sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A IMPOTÊNCIA DAS RÁDIOS COMERCIAIS "DE ROCK"


Um aspecto muito comum nas rádios comerciais ditas "de rock" é a sua impotência em promover uma programação mais abrangente e que reflete a realidade do público roqueiro mais autêntico. Há muita pose que aumenta demais as expectativas, mas as promessas acabam longe de serem inteiramente cumpridas.

No discurso, existe a falsa impressão de que essas emissoras FM estão dispostas a tudo. A princípio, seus locutores e coordenadores, geralmente de formação bem pop, esperam que músicos, lojistas e jornalistas mais especializados em rock viessem com pitacos, palpites e macetes. Aparentemente, eles aceitam qualquer sugestão e proposta que fosse aproximar a rádio a uma abordagem mais real da cultura rock.

Só que a prática mostra que isso não é fácil. Em primeiro lugar, porque as mudanças são poucas e são feitas de acordo com interesses comerciais, principalmente visando a obtenção de mais pontos no Ibope, em se falando não em rádios segmentadas, mas no ranking geral de emissoras.

As mudanças sempre são poucas, embora aparentemente a emissora ofereça "muitas novidades". São programas "novos" que apenas refletem algumas sugestões de tendências do rock abordadas pela emissora, geralmente colocando algum especialista como apresentador ou produtor. Ou então campanhas "cidadãs" que tentem criar algum diferencial na credibilidade da emissora.

No cardápio diário, o hit-parade roqueiro é apenas "arrumado", colocando alguns sucessos de nomes "um pouco mais difíceis" do rock, dentro daquela perspectiva comercial e da compreensão superficial do rock de seus locutores, produtores e pelo coordenador.

Por exemplo. Uma rádio comercial, de "só sucessos", decide ser "rádio rock" e coloca um repertório "só sucessos" reservado ao gênero, com nomes manjados como Nirvana, Titãs e Faith No More, comerciais tipo Bon Jovi e Outfields, bandas medianas tipo Live e coisas nem tão roqueiras assim como Alanis Morissette. Algum mega-sucesso do Van Halen aqui, outro do U2 acolá, um Midnight Oil inserido aqui ou ali...

De repente, ocorrem as "mudanças". É um programa de "rock mais alternativo" aqui, outro de "clima mais noturno" acolá, programas "especiais" sobre cada intérprete, outro programa com "músicas ao vivo", outro misturando entrevista e "muito rock'n'roll", coisas que na teoria soam grandes mudanças e novidades empolgantes, mas que na prática são mudanças mornas, inexpressivas.

E há também pequenas inserções na programação musical. Poucas, muito poucas, geralmente tomadas como "ganchos". Alguns exemplos:

1) Tocam-se músicas apenas de acordo com os ganchos. Se a música é a versão original de um sucesso tocado em rádios pop, ela é tocada. Se é tema de um blockbuster do cinema norte-americano, idem. Se é um medalhão do rock que chega ao Brasil, mais ainda. Mas geralmente nada além dos grandes sucessos.

2) Toca-se algum rock mais pesado, algum rock mais antigo, algum rock mais alternativo num cardápio musical que, mesmo assim, não se torna mais diversificado, afinal as músicas acabam sendo sempre as mesmas.

3) Há locução e vinhetas em cima das músicas, ainda que seja apenas na parte final, já que ultimamente os locutores geralmente evitam falar na introdução (pegou mal demais). Às vezes as músicas são "editadas" para encurtar duração e o prazer de ouvir as versões originais é perdido.

Isso faz com que a paciência tenha limites. Com o tempo, mesmo essas novidades tornam-se bastante rotineiras. E, por mais que elas tentem melhorar alguma coisa, falta aquela "alma roqueira" que a emissora em questão não tem.

As mudanças acabam soando tendenciosas, as brechas oportunistas, e mesmo a inclusão de nomes mais alternativos ou conceituais do rock não acaba aproximando os ouvintes mais radicais, que ficam cada vez mais desconfiados. Até porque o que essas rádios tocam eles já ouvem em disco ou CD há vários meses ou até anos.

Afinal, ouve-se aquela linguagem pasteurizada que contrasta com aquelas vinhetas em que a palavra "rock" é pronunciada de forma bem apelativa e até forçada, seja "rrrrock" ou "wrock". Aqueles locutores "mauricinhos", com aquela linguagem afrescalhada, aquela dicção quase efeminada dos locutores masculinos, aquele jeitão quase infantil das locutoras femininas, aquele clima "familiar demais", uma certa pieguice...

Isso derruba de vez a pretensão dessa emissora em ser uma rádio de rock séria. As mudanças não são tantas, são muito lentas e sempre limitadas, e o público de rock não gosta de esperar. Aquele garoto de 16 anos não gostaria que essa rádio se aproximasse de algo "decente" só quando ele se tornar um pai de um garoto de 16 anos.

A rádio só acaba sendo prestigiada entre os leigos que não curtem rock, pois para eles a rádio é "roqueira" porque eles nunca se envolveram realmente com a cultura rock. Mas para o público especializado em rock, a rádio chega a ser pop demais...

São esses os problemas que acabam comprometendo rádios como a atual UOL 89 FM, num contexto em que as informações sobre rock são mais acessíveis e rádios autenticamente de rock estrangeiras são ouvidas em larga escala no Brasil.

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