sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

REVISTA VEJA E BREGANEJO: TUDO A VER



O breganejo, oficialmente conhecido como "sertanejo", é o estilo mais conservador do brega-popularesco, uma espécie de "Tea Party" dos bregas. Sua música extremamente piegas e melosa fala de frivolidades amorosas e letras pseudo-poéticas, dentro do estilo choroso inspirado na música de Waldick Soriano.

Deturpando a antiga música caipira com mal digeridas influências de country music, mariachis mexicanos e boleros, o breganejo existe desde meados dos anos 80, como um subproduto das imposições comerciais das gravadoras à música caipira, que queriam transformar a música rural brasileira num equivalente ao comercialíssimo pop romântico dos anos 70, conhecido principalmente através dos Bee Gees.

A revista Veja, na época do breganejo, já havia se convertido num periódico ultraconservador, que explorava de forma sensacionalista os óbitos de famosos e adotava posturas antipopulares como defender o fim do rádio AM e a privatização de estatais. Eram os anos 80 e a Veja não pegava pesado ainda no reacionarismo aberto de hoje, mas já incomodava por suas posturas ideológicas.

Hoje, quando o "sertanejo" passa a ter uma geração dita "universitária" - um rótulo que não tem qualquer serventia, até porque Luan Santana já era "universitário" desde adolescente - , a Veja entra no auge do reacionarismo, com a trolagem travestida de jornalismo de Reinaldo Azevedo e pelas reportagens mal-humoradas contra os movimentos sociais, além do pedantismo nos assuntos sobre saúde.


A aliança entre Veja e breganejo pode parecer acidental para alguns que possuem memória curta e acham que o brega-popularesco nada tem a ver com a grande mídia (visão que sabemos ser sem fundamento). Mas o brega-popularesco, como categoria de estilos musicais comerciais, sempre esteve aliado à mídia direitista, mesmo quando tentava fazer tráfico de influência na mídia de esquerda.

VEJA EXALTA A VIDA DE LUXO DE CHITÃOZINHO & XORORÓ, UMA DAS DUPLAS PSEUDO-SOFISTICADAS DO BREGANEJO.

A memória curta faz com que muitos pensem que a geração breganeja dos anos 90 é "música de raiz". Para os mais jovens, mediocridade antiga é "genialidade", mas isso não quer dizer que Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano e as tragicamente extintas duplas Leandro & Leonardo e João Paulo & Daniel (das quais sobraram os segundos integrantes de cada nome) sejam melhores que as duplas atuais.

Pelo contrário. Essas duplas só são "sofisticadas" pelo aparato feito em apresentações superproduzidas e por um banho de loja, de técnica e publicidade. Mas, musicalmente, continuam tão medíocres quanto as duplas e cantores solo recentes, como Michel Teló, Gusttavo Lima, João Lucas & Marcelo ou mesmo Victor & Léo e João Bosco & Vinícius, as duas duplas cujos fanáticos fãs apelam para a trolagem.

O breganejo mais antigo se beneficiou pelos tardios covers de MPB - com ênfase a um tendencioso parasitismo sobre o Clube da Esquina - , sobretudo no cancioneiro caipira, além de passarem a ter a seu serviço as equipes técnicas das grandes gravadoras (de arranjadores a artistas gráficos) ligados à MPB depois que esta promoveu um êxodo fonográfico para a Trama ou a Biscoito Fino.

Daí a enganação dos jovens que pensam que Chitãozinho & Xororó é "música caipira de verdade". A dupla sempre se comprometeu com um comercialismo musical desde o começo de carreira, mesmo fazendo arremedos de música caipira de raiz.

Ideologicamente conservadores, Chitãozinho & Xororó são ricos há muito tempo, sendo também latifundiários e aliados dos políticos ruralistas e do tucanato político, lembrando que o PSDB apoia e patrocina, com gosto, o famoso Festival de Barretos.

Mesmo as tentativas de empurrar o breganejo para o esquerdismo não eram muito ousadas. Tentou-se promover a dupla Zezé di Camargo & Luciano como uma dupla "marxista", só por causa de um dramalhão cinematográfico sobre sua origem "humilde" e o apoio eleitoral a Lula. Mas os dois também votaram no ruralista Ronaldo Caiado para o Congresso Nacional e um deles militou no reacionário "Cansei".

Mesmo a blindagem das esquerdas médias teleguiadas pela intelectualidade sorospositiva - sobretudo Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo - não conseguiu convencer. Além disso, as manobras tinham limites, já que não dava para associar o ruralista breganejo com o movimento dos sem-terra, abominados até mesmo pelos mais flexíveis barões do mercado do entretenimento "popular".

Quando muito, tais ideólogos evitavam cruzar as posturas anti-ruralistas supostamente defendidas e o apoio ao breganejo. Falava-se, em separado, "contra" os ruralistas e "a favor" dos sem-terra, e em defesa do breganejo (culturalmente alinhado com o coronelismo político), como se cultura não tivesse a ver com política.

Mas tem. Embora a reportagem da presente edição de Veja enfatize os "sertanejos universitários", ela sinaliza as alianças do coronelismo político, do direitismo midiático e do brega-popularesco, já que as distorções em torno da cultura popular, tendenciosamente manobradas pelo mercado e pela mídia, não podem ser confundidas com qualquer processo espontâneo de modernização da cultura do povo pobre.

Muito pelo contrário. As manobras mercantilistas assimilam elementos estrangeiros, não da forma espontânea de quem gosta de música estrangeira e assimila com naturalidade, mas por imposição do mercado sobre aquilo que está fazendo sucesso. E isso vale para qualquer tendência brega-popularesca, inclusive o tal "sertanejo".

Portanto, Veja não descansou de seu reacionarismo quando deu essa reportagem de capa sobre os "sertanejos". Ela apenas escolheu uma trilha sonora perfeita para sua linha editorial. Revista Veja e breganejos: tudo a ver.

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