quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

BREGA POSSUI CONCEITOS DE IDENTIDADE E ALTERIDADE CONFUSOS


Apesar da intelectualidade fazer vista grossa, não foi difícil para os barões da grande mídia apostarem no brega. Música de fácil concepção e baixo investimento, de aparente apelo popular e bem de acordo com as regras do mercado, o brega nem de longe está a ser uma "revolução cultural" de que sonha os "pensadores" mais baladados de nosso país.

O brega tem noções de identidade cultural e de alteridade bastante confusos. Primeiro, porque não passa de uma "colcha de retalhos" onde se absorve, de forma confusa, instintiva mas não raciocinada, uma gama diversa e contraditória de referenciais radiofônicos do momento, mas tardiamente traduzidos numa música comercial, geralmente romântica, que depois se torna sucesso nessas mesmas rádios.

Segundo, porque o brega segue uma perspectiva provinciana, onde as tensões entre o caipira e o urbano, o tradicional e o moderno, não são resolvidas, do contrário que se vê nas manifestações genuinamente artísticas e culturais. O brega prefere não resolver essas tensões, como também não revolve as tensões entre o "eu" e o "outro".

E esse é o problema que fez a má fama do brega até hoje, apesar da blindagem intensa feita pela grande mídia e pelo lobby intenso feito por uma geração de intelectuais que superestima o aval que o mainstream tropicalista havia dado aos bregas, a partir de Caetano Veloso.

O brega não é criativo porque nada oferece de novo. Ele é constituído sempre de expressões tardias de tendências musicais diversas, muito mal assimiladas e trabalhadas de forma caricata e estereotipada. O brega sempre é o último a saber, a cafonice é expressão de atraso social, o brega nunca é vanguarda porque é retaguarda. O brega é lanterna, não é farol.

Sabemos que a ideologia brega se vale de um cenário ingrato para as classes populares, que soa estranho o apoio que recentemente as esquerdas médias haviam feito ao brega, classificando-o erroneamente como "libertário" e "vanguardista".

Afinal, a ideologia brega se vale sempre numa posição subalterna da população pobre, sendo o primeiro manifesto de glamourização da pobreza feito pela mídia desde 1964. Ela se baseia no subemprego, no comércio clandestino, no alcoolismo, na prostituição, na baixa autoestima, nos lamentos resignados dos problemas cotidianos, no conformismo, no consumismo, no escapismo.

Culturalmente, ele não manifesta identidade cultural alguma. Até porque brega é brega seja no Pará ou em São Paulo, podendo surgir ídolos rigorosamente iguais, sem qualquer identidade regional. Há a submissão ao que o poder radiofônico regional impõe como valores artísticos e culturais, sabendo que, no interior do país, essas rádios são controladas pelo poder coronelista que domina essas regiões.

CONFLITO ENTRE O "EU" E O "OUTRO"

Portanto, a "identidade" do brega é determinada pelo "coronel" que estabelece sua influência em rádios regionais e até serviços de auto-falantes, em revistas e jornais regionais, em emissoras de televisão. Ou seja, isso significa um conflito entre identidade e alteridade que nem de longe se torna resolvido.

Esse conflito entre o "eu" e o "outro" no brega se dá de diversas formas. Os primeiros sucessos bregas, a partir de nomes como Waldick Soriano, por exemplo, não sabiam se eram boleros ou canções country, pois os arranjos, em vez de fundirem harmoniosamente os dois estilos, tentam ser vagamente um e outro ao mesmo tempo.

O brega tenta ser "estrangeiro" de forma bem provinciana, e tenta ser "brasileiro" de uma forma "entreguista". São problemas que fazem sua expressão se tornar vazia de sentido, só permitindo o sucesso do brega por conta do apoio dado pelo poder midiático local e nacional e pela crise sócio-cultural vivida pelo povo brasileiro durante a ditadura militar.

O brega também é aquele cidadão de baixa renda conformado com seus problemas sociais. E que tenta ser burguês de maneira caipira, um matuto arrumadinho, que os intelectuais de forma tão paternalista confundiam com a imagem de gente simples.

