domingo, 24 de fevereiro de 2013

IMBECILIZAÇÃO CULTURAL LANÇA MAIS UMA "SENSAÇÃO DA INTERNET"


O maior truque propagado pelos barões da grande mídia para tentar se livrarem da culpa pela imbecilização cultural é atribuir os novos sucessos aos "fenômenos da Internet". Não bastasse a blindagem intelectual que tenta creditar essa imbecilização como "nova cultura das classes populares", vemos a "indústria cultural" tentando dar a falsa impressão de que essa pseudo-cultura não tem a ver com a grande mídia.

Tem, e muito. Seja de forma direta, seja de forma indireta. Em muitos casos, produtores armam grupos e intérpretes para fazer sucesso. Em muitos outros, pessoas formam carreiras, individuais ou em grupo, de forma espontânea, mas são "educados" pela péssima formação cultural das rádios e TVs popularescas.

O uso da Internet é apenas um teste de marketing. O YouTube não é uma mídia alternativa. Lá cabe de tudo e até o Instituto Millenium possui conta lá. E, se no Brasil há muita gente reacionária usando as redes sociais - dos troleiros aos "urubólogos" - , não dá para creditar as novas mídias digitais como celeiros de supostas rebeliões sócio-políticas, como pregam certos intelectuais.

Com tantas bobagens lançadas no YouTube que viram "sucesso na rede", depois de Stefany Absoluta, Michel Teló e outras coisas dignas da seção "Vergonha Alheia Records" do portal humorístico Kibeloco, agora temos a "nova sensação" chamada MC Federado e Os Lelekes, um dos nomes da modalidade mais comercial do "funk carioca", aquela com letras alegres e eventualmente com muitas "popozudas".

Neste caso, o grupo é integrado apenas por rapazes que, entre 18 e 20 anos, decidiram fazer um "funk" sob a batuta do empresário Dieddy Santana, que afirmou que a agenda do grupo foi "fechada até o início de junho". Segundo Dieddy, eles são originários da mesma comunidade de MC Buchecha, remanescente da dupla Claudinho & Buchecha que integra a "cena" de "funk melody" junto a MC Sapão e MC Naldo.

O que significa que MC Federado e Os Lelekes, assim como Claudinho & Buchecha, vêm da região de Niterói e São Gonçalo, cidades ultimamente castigadas pelo brega-popularesco, mais de vinte anos depois do colapso da rádio de rock Fluminense FM, símbolo da cultura de qualidade niteroiense.

Pior: o grupo de funqueiros vem de Engenhoca, bairro niteroiense vizinho a Barreto, onde passei minha infância. Não digo que é pior por esse aspecto, mas pelo fato de que em 1987, em visita a um colega do Liceu Nilo Peçanha - nessa época eu estava com 16 anos, cheguei a ouvir, numa casa na Rua Dr. March, próximo à Praça Cíber Mendonça, na Venda da Cruz, um ensaio de uma banda de rock.

A banda nunca pude saber o nome, mas naquela Venda da Cruz vizinha a Engenhoca (este bairro gira em torno da Av. João Brasil, a Venda se aproxima da Rua Dr. March e é vizinha de São Gonçalo) seu som era de uma qualidade incrível. Também não me lembro das melodias, mas se fosse por esse som Luiz Carlos Calanca teria contratado imediatamente o grupo para seu selo Baratos Afins.

Mas os tempos são outros, os 94,9 mhz que irradiavam cultura rock de verdade - perto do que foi a Fluminense FM, a UOL 89 FM de hoje parece o Restart - foram manchados com pop dançante e hoje só tem noticinha e opinionismo do qual só se salvam poucos momentos, e Niterói e São Gonçalo foram entregues à podridão da cafonice cultural.

O sucesso dos funqueiros se intitula "Passinho do Volante", que, segundo o jornal O Dia, conta "com mais de 11 milhões de visualizações só do vídeo original e 30 milhões se contarmos as versões". O refrão da música, só para sentir a coisa, é "Aaaaaaaaah lelek lek lek lek lek lek lek lek lek lek". Até o craque Neymar gostou da música e ensaiou uns passinhos. E por acaso Neymar é algum entendedor de cultura?

Evidentemente, as empresas de entretenimento - vamos deixar bem claro que Dieddy Santana é um empresário, algo que a nossa intelectualidade badalada faz vista grossa - fazem um lobby danado para que seus clientes façam sucesso no YouTube.

A grande mídia e sua obsessão ao sensacionalismo ajudam muito, sobretudo nos vídeos de bobagens e gafes - que Fausto Silva define como "vídeocassetadas" - que os apresentadores de TV tolamente definem como "extraídas da Internet", fazendo com que o público médio recorra à rede mundial de computadores só para procurar besteiras.

Mas já se fala que o YouTube anda alimentando o jabaculê brasileiro. É o que disse, no portal Diário do Centro do Mundo, do jornalista Paulo Nogueira, um artigo do músico Emir Ruivo, da banda Aurélio & Seus Cometas, intitulado "A ideia de que um mercado fonográfico cresceria com a Internet se foi".

Criticando o fato do YouTube divulgar o número de visualizações de textos, fato determinante para o estimulo da popularização dos vídeos desse portal e o alimento do mercado jabazeiro, Emir Ruivo disse as seguintes frases:

"Por incrível que possa parecer, este número é o provável responsável pelo crescimento do site. A lógica é simples: você colocou um vídeo lá; quer que ele seja visualizado; divulga a página onde ele está – logo, divulga o Youtube. Desta forma, a empresa se beneficiou de publicidade gratuita como nunca na história deste mundo velho sem porteira.

O mercado fonográfico hoje trabalha única e exclusivamente em torno do deste site. Rádio, TV, revista, jornal, e até outros sites, são perfumaria. O assessor de imprensa do artista busca ser notícia neles, claro, mas para aumentar as visualizações no Youtube – e, assim, o valor do cachê do seu artista."

Por isso é que existem fenômenos como MC Federado e os Lelekes, que nada acrescenta de renovação para nossa música. Trata-se apenas de mais um ítem para o "Vergonha Alheia Records", um sucesso "fogo de palha" como o de Michel Teló, propagado às custas de jogadores de futebol. Talvez depois eles se tornem novos "coitadinhos" acariciados pela proteção paternal da intelectualidade etnocêntrica. Só isso.

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