FINALMENTE DIVULGARAM QUEM É A "ROSA" DO COMERCIAL DA FORD


Finalmente uma grande notícia. Foi divulgada na Internet, no YouTube, o nome da atriz que fez a Rosa de um comercial da Ford, aquela moça que ficava dizendo "tudo bem" e se contentava com pouco.

Trata-se de Tatiana Thomé, a gracinha experiente que apareceu também em inúmeros comerciais, como os da Ajinomoto, Leader, Aspirina, Tigre - aquele do casamento - e tantas outras propagandas. E ainda foi repórter de uma temporada do Telecurso 2000, além de atuar em várias peças de teatro.

A atriz é uma das mais fascinantes do seu meio, e sua beleza é simplesmente radiante, além de seu talento ser admirável e por isso merecia um grande reconhecimento.

Curiosamente, eu tive uma vizinha, quando morava em Salvador, no bairro do Costa Azul, que era sósia dela. Infelizmente, esta vizinha não dava bola para mim. É a vida...

Quanto a Tatiana, é muito grato saber sobre ela, e independente da beleza estonteante da moça, ela é muito batalhadora e poderia até mesmo se destacar mais no cinema - do qual ela apenas participou em produções menos destacadas - e, quem sabe, na televisão.

Por isso desejamos a ela muito, muito sucesso e vale a pena ver um vídeo que dá uma noção básica de sua carreira.


sexta-feira, 15 de março de 2013

DONOS DA UOL 89 FM APOIARAM A DITADURA MILITAR


Meu blogue de humor e crítica sócio-política, o Expobesta, foi invadido depois que um blogueiro da UOL 89 FM não gostou das críticas que eu fiz quando defini um episódio em que ele cantou uma música dos Mamonas Assassinas, "Vira Vira", num culto evangélico, como "molecagem" e não como um ato revolucionário de rebeldia.

Quem observa a foto acima vê que aparece, em cima do tópico mais recente, uma frase com um trecho de uma frase citada no texto dele no portal da UOL 89, algo que não foi possível retirar, porque o fragmento não aparece no código-fonte e as mudanças de visual do blogue não eliminam a exibição dessa frase.

Já tive problemas com adeptos da antiga Rádio Cidade (quando ela era a 89 FM carioca) no Orkut, que ameaçaram invadir minha conta e disparavam desaforos violentos. Infelizmente, os "roqueiros" dessas rádios pensam a cultura rock com o próprio umbigo, e agem de forma ao mesmo tempo intolerante e estúpida, sendo um meio-termo entre os "carecas" que espancam nordestinos e a juventude emo.

Que o ouvinte da 89 é um jovem reacionário, isso é verdade. Mas nem todos percebem isso. E, pesquisando a Internet, a gente nota que muitos desses "roqueiros de condomínio de luxo" tem um perfil que se parece muito com um Reinaldo Azevedo metido a roqueiro, ou um José Serra achando que é punk.

A fruta não cai longe da árvore, e uma pesquisa mais cautelosa mostra que os donos da 89 FM, e agora o sócio mais recente, o Universo On Line, possuem uma clara relação de aliança com a ditadura militar. Não é desaforo nem raivinha de discordante, a relação de aliança é historicamente confirmada.

Na página 271 do livro Jânio Quadros: O Prometeu de Vila Maria, de Ricardo Arnt (Ediouro, 2004), José Camargo, patriarca do Grupo Camargo de Comunicação (que inclui a 89 FM e a brega-popularesca Nativa FM) é identificado como um político do PFL (atual DEM) paulista e, juntamente com seu filho João Carlos Camargo (irmão de Júnior e Neneto que administram a 89), como "deputados malufistas".

José Camargo, o patriarca do clã do Grupo Camargo de Comunicação, havia sido ligado ao PDS paulista desde quando este partido se chamava ARENA durante a ditadura militar. Um artigo do Jornal da República, de 02 de janeiro de 1980, cita uma reunião do então governador Paulo Maluf - o vice, então, era o atual presidente da CBF, José Maria Marin - com dois adesistas da ARENA. Um deles: José Camargo.

Aparentemente não vi um texto sobre a associação de José Camargo com o governo de Fernando Collor (1990-1992) na Internet, mas quem viveu a época sabe muito bem que o antigo PDS, do qual Camargo fazia parte, apoiava incondicionalmente o governo Collor.

Foi nessa época que a 89 FM foi financeiramente favorecida, o que fez a rádio jogar pesado na publicidade naquela época, enquanto pegava pesado na deturpação do perfil rock, colocando uma linguagem e uma abordagem incompatíveis com a realidade do público roqueiro no Brasil e no mundo. E olha que eram tempos pré-Internet.

Hoje o pessoal pensa que a 89 FM foi "rádio rock de verdade". Vendo sua programação, isso nem de longe acontece, como nunca aconteceu de fato. Pela programação - a mesma que gerou uma crise de reputação na 89 em 2005 - , o que se vê é apenas uma rádio pop um pouco mais neurótica, com um "vitrolão" que apenas chega perto de alguns macetes grunge / poser e poppy punk.

E agora com a participação acionária do Universo On Line, ligado à Folha de São Paulo, a situação piora mais ainda. Aos Camargo ligados à ARENA e a Paulo Maluf, juntou-se a Folha de Otávio Frias Filho, o mesmo jornal que havia colaborado com o temível DOI-CODI, órgão de tortura da ditadura militar, oferecendo até viaturas para transportar prisioneiros políticos.

INCOERÊNCIA - Com esse currículo, chega a ser incoerente que músicos surgidos no punk rock brasileiro apoiem a volta da 89 FM ao rock, sobretudo Clemente, do grupo Inocentes e agora também na banda Plebe Rude.

Isso porque Clemente havia desafiado Gilberto Gil, então figura consagrada e sagrada da MPB, mas vivendo uma época de estrelismo e despolitização dentro de um meio conhecido como establishment caetânico por Álvaro Pereira Jr. e como "máfia do dendê" pelo também jornalista Cláudio Júlio Tognoli.

O punk rock na virada dos anos 70 para os 80 no Brasil desafiava a ditadura militar, fazia protestos contra os males desse período político bastante delicado, o que chamou muito a atenção até mesmo de jornalistas britânicos e norte-americanos, que viam um cenário bem menos politizado que a cena brasileira.

Mas, hoje, ver que os antigos músicos de punk se tornam condescendentes com a 89 - que pelo jeito odeia tocar bandas que tenham letras críticas mais afiadas e menos sutis - , é algo vergonhoso. Nem digo de João Gordo, porque ele tornou-se, como celebridade, uma figura pop, chegando a entrevistar muitos "sertanejos" e recentemente até parabenizou Luan Santana pelo aniversário.

Só que os demais músicos pelo menos deveriam ter tido cautela. Afinal, outras rádios bem melhores para o rock, como a 97 Rock, a Brasil 2000 e a antiga Excelsior FM (que irradiava na frequência da atual CBN), com gente bem melhor especializada e com uma trajetória sem muitos arranhões na cobertura do rock.

Preferiram aplaudir uma 89 que retomou todos os erros que fizeram derrubar a rádio em 2006. Uma rádio que nunca aprendeu com as críticas e que, numa comparação mais exata, é o "Restart" das rádios de rock. E, além disso, com empresários bastante conservadores e ouvintes, produtores e adeptos completamente reacionários, intolerantes e fascistas.

Difícil é a UOL 89 FM explicar para o mercado por que a 89 estimulava o vandalismo digital, através da promoção de seu próprio fanatismo, pela usurpação do termo "rock" para criar um engodo apoiado cegamente por uma parcela de seguidores temperamentais, cínicos e que só pensam as coisas de acordo com suas equivocadas convicções pessoais.

Esses seguidores são filhotes tardios de uma ditadura militar que eles pode até nem terem conhecido pessoalmente, mas cuja memória lhes foi transmitida por pais, professores e patrões.

terça-feira, 12 de março de 2013

CONSELHO DE IGREJAS QUER SAÍDA DE FELICIANO DA CDH


COMENTÁRIO DESTE BLOGUE: Escolher uma figura duvidosa, ligada a grupos religiosos retrógrados e acusado de ser preconceituoso contra negros e gays, que é o pastor Marco Feliciano, é um grande equívoco que irá gerar efeitos danosos para a sociedade, uma vez que a Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados está relacionada ao que há de mais importante no trabalho do Poder Legislativo. Portanto, até mesmo as religiões sérias estão contra Marco Feliciano no cargo, e os movimentos sociais estão pressionando para que ele seja destituído da função.

Conselho de igrejas quer saída de Feliciano da CDH

Por Mario Coelho - Congresso em Foco - Reproduzido também no blogue Escrevinhador

O Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (Conic) pediu neste domingo (10) o afastamento do deputado Pastor Marco Feliciano (PSC-SP) da presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDH) da Câmara. Em nota, o conjunto de entidades informou ter elaborado uma moção de repúdio contra o parlamentar paulista por causa das declarações públicas dele e o processo enfrentado no Supremo Tribunal Federal (STF).

“Considerando o corolário de nossa missão, à luz dos valores que a inspiram, e as manifestações de diversos segmentos da sociedade brasileira, expressamos nosso repúdio ao processo que levou à escolha do Deputado Marco Feliciano (PSC), o qual, por suas declarações públicas, verbais e escritas de conteúdo discriminatório, de cunho racista e preconceituoso contra minorias, pelas quais responde a processos que tramitam no Supremo Tribunal Federal”, diz o Conic em nota distribuída neste domingo (10).

O Conic é formado pelas igrejas Católica Apostólica Romana, Episcopal Anglicana do Brasil, Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, Sirian Ortodoxa de Antioquia e Presbiteriana Unida. Na nota, as igrejas pedem mais ética na política e conclamam por “um Congresso Nacional transparente e com ficha limpa” e pela “reforma política do Estado brasileiro na busca da ampliação da cidadania”.

Com a possibilidade de Marco Feliciano, que é pastor da Assembleia de Deus Catedral do Avivamento, assumir a CDH, a reação contrária começou primeiro nas redes sociais. Depois, entre os próprios membros da comissão. No Twitter, em 2011, ele chamou negros de “descendentes amaldiçoados de Noé”. Contra homossexuais, chegou a dizer que “a podridão dos sentimentos dos homoafetivos levam (sic) ao ódio, ao crime, à rejeição. Amamos os homossexuais, mas abominamos suas práticas promíscuas”.

Em discurso na Câmara, ele defendeu a limitação de divórcios a um por pessoa, pois, na avaliação dele, “uma família destruída hoje projeta sequelas por toda uma geração”. O deputado diz que a resistência ao seu nome é fruto de perseguição religiosa e de “cristofobia“. Hoje o jornal Correio Braziliense informou que ele usou o mandato parlamentar em benefício de suas empresas e das atividades de sua igreja. Além disso, o deputado é réu por estelionato em uma ação penal no Supremo Tribunal Federal (STF). Ele rejeita a acusação de ser racista e homofóbico.

O presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), deve discutir com colegas deputados a situação da CDH e a possibilidade de troca do comando do colegiado na segunda-feira (11). Desde a semana passada a comissão tem gerado noticiário negativo para a Casa com a indicação e consequente eleição do deputado para presidir o colegiado. Ontem, centenas de pessoas protestaram contra Feliciano em dez cidades brasileiras.

domingo, 10 de março de 2013

PREFEITURA DE NITERÓI FAZ "GALHOFA" COM PASSAGEIROS DE ÔNIBUS



Só pode ser alguma gozação. A impopular padronização visual nos ônibus de Niterói, na tentativa de "evitar" os transtornos da medida similar adotada no Rio de Janeiro, fez com que a prefeitura municipal niteroiense adotasse como um inócuo paliativo a exibição, facultativa, do nome da empresa.

Essa exibição é feita através de letreiros digitais ou janelas, o que é insuficiente para mostrar a identidade visual de cada empresa. Só que as autoridades de Niterói apresentam essa medida como se fosse uma "solução" para prevenir a desatenção dos passageiros, segundo a imaginação de seus tecnocratas.

Isso se torna inócuo porque a padronização visual coloca os ônibus com as mesmas pinturas. Em Niterói, há a cor vermelha para o "consórcio" Transnit, destinado às linhas da Zona Norte, e Transoceânico, às linhas da Zona Sul.

A padronização visual é uma herança da ditadura militar e caraterística de um projeto autoritário de mobilidade urbana originalmente lançado pelo político e arquiteto Jaime Lerner. Sua formção vem de uma UFPR comandada pelo reitor Flávio Suplicy de Lacerda, o mesmo que, como ministro da Educação do general Castelo Branco, provocou a ira juvenil que gerou os históricos protestos estudantis de 1966-1968.

Lerner, filiado à ARENA, estabeleceu que colocando diferentes empresas de ônibus sob uma mesma pintura, a pretexto de critério de trajetos ou tipos de ônibus utilizados, iria "disciplinar" o transporte coletivo. É uma visão claramente influenciada pela lógica da ditadura militar, e encontra paralelo ao pensamento que Roberto Campos, também ministro de Castelo, trouxe para a Economia.

Hoje o modelo de mobilidade urbana de Jaime Lerner encontra-se datado em muitos aspectos, além de mostrar que a padronização visual dos ônibus não traz qualquer tipo de transparência, do contrário que se alardeia por aí.

Afinal, analisando as coisas com muita cautela, veremos que a transparência é impossível quando diferentes empresas de ônibus são camufladas com uma mesma pintura. Paliativos não resolvem, sobretudo em cidades de imenso corre-corre, onde nem todo mundo é busólogo e por isso não compartilha dos mesmos conhecimentos técnicos dessas pessoas especializadas em admirar e pesquisar ônibus.

Isso porque a lógica acaba sendo a de um véu acobertando pessoas. A padronização visual mascara, esconde dos passageiros a possibilidade de identificação imediata da empresa de ônibus. No caso de Niterói, um ônibus de piso baixo, por exemplo, mostra um mesmo modelo para as empresas Viação Araçatuba e Auto Lotação Ingá e outro para as empresas Expresso Miramar e Viação Pendotiba.

Percorrendo, em parte, itinerários comuns, as empresas continuam confundindo os passageiros. A exibição paliativa dos nomes das empresas não resolvem quando uma pessoa observa os ônibus fora da única posição pensada pelos tecnocratas, que é tão somente de observar o ônibus pela sua dianteira chegando ao ponto.

No lado esquerdo, os nomes das empresas continuam escritos em tamanho pequeno junto ao nome do "consórcio" e se observou, numa pesquisa feita na Praia de Icaraí, que é difícil reconhecer qual empresa é de um ônibus visto à distância, percorrendo a Praia João Caetano (antiga Praia das Flechas) mas visto de um ponto da Praia de Icaraí, como, por exemplo, próximo à Rua Lopes Trovão.

Alem desse problema sério, que não existia quando cada empresa tinha sua própria pintura, há o fato de que a padronização visual nada tem a ver com a Lei das Licitações, de número 8.666. de 1993. A padronização apareceu como uma interpretação equivocada de alguns artigos, mais pela falta de alguma proibição explícita do que de qualquer tipo de autorização para o "fardamento" dos ônibus.

MOSCA NA SOPA

Colocar a padronização visual como item obrigatório da licitação de um sistema de ônibus é algo comparável ao de tornar obrigatória a presença de um cadáver de mosca em toda sopa servida em um restaurante. Imagine se a gerência de um restaurante alegar que a mosca, por ser uma criatura da natureza, precisa ter seu cadáver boiando sempre num prato de sopa. Você iria gostar?

No Rio de Janeiro, a padronização visual dos ônibus tira até mesmo a responsabilidade de cada empresa pelo serviço. Convenhamos, a padronização visual dá o direito de apresentação de imagem não às empresas de ônibus, e sim à Prefeitura, a pretexto dos tais "consórcios".

Com a pintura padronizada, a prefeitura, que deveria ser apenas dona das linhas de ônibus, se autoproclama "dona" das frotas de ônibus. Isso fere o princípio de concessão de serviço, porque as empresas prestadoras de serviço precisam apresentar sua imagem personalizada para estabelecer uma relação com o público consumidor, os passageiros de ônibus.

Se a Prefeitura estabelece seu monopólio de imagem, o que se vê é uma encampação não formalizada, algo como o que foi feito no Estado do Rio de Janeiro em 1985, só que de uma forma mais cafajeste. E isso está causando a queda vertiginosa de qualidade do sistema de ônibus carioca, onde até mesmo empresas que desempenhavam boa qualidade de serviço agora rodam com ônibus sucateados.

A padronização visual favorece até mesmo a corrupção no sistema de ônibus, porque os passageiros não conseguem mais reconhecer a empresa operadora com facilidade, e no Rio de Janeiro já houve casos de linhas mudando de empresa e empresa mudando de nome sem que o passageiro tenha o menor conhecimento da coisa.

Convém questionarmos essa padronização visual, porque é uma medida antiquada e que não traz qualquer tipo de vantagem para o sistema de ônibus. O único efeito dessa medida é uma propaganda da prefeitura, um tanto oportunista e um tanto cínica. Afinal, trata-se de prefeituras que pouco se importam com a Saúde e Educação públicas, mas que se acham "donas" de uma mobilidade urbana demodê e autoritária.

sexta-feira, 8 de março de 2013

VINÍCIUS DE MORAES É REBAIXADO A "PAI DOS FUNQUEIROS"


Graças a um projeto de Adriana Calcanhoto com o DJ Sani Pitbull, de transformar a poesia de Vinícius de Moraes num "pancadão", o grande poeta brasileiro passou a ser rebaixado a "pai dos funqueiros", em completo desrespeito à sua obra.

Diplomata, poeta, compositor, agitador cultural, presente nos mais diversos acontecimentos culturais do Brasil - ele participou até da fundação do IPHAN! - , tendo sido um dos intelectuais mais importantes do país, ele no entanto passou a ser bajulado de forma leviana.

DJ Sani Pitbull cometeu a besteira de dizer que, só porque Vinícius de Moraes era moderno, ele "seria capaz" de apoiar a aberração chamada "funk carioca". Puro delírio do disc-jóquei que forçou a barra com uma declaração dessas.

E pensar que o título "poetinha" era uma humilhação ao grande Vinícius. E já basta uma duplinha breganeja usurpar o nome dele e do cantor João Bosco (o parceiro de Aldir Blanc), que já é um atentado contra a memória da MPB. E agora vem um DJ dizer de forma cínica que Vinícius é o "precursor dos funqueiros"!

A cultura brasileira merece respeito. Um respeito que figuras como o DJ Sani Pitbull não dá e que nomes como Adriana Calcanhoto embarcam na boa-fé. A MPB nunca ganhará coisa alguma com isso.

terça-feira, 5 de março de 2013

O "FUNK" E O ESTABLISHMENT DA MPB



Infelizmente, há um establishment na MPB que adota uma postura condescendente ao brega-popularesco. Sabemos do famoso caso de Caetano Veloso, mas há também outros nomes como Fernanda Abreu, Adriana Calcanhoto, Zeca Baleiro e mesmo Marisa Monte, que havia gravado recentemente uma canção nos moldes da música brega, "Aquela Velha Canção".

Adriana Calcanhoto, que já se mostrou condescendente com o mofado fenômeno Michel Teló, cuja música ficou envelhecida até se compararmos, por exemplo, com artistas prematuramente falecidos como Sidney Miller, decidiu forçar a barra e preparar um CD de "funk carioca" com canções com letras de Vinícius de Moraes.

O projeto pretensioso contará com a colaboração do DJ Sany Pitbull, que só será feito mais tarde devido aos compromissos de Adriana com o projeto Partimpim. Mas o projeto já está prometido para 2013, em virtude do aniversário de 100 anos de nascimento do poeta.

Só que juntar brega-popularesco com MPB é um processo rotineiro que nada tem de realmente provocador. Ele nunca teve de ousado, era apenas uma forma de fazer publicidade sobre a vaia alheia, e principalmente hoje, quando ela é bem assimilada e aceita pela grande mídia, ela já não causa mais impacto algum.

Sabemos que Adriana Calcanhoto, dentro do projeto Partimpim, tentou "embelezar" um sucesso de Claudinho & Buchecha. Até conseguiu, mas o arranjo era calcado na MPB acústica, o que não é garantido quando se faz o processo inverso, jogando a MPB para arranjos mais bregas.

E será que terá "Garota de Ipanema", para agradar turistas, as "meninas dos olhos" dos empresários do "funk"? Os "humildes" empresários funqueiros estão desesperados, querendo retomar o lobby de 2002-2003, subornando intelectuais, artistas, celebridades e até mesmo internautas para reforçar o falso ativismo e a falsa preciosidade atribuídos erroneamente ao "funk carioca".

Para piorar as coisas, o DJ Sany Pitbull acabou falando uma grande bobagem sobre o "poetinha": “A Adriana acredita que o Vinicius era um cara tão à frente de seu tempo que, se estivesse vivo, estaria fazendo letras para funkeiros”.

Adriana acabou corroborando com tal opinião, infelizmente.  “Eu vejo isso tranquilamente. Assim como não existiria Madonna sem Carmen Miranda, também acho que não existiria o funk sem Vinicius de Moraes. Para mim, ele é o criador do gênero”.

Vinícius de Moraes talvez pudesse ser associado ao funk autêntico brasileiro, de Tim Maia, Cassiano e Hyldon, porque, aí sim, havia uma conexão entre brasileiros juntando samba e jazz da Bossa Nova e brasileiros juntando samba e soul music com o  funk autêntico.

Mas daí a jogar Vinícius de Moraes como "ancestral" de MC Sapão, MC Naldo e MC Coringa são outros quinhentos. Seria como se dissesse que Juscelino Kubitschek é o "ancestral" do empreiteiro corrupto Fernando Cavendish, só porque sua construtora Delta, envolvida nas entranhas do esquema de Carlinhos Cachoeira, esteve comprometida a construir estradas e edifícios.

O novo projeto de Adriana Calcanhoto será mais um em que a aliança entre bregas e a MPB se expressa, mas que como sempre não deixa trabalhos de grande marca nem de qualquer tipo de impacto na música brasileira.

O disco será mais um "fogo de palha" a provocar falsas polêmicas e depois cair no esquecimento, já que nem mesmo o "histórico" dueto de Caetano com Odair José no evento Phono 73, há quarenta anos, conseguiu ter alguma relevância ou deixar qualquer tipo de marca em nossa cultura.

segunda-feira, 4 de março de 2013

LOCUÇÃO EM RÁDIOS DE ROCK: UM PROBLEMA DE MERCADO


Um dos maiores problemas das rádios comerciais ditas "de rock" é quanto à locução. Geralmente as emissoras quase não adotam uma linguagem própria, apenas se reservando a ela no caso de programas específicos, aqueles em que algum músico ou jornalista torna-se o apresentador.

Na grade diária ou mesmo em alguns programas específicos, porém, impera um tipo de locutor impróprio para as rádios de rock. Geralmente com um comportamento domesticado e um tanto abobalhado, com uma voz próxima a de um animador de festas infantis, esse locutor geralmente tem uma pinta de galã, às vezes meio gordinho, e que a tal "rádio rock" promove como o principal astro da emissora.

Esse problema queimou muitas rádios ditas "roqueiras" surgidas nos anos 90, eliminadas pelo baixo Ibope. Mas como no rádio FM brasileiro não se mexe em time que está perdendo, a fórmula prevaleceu, sob algumas adaptações, e virou uma norma obrigatória para a emissora de rádio que queira usar o rótulo de "roqueira".

Com a UOL 89 FM, isso não é diferente. Para piorar, o locutor que faz o tipo "gostosão abobalhado" é o próprio coordenador da emissora, José Carlos Godas, o Tatola. E, para piorar mais ainda, ele havia sido vocalista de uma banda que muitos acreditam ser de "punk rock sério", o Não Religião, mas que no fundo nunca passou de uma imitação fajuta da Plebe Rude.

A própria volta da 89 FM, na chamada "programação do fim do mundo" - em 21 de dezembro passado - , o Tatola comandava a programação, mas pelo tipo de locução ele podia muito bem se passar por algum locutor que se despedia da 89 pop que havia sido a emissora entre 2006 e 2012.

Seu estilo de locução é exatamente igual ao de qualquer locutor das rádios de pop dançante mais banais. Há milhares deles falando igualzinho ao Tatola mas anunciando nomes como Rihanna, Pitbull, One Direction e Britney Spears, com o mesmo discurso, com as mesmas gírias, e coisa e tal.

A questão tornou-se tão problemática que, num sítio de humor como o Expobesta, o texto mais popular em várias semanas era justamente relacionado ao estilo de locução de Tatola, que é apresentador do programa Temos Vagas, na UOL 89, na prática o novo nome de um antigo que ele havia apresentado na mesma emissora, A Vez do Brasil.

LOCUÇÃO POP GEROU DEMANDA EXCESSIVA

A questão ficou ainda mais séria quando Tatola, achando que as críticas se referiam a um estilo comportado, passou a falar de modo mais debochado nas edições mais recentes do Temos Vagas, mais parecendo, na melhor das hipóteses, com o locutor pop da Rede Transamérica, Rui Bala, e, na pior delas, com qualquer apresentador do SBT que faça o papel do palhaço Bozo, principalmente Luiz Ricardo.

Tatola achou que isso o faria parecer um locutor "mais roqueiro", mas isso só complicou ainda mais as coisas, principalmente numa época em que, pouco depois da euforia e do oba-oba em torno da "volta da rádio rock", vieram as críticas, muitas delas enérgicas, à emissora, com uma força maior do que aquelas que derrubaram a emissora em 2006.

Afinal, quem acompanhou as primeiras rádios de rock do Brasil nos anos 80 sabe que locutor de rádio de rock não tem essa voz de mauricinho abobalhado e dotado de gracinhas ou comentários pedantes. Tive a péssima experiência de ser ouvinte da rádio baiana 96 FM, depois que me mudei de Niterói - onde conheci a fase áurea da Fluminense FM - para Salvador.

O estilo de locução adotado na 96 FM era rigorosamente o mesmo adotado na rádio Piatã FM, dedicada à axé-music. E seu astro principal, Thiago Mastroianni, era o pior deles, porque seu estilo era escancaradamente pop. Ironicamente, Salvador já tinha uma locutora mais apropriada para rádios de rock, Adriana Quadros, mas ela trabalhava numa outra rádio de axé-music, Itapoan FM.

Era constrangedor ouvir Thiago "co-pilotando" alguns programas "alternativos" da 96 FM, inclusive um programa de surf transmitido de noite (!), fazendo comentários pedantes até sobre Joy Division. Mas, depois do fracasso da "roqueira" 96 FM (adquirida depois pela Igreja Universal do Reino de Deus), Thiago tornou-se repórter e narrador esportivo da TV Bahia, cargo que desempenha até hoje, lançando até o bordão "Está... Na Rede!" durante um gol de cada time. Mais adequado.