É manifesta no brega uma sub-criatividade que não é essencialmente criativa, mesmo considerando processos de recriações a partir do já feito. Isso porque o brega é confuso nesse conflito entre alteridade e identidade, entre moderno e ultrapassado, entre regional e estrangeiro. E por que, na era da Internet, o brega conseguiu se reciclar ao invés de desaparecer?

PODER MIDIÁTICO TAMBÉM É ATRASADO

O brega se reciclou porque as relações políticas e midiáticas que apoiaram essa música se reciclaram no poder. Segmentos políticos civis que apoiaram a ditadura militar conduziram a redemocratização e apoiaram governos como os de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso.

O então presidente José Sarney, nos anos 80, e seu ministro Antônio Carlos Magalhães, ambos notáveis chefões oligárquicos de seus Estados, favoreceram o surgimento e o crescimento de rádios que ampliaram o sucesso comercial e a "diversificação" das tendências derivadas do brega, fortalecendo os simulacros "regionais" que os interesses turísticos fizeram serem implantados em locais como Bahia, São Paulo e Pará.

O crescimento da influência "nacional" na música brega, feito não somente para amenizar críticas, mas também a atender a interesses turísticos forjando uma "diversidade cultural", se deu sobretudo quando a ditadura militar precisava de modismos que reafirmassem nacional e regionalmente seus projetos políticos, através da música.

Assim, veio o "sambão-joia" de nomes como Benito di Paula, como reafirmação do ufanismo brasileiro de 1968-1974, que depois inspirou as diluições da música caipira nos anos 70 e na implantação de ritmos caribenhos no Pará. E que deu, em seguida, na lambada e na axé-music, além de outras experiências derivadas que hoje conhecemos.

Essa ampliação do brega-popularesco se deu porque temos uma mídia atrasada, um mercado atrasado, atrelados a interesses compartilhados pelo latifúndio, mesmo quando se tratam de zonas urbanas ou mesmo quanto ao ensino universitário. É o mesmo poder que, no âmbito do jornalismo político, revela pessoas de visão antiquada como Merval Pereira, Reinaldo Azevedo e Eliane Cantanhede.

É por causa desse poder econômico, político e midiático, que ainda por cima apoia o capitalismo estrangeiro, que temos hoje a expansão do brega-popularesco e o enfraquecimento mercadológico da MPB que floresceu no começo dos anos 60. Último reduto de um país que pensava o nacional-popular de verdade, a MPB autêntica hoje é discriminada pela mídia e pelo mercado.

E quem contribui com isso é uma intelectualidade dominante de hoje que havia se formado a partir de um projeto ideológico calcado na Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso, cuja influência é bastante forte mesmo diante de posições falsamente progressistas como as do mineiro Eugênio Arantes Raggi e do paranaense-paulista Pedro Alexandre Sanches.

Essa intelectualidade também é atrelada à mídia, não bastasse seu vínculo - se não formal, pelo menos no legado ideológico - com o demotucanato político-acadêmico. E essa intelectualidade não está fora desse contexto de atraso em que vive a mídia, a política e o mercado no Brasil.

Afinal, todos eles querem o brega, porque ele faz o povo brasileiro perder suas identidades com um relativismo viciado onde não se sabem os limites entre o "eu" e o "outro". Em outras palavras, transforma nossa crise de identidade num conformismo com cacoetes pós-modernos.Culturalmente enfraquece o povo, mesmo com a falsa impressão de que ele é "bem valorizado".

Isso viciou o gosto popular, enriqueceu o mercado e, acima de tudo, legitimou o poder político, econômico e midiático que sempre apoiaram a "cultura" brega e seus derivados, não só na música, como também no comportamento, cheio de jornalismo policialesco, "popozudas" e pobretões estereotipados pelo humorismo da grande mídia.

Portanto, o brega, como um todo, destruiu o nosso país. Ultimamente, tenta-se recuperar o Brasil no âmbito econômico, mas se nada for feito para superarmos a breguice cultural, não "desbregalizando" o brega, mas rompendo com sua hegemonia cultural, o Brasil continuará culturalmente subdesenvolvido. E isso o deixará longe de ser uma verdadeira potência mundial. Povo fraco, país fraco.

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