terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A IRRESPONSÁVEL DUBLAGEM DE PRODUÇÕES PORTUGUESAS NO BRASIL


Uma coisa digna de piada de brasileiro em Portugal ocorre, mais uma vez. É a dublagem, em português brasileiro, do seriado da TV portuguesa Equador, ficção histórica produzida pelo canal TVI. Ignorando todo o processo de interação entre portugueses e brasileiros, a dublagem reflete a que ponto os brasileiros são vítimas da imbecilização cultural de que tanto descreveu Mino Carta.

As alegações usadas pela TV Brasil (antiga TV Educativa) para a adoção da dublagem - algo semelhante foi feito para uma novela brasileira transmitida pela Rede Bandeirantes - , citadas pela assessora de Ouvidoria da EBC (Empresa Brasil de Comunicação), Carolina Farah, em resposta ao articulista do Observatório de Imprensa, José Guilherme Alves Martini, parecem à primeira vista "corretas". Eis o que ela escreveu:

"No que diz respeito à dublagem da minissérie Equador, a Superintendência de Programação da TV Brasil esclareceu que a série original em português lusitano não é compreensível para a maioria dos brasileiros – testamos a possibilidade com grupos de telespectadores, focus group – ainda mais se tratando de textos dramatúrgicos. O próprio produtor da série nos propôs, então, que para a mesma atingir o maior número possível de brasileiros o melhor seria dublá-la para o português do Brasil. Havia também a possibilidade de legendá-la mantendo o áudio original, mas isso seria excludente, já que muitas pessoas, em geral mais idosas, têm dificuldades em ler legendas e ver as cenas simultaneamente. Além disso, por sermos uma emissora pública, nosso dever é contemplar a língua pátria e tornar a série mais acessível. São escolhas e decisões tomadas pensando em agradar a grande maioria."

Num país onde os intelectuais acham sinônimo de "elitismo" e "higienismo" desejar a melhoria da cultura do povo pobre, e onde muitos acham natural as escolas públicas simplesmente não funcionarem, o argumento parece "correto" porque usa alegações tipicamente tecnocráticas para "justificar" a ignorância do público.

O próprio José Guilherme lamentou a resposta, destacando que a missão da TV pública deveria estimular a cultura, por não estar sujeita às regras do mercado. Há muito a mídia em geral desqualifica e desnivela as expressões culturais para "atingir o grande público".

O pior é que, no elenco do seriado Equador, há uma figura muito conhecida entre os brasileiros, a atriz portuguesa Maria João Bastos, beldade que passou um bom tempo no Brasil, participando de novelas da Rede Globo e que teve até um "namorico" com a atriz Letícia Spiller, atualmente em Salve Jorge.

Se o fato de Maria João quase ter virado brasileira não estimula que o som original do seriado seja mantido, a situação torna-se então muito séria, e vai contra os princípios de cooperação entre os países lusófonos, já que dublar produções lusitanas, no Brasil, é o mesmo que rir da cara do povo português.

E deve-se levar em conta que os países lusófonos se reúnem periodicamente para discutir as evoluções do idioma. A própria reforma ortográfica de 2012 é resultante de debates ocorridos entre especialistas de diversos países que falam a língua portuguesa acerca das transformações sofridas pela língua nos respectivos países, sejam Portugal, Brasil, Angola ou outros.

Dificuldades de ouvir o português lusitano, bem mais veloz e de pronúncias mais complexas, algo comum entre os brasileiros médios, não é desculpa para a dublagem. Afinal, o hábito cria a familiaridade da audição de sons estranhos. Há casos de pessoas, no Brasil, que aprenderam o inglês apenas ouvindo as rádios de ondas curtas, sem qualquer curso, apenas com a eventual ajuda de um dicionário.

A paciência em ouvir gente que fala o nosso idioma, ainda que de forma mais complexa, é algo que, em uma questão de meses, pode reduzir a incompreensão original. É como ocorre em qualquer bebê, que, não sabendo falar, adquire o hábito, em princípio, com a simples audição das pessoas que o cercam, sobretudo seus pais.

Nos EUA, as produções da TV britânica, quando lá transmitidas, mantém o som original com todo o sotaque carregado dos britânicos. E nem por isso existe qualquer dificuldade ou conflito com isso. No caso da língua portuguesa, produções da TV brasileira são veiculadas em Portugal mantendo totalmente o som original.

Portanto, nada justifica a dublagem de produções portuguesas no Brasil. Isso é adaptar-se à ignorância popular sem que algo seja feito para superá-la. E ver que isso acontece numa TV pública é mais constrangedor, pelas responsabilidades que deveria ter uma TV educativa. Mas hoje a televisão educativa se corrompe pela necessidade de recursos pela via comercial ou política.

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