O que fez as ditas "rádios rock" apostarem na locução pop tem uma motivação puramente mercadológica. As rádios pop, surgidas a partir do sucesso de pioneiras como Rádio Cidade (RJ) e Jovem Pan 2 (SP), geraram uma demanda excessiva de locutores, que a expansão para formatos popularescos - sobretudo a partir da carioca 98 FM, atual Beat 98, das Organizações Globo - não conseguiu suprir.

Isso fez com que parte dos locutores formados se aproveitasse da formação profissional e do suposto ecletismo para criar um lobby que os colocasse em rádios mercadologicamente posicionadas ao rock, se aproveitando do modismo de muitas delas que não tiveram qualquer adaptação para uma linguagem e uma mentalidade mais especializadas.

Além disso, havia outras questões complicadas que só favoreceram os locutores "mauricinhos". As rádios "de rock" adotavam a locução pop para atrair um público não-roqueiro e, além disso, havia interesses comerciais e políticos por trás, além do fato de muitos locutores autenticamente de rock não contarem com diplomas de radialismo, apesar da grande competência comunicativa e da especialização aprofundada.

O QUE É UM LOCUTOR DE ROCK?

Tudo isso criou dilemas e vícios que fizeram com que o radialismo rock se tornasse uma caricatura pasteurizada. Para a lógica do mercado, o ideal era que as rádios comerciais fizessem uma guinada lenta e gradual, adaptando-se para o perfil de rádio de rock autêntica aos poucos, conforme a subida de pontos no Ibope. Uma fórmula conveniente para o mercado, mas inconveniente para o público de rock.

Afinal, uma rádio comercial dessas só se aproximará do perfil de uma rádio de rock autêntica depois de muito, muito tempo. Precisa-se esperar modismos, tendências e isso impacienta sobretudo os ouvintes mais jovens, porque isso poderá levar dez, vinte anos, mas mesmo cinco anos já é algo constrangedor. E as mudanças nunca são espontâneas, mas sempre tendenciosas.

A própria lógica dessas rádios não compreende que uma rádio de rock deveria, desde o começo, desenvolver um estilo e uma mentalidade mais específicos. Não adianta colocar a palavra "Rock" com destaque no logotipo ou no lema da emissora, ou vinhetas em que um sintetizador imita um solo de guitarra enquanto uma voz pronuncia "wrock" com aparente ênfase, se a programação não está à altura.

Por isso poucas rádios puderam se apropriar para o perfil rock. Poucos executivos de rádio conseguem ter uma percepção (feeling) para implantar ou permitir a implantação de uma rádio de rock com personalidade. Muitas se limitam a enfatizar o nome "rock", mas criam uma postura caricata e mais próxima de qualquer rádio pop convencional, geralmente detestada pelo público roqueiro.

A locução rock, por incrível que pareça, não tem a ver com arranhar a garganta e caprichar nas gírias. É justamente o contrário. A locução, sóbria, é igualzinha ao de um crítico de arte falando na televisão. Fala-se como gente normal, e não como um locutor debiloide metido a "rebelde radical".

Isso é o que havia nos primórdios da Fluminense FM e 97 Rock nos seus primórdios. Elas claramente evitaram um estilo de locução que, hoje, se torna escancarado numa UOL 89 FM. E isso constrange e até irrita muita gente, porque é um locutor que prefere perder tempo fazendo gracinhas, comentando aquilo que não sabe e falando gírias sem qualquer necessidade.

Daí o fracasso de muitas rádios ditas "roqueiras". E, sobretudo com a Internet, onde se torna cada vez mais evidente o diferencial das rádios autenticamente roqueiras, nacionais (as antigas ou as comunitárias ou digitais) e estrangeiras, que possuem locução sóbria e repertório abrangente, em relação à UOL 89 FM, que só toca hit-parade e possui locutores "mauricinhos" (Tatola inclusive).

E quando a Internet mostra essa realidade da forma mais explícita e evidente do que se poderia imaginar há 20 ou 30 anos atrás, é sinal que há algo muito errado na UOL 89 FM na sua "vitoriosa" conduta como pretensa rádio de rock brasileira. Os roqueiros de verdade acabam fugindo dela